Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Luiza Coppieters Headshot

Quem precisa de terapia compulsória?

Publicado: Atualizado:
TRANSGENDER
Shutterstock / Semmick Photo
Imprimir

Cada pergunta que recebo, cada pedido de ajuda para "desconstruir-se", cada excrescência mental que as pessoas cisgêneras carregam sobre as pessoas transexuais, me leva a pensar sobre quem precisa de terapia compulsória.

As pessoas cisgêneras que jogam suas expetativas sobre nós. São elas que entram em crise com a genitália ou o passado de cada pessoa.

É tão comum afirmarem ou perguntarem se temos certeza, ou como a temos, de sermos transexuais e, ao mesmo tempo, vivem em crise, repletas de dúvidas, incertezas, "curiosidades" quanto aos seus desejos e corpos.

Não são as pessoas trans quem têm problema em apresentar uma pessoa para a família - isso quando possuímos família, a qual, sabemos, costumam ser cisgêneras.

A cisnormatividade é tão frágil que basta uma pessoa transexual aparecer na frente que todo um conjunto de certezas entra em colapso. Em vez de repensarem a si mesmos, repensarem o porquê de suas certezas serem tão incertas, nos jogam suas questões. E se mandamos ao Hades por não perceberem o grau de preconceito em que estão envoltas, nós que somos preconceituosas por não querer "ajudá-las".

O que está em jogo não é somente uma verdade sobre os corpos. O que está em jogo, fundamentalmente, a zona de conforto na qual as pessoas cisgêneras se encontram. É muito cômodo estar no lugar "certo", de uma verdade universal diante da qual toda diferença é apresentada como um enigma, pois ininteligível a elas, e como um desvio, diante da certeza que carregam. Assim, fica fácil despejar nas pessoas transexuais toda a carga de preconceito, mascarada de incompreensão, que carregam por estarem imersas em normas que não enxergam. Normas que definem seus corpos, suas práticas e relações.

A cisnormatividade, na sua pobreza necessária para controlar os indivíduos, reduz os indivíduos às suas genitálias, empobrece as possibilidades do simbólico, do erótico e, portanto, das possíveis relações entre pessoas.

Enfim, presos em seus grilhões, as pessoas cisgêneras nos olham como se nós fôssemos o desvio, sendo que, livres, pensamos as pessoas para além das poucas possibilidades que as normas as encerram. São escravos chamando pessoas livres de escravas, sem notar suas próprias correntes.

LEIA MAIS:

- 'Escrever é um gesto político'

- A 'Revolução Feminista' já está acontecendo. E não vai parar

Também no HuffPost Brasil:

Close
Sexualidade e Ignorância: Até quando?
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual