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A experiência do exílio mais se assemelha ao cárcere do que à liberdade

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Papa Francisco insiste em dizer que os refugiados "não são um perigo, são pessoas que fogem de situações de perigo". A definição dele é clara, direta e precisa, mas não garante que os imigrantes, nem refugiados e ainda menos os exilados sejam abraçados por qualquer país.

Há mais de um ano, eu decidi que não era o momento nem de esperas (sempre desesperadoras) nem de ouvir as vozes que insistentemente diziam que eu "era um perigo", que eu deveria me "ocultar", "não me expor", "não me dar visibilidade", enquanto exilada política no Brasil.

Mas comecei a me perguntar: Por que me dizem isso? O que eu deveria temer? Do governo do meu país, sim, eu deveria ter medo já que o conheço. O que mais eu deveria temer, então? Já não houve medo o bastante vivendo e deixando Cuba para trás?

Comecei a achar algo de muito errado em tudo isso. Ter guardado uma longa experiência de trabalho na imprensa Cubana me lembrou que, na "era do espetáculo", aquilo que não está visível não existe. E aquilo que não existe não recebe atenção, pois, vamos nos ocupar de quê? Do que "não existe"?

Cada um de nós pode ser vitimado por governos ou por forças, sejam ou não institucionais

A violência é mais comum que o pão. E, no meio disso, o terrorismo de cada dia, armado ou psicológico, organizado ou não, marginal ou estatal cresce. Sua consequência? A triste realidade do crescente número de pessoas que procura pelo mundo um lugar de refugio. Pessoas que desejam não existir em um país, mas renascer com direitos que lhes foram tomados em outro.

Cada um de nós pode ser vitimado por governos ou por forças, sejam ou não institucionais. E adotando a prática fascista de desqualificar o sujeito, nos fazer tomar a vez de (falsos) monstros. Reforçando a ideia de que qualquer coisa negativa pode ser feita contra nós. Pois, ao fim do dia, o "monstro" deve desaparecer.

Cheguei ao Brasil por acaso, não por escolha

maria lleana

Foi o meu desempenho profissional que colocou no foco do interesse da polícia política cubana. Foi isso que me tornou, segundo esse olhar distorcido, uma "subversiva". A partir das ameaças à minha integridade física, de linhas telefônicas grampeadas, do fim do casamento, ser expulsa da própria casa, não existiu outra opção senão o exílio.

Eu cheguei ao Brasil por acaso, não por escolha. Foi uma casualidade que, até então, em situação de desespero e paradoxo, com mínimas esperanças de consegui-lo, caiu como uma benção. Mas a benção rapidamente foi se transformando em horror. Isso: horror, não erro.

Cronologicamente, 3 anos meses não é muito. Mas esse pouco tempo no Brasil tem me permitido, aos poucos, descobrir um País além do samba e do futebol. Além da música do Chico Buarque e dos filmes.

Tenho sido acolhida e também rejeitada. Valorizada, mas em geral, tratada com desprezo e mesmo às vezes com franca violência. Estes 3 anos têm sido um aprendizado sobre o que é ser "a outra", "a estrangeira", "a refugiada", "quem não tem nada".

Menciono isso porque lembro com dor a oportunidade em que, na rua, uma pessoa de aparência simples, ao me escutar falar se aproximou para me dizer aos gritos que nós, estrangeiros, chegamos a este país para "tirar os trabalhos" dos brasileiros.

Neste tempo, tenho experimentado a impotência de ser agredida pelo meu sotaque. Tenho constatado que a língua portuguesa que aprendera na escola de línguas no meu país, me pode servir para escrever, mas dificilmente para me comunicar nas ruas.

A permanência no Brasil como solicitante de refugio, como exiliada, se assemelha cada vez mais a um cárcere em regime semiaberto

Tenho aprendido a usar cartões de banco e a me relacionar com funcionários que nem sempre tem vontade para fazer seu trabalho. Tenho apreendido que os documentos portados pelo solicitante do refugio não são grande coisa.

Aqui tenho sido desqualificada para fazer trabalhos que seria completamente capaz de fazer. E não porque aqui não precisam dessa mão de obra mas, sim, por ser "a refugiada".

Pretendem mudar meu modo de pensar e até a minha aparência. Querem, dentro de uma grande ignorância, me dar lições sobre a historia do meu país. Repetidamente escuto que Cuba "sempre foi o prostíbulo dos Estados Unidos" e coisas similares.

Tentam, continuamente, me vitimar a partir dos estereótipos que existem do que significa ser mulher, cubana, especialmente se somos afrocubanos, e pior se somos afrocubanas.

Tem-se insistido em me buscar um parceiro ou uma parceira. E, claro, se tem pretendido me explorar intelectualmente. Isso, na mesma medida que tentam me manipular psicológica e emocionalmente falando coisas como:

"Você não é ninguém. Você é conhecida e é respeitada no seu país, mas aqui você nem é nem vai ser ninguém. E tudo pelo que você passa é sua responsabilidade, quem lhe mandou a mexer com política. Se eu fosse da polícia política do seu país eu faria a mesma coisa com você. Porque você é fresca".

A permanência no Brasil como solicitante de refugio, como exiliada, se assemelha cada vez mais a um cárcere em regime semiaberto. É mais isso do que o início de uma nova etapa, em liberdade.

E isso, recomeçar em liberdade e não em cárcere, é o intuito de cada solicitante de refugio. Essa é a necessidade primordial de cada sujeito perseguido ou submetido a condições de guerra ou a qualquer outra que seja arbitrária. Para todas as pessoas o exílio não é a mesma coisa. Também não o refugio.

Por outro lado, o Brasil me tem aberto horizontes. Construí laços de amizade que espero que superem distâncias físicas e sejam para toda a vida.

Me redescobri como professora, agora de língua e cultura, em um projeto tão interessante como o Abraço Cultural, espaço no qual o melhor acho é a troca sem limites e com respeito de saberes com os interessados nas línguas dos professores.

O Brasil é a visualização da violência, também institucionalizada, que é gerada aqui e no meu país, mas da qual sou o sujeito

Caritas, MIDAA, Adus, Abraço Cultural, Vidas Refugiadas, os alunos e algumas outras pessoas, brasileiras ou estrangeiras, de qualquer cor e cultura e de diversas religiões e credos políticos, têm me mostrado que sim, existe um Brasil que acolhe e que tem um pensamento sociopolítico critico. Que existem pessoas que lutam cada dia para fazer as boas diferenças por aqui.

Tudo isso tem me ajudado a me sustentar, a me salvar. Tem me ajudado a manter a dignidade. Tem me preservado até de ser, como acontece com alguns solicitantes de refúgio, uma moradora de rua ou alguma outra coisa ruim similar.

maria ileana

O Brasil hoje é para mim o exílio. É uma espera desesperadora e quase desesperançada. É isso especialmente pela indolência dos funcionários que parecem acreditar que o solicitante de refugio age como "arrogante" quando reclama informação.

Hoje o Brasil é para mim a visualização da violência, também institucionalizada, que é gerada aqui e no meu país, mas da qual sou o sujeito. Porque o que foi praticado no meu país, comigo e contra a minha família, não tem cessado após a minha saída de lá. Porque lá me seguem negando direitos fundamentais como meus documentos docentes. Porque se prorroga a tortura cortando as comunicações com meus seres queridos.

As palavras não pagam despesas. As palavras não matam a fome ou a sede, não cobrem do frio nem pagam o transporte ou aluguel. Não se pode dormir cada noite no sofá de alguém, já que isso tem ou pode ter um preço, mesmo em tentativas de sujeição, que sempre age contra a dignidade humana.

De todo modo, nunca mais conheci aquilo chamado esperança. Também não sei se, aqui no Brasil, algum dia existirão condições para que eu consiga recuperá-la.

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