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Jornalista não é 'cão adestrado' de político

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Maremagnum via Getty Images
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Ser jornalista político no Brasil não é fácil. Aqui em Roraima menos ainda. Se, por um lado, temos uma profusão de assuntos que rendem boas manchetes, dada a baixa qualidade dos nossos representantes e sua vocação inequívoca para se meter em casos espúrios, por outro, sobra perseguição por parte dos políticos envolvidos em esquemas de corrupção e de seus asseclas. Nesse período em que se sucedem as diversas fases da Operação Lava Jato, querer silenciar a imprensa, os jornalistas é algo que me parece insano. Enxugamento de gelo.

Essa tentativa de mordaça se dá, em primeiro lugar, porque grande parte dos veículos de comunicação está nas mãos dos políticos (ou de laranjas). Geralmente os maus políticos constroem seus impérios midiáticos se aproveitando do quinhão de poder que a sociedade lhe conferiu. Ao se apossar dos veículos de mídia, eles os transformam em palanques eletrônicos e controlam o que é publicado a seu respeito.

A classe política brasileira encara o poder outorgado pelo voto como uma oportunidade de fazer negócios, de enriquecer, não como um dever cívico de trabalhar pela sociedade, de respeitar a lei, a moral e a ética. Estão aí os sucessivos escândalos de corrupção que não me deixam mentir.

Dessa forma, nós, jornalistas da área política, vivemos pisando em terreno minado, pois se temos nossas convicções e o dever de bem informar à sociedade, os donos das emissoras de rádio e TV só veem seus interesses. E tais interesses muitas vezes espúrios podem mudar de direção/posição a qualquer momento, como o vento que ora sopra para o norte para, no momento seguinte, passar a soprar para o sul.

Muitas vezes, quando um político contrata um jornalista para sua emissora de rádio/TV ele espera estar levando junto um capacho, um sabujo, que vai fazer todas as suas vontades, defendendo a ideologia dos seus interesses. Em alguns casos o político até acerta a mão, pois há quem faça de tudo para agradar ao patrão por quaisquer 30 moedas. Noutros casos, o político/patrão se surpreende com a "rebeldia" do contratado que se recusa a ser um pau mandado ou a ser sua "caixinha de maldades" como costuma dizer certo político local.

É claro que nos grandes centros também há o assédio aos jornalistas, o desejo de amordaçar e as tentativas de encabrestamento aos profissionais de imprensa, mas de forma bem menos incisiva do que nas províncias, nos rincões do país onde o coronelismo ainda impera, ainda que metamorfoseado. Em estados pequenos como Roraima, onde 80% dos veículos de comunicação estão nas mãos de políticos, a situação se complica deveras.

Por isso, não fazer a vontade muitas vezes espúria dos patrões é pedir para ser demitido. Quando o dono de uma emissora é correligionário de outro político também dono de empresas de rádio e televisão, que anda às voltas com denúncia de corrupção, a situação chega ao extremo. A temperatura sobe e a relação logo se deteriora de forma irremediável.

Chega-se ao ponto de o assédio moral ficar insuportável. Os recados partem de todos os lados. Tentam calar sua voz independente a todo custo. Ao levantar a cabeça e dizer não, te acusam te querer ser "elite" em tom pejorativo, como se ao jornalista coubesse o imoral papel de sabujo. A demissão não tarda a chegar. Há quem capitule pelo medo de perder o emprego. Eu sou teimoso, dos que não retrocedem jamais.

Nos meus mais de 20 anos de atuação jornalística eu tenho me recusado a atuar como cão de guarda de qualquer político. Estico a corda ao limite, mas não cedo aos ditames levianos de quem acha que, pagando meu salário, poderá me mandar lamber o chão e abanar o rabo. Esse meu comportamento causa estranheza nos políticos que, acostumados a ter cãezinhos adestrados midiáticos, não acreditam que possa haver alguém que prefira perder o emprego a deitar e rolar no chão ao seu comando.

A cada nova demissão eu me sinto mais independente para dizer o que penso. Em vez de me sentir intimidado e temeroso de não conseguir um novo emprego eu me sinto mais confiante e mais liberto. E sigo em frente.

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