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Delação de Sérgio Machado tem peso zero sobre Temer, diz Eliseu Padilha

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ELISEU PADILHA
Reuters Photographer / Reuters
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Antes de participar de um encontro com empresários em São Paulo, conversei com o ministro-chefe da Casa Civil Eliseu Padilha (PMDB), que demonstrou estar despreocupado com eventuais repercussões negativas da delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado no governo comandado pelo presidente interino Michel Temer (PMDB).

Em depoimento, Machado afirmou ter recebido um pedido de propina de Temer para financiar a campanha de Gabriel Chalita, então do PMDB, à prefeitura de São Paulo em 2012. O valor fechado entre eles teria sido de R$ 1,5 milhão.

"Uma delação por si só tem significado zero. O efeito só poderá surgir se houver uma comprovação das declarações do delator", afirmou o ministro.

Para Padilha, a saída definitiva da presidente afastada Dilma Rousseff (PT) do comando do Palácio do Planalto está garantida. Otimista, ele afirmou estar convicto de que pelo menos 59 senadores votarão a favor do impeachment da petista no julgamento final no Senado. São necessários 54 votos para que Dilma seja afastada definitivamente.

Um dos principais aliados de Temer defende o presidente em exercício das críticas sobre a ausência de mulheres no primeiro escalão do governo. "Houve a tentativa de busca, mas as mulheres têm pouco interesse na participação política. Nós tentamos e não conseguimos", lamentou o peemedebista.

Veja os principais trechos da entrevista:

A delação premiada de Sérgio Machado sobre o presidente interino Michel Temer e outros membros da cúpula do PMDB preocupam e afetam a governabilidade do País?

Eliseu Padilha: Uma delação por si só tem significado zero. Ela depende da comprovação que é objeto da delação. Sem nenhuma comprovação, os efeitos de uma delação são insignificantes. Quando se fala nos efeitos que possam advir, eles ficam subordinados às provas. O efeito só poderá surgir se houver uma comprovação das declarações do delator. O efeito é zero, a preocupação é zero.

Mas isso não pode dificultar a aprovação de medidas necessárias para dar um fôlego à economia brasileira?

Só enfrentaremos dificuldades se as declarações dele forem comprovadas, o que não acontecerá.

Temer teve uma preocupação em nomear notáveis para a equipe econômica, mas não apresentou o mesmo cuidado com os demais ministérios, com raras exceções. Isso fez com que muitas indicações fossem questionadas. Algumas nomeações, como a do ministro Henrique Eduardo Alves, que já era alvo de investigações da Operação Lava Jato, não poderiam ter sido evitadas para não enfrentar desgastes desde o princípio?

Antes mesmo de assumir o governo, Temer já adiantava que sua filosofia era de montar um ministério de notáveis. Ele formou o time dos sonhos da área econômica. Eu não tenho registro na moderna história do Estado brasileiro de uma equipe que tivesse tanta qualificação e identidade quanto a formação econômica e propostas para a economia. São pessoas de altíssimo nível e tem unidade de posicionamento em relação a economia.

Mas e os demais ministérios? Porque não houve o mesmo cuidado?

Quando saiu das áreas de livre disposição do presidente Temer, os partidos é que fizeram as indicações. O presidente pediu pessoas altamente qualificadas a todas as siglas. É preciso se lembrar que Temer simpatizava com uma eventual indicação do cirurgião plástico Raul Cutait para a pasta de Saúde pelo PP, mas, por questões internas, o partido preferiu indicar o deputado Ricardo Barros.

O presidente Temer não pode ser responsabilizado pelas indicações dos demais partidos. Agora, ele tem que ser responsável pelo êxito e pela qualificação do desempenho do indicado. Até indicar, os partidos indicam. A partir do momento que se assume uma pasta, o ministro tem que corresponder às necessidades e expectativas. Isso o presidente deixou claro. Se houver necessidade, Temer tem total liberdade para pedir aos partidos que substituam seus indicados.

Há alguém que surpreendeu positivamente?

Lógico que houve, mas não vou citar nenhum nome para não gerar constrangimentos futuros. Vale lembrar que José Serra não é médico, é economista, e é considerado um dos melhores ministros da Saúde que já tivemos no Brasil. Estou convicto de que teremos novos Serras nessa nova gestão.

O governo conseguiu algumas vitórias mesmo com um início repleto de percalços. Quais são suas projeções e seu balanço sobre as medidas econômicas?

Esse mês foi de muita adrenalina, de muitas emoções. No que diz respeito ao governo, foi positivo. Nós conseguimos provar que temos uma base congressual de mais de 2/3dos votos. Nós temos uma relativa folga na base para a aprovação das medidas. Aprovamos meta fiscal DRU com margem. Agora, enviamos para o Congresso a nova Lei de Responsabilidade Fiscal, em que nós sinalizamos de que nós sabemos como resolver o nosso déficit fiscal e que sabemos o caminho para reduzir a dívida interna, os juros e a inflação.

E a reforma da Previdência fica para quando?

É uma reforma que estou conduzindo pessoalmente. Me reuni com as centrais sindicais, com a representação dos empresários e parlamentares. Já tivermos várias reuniões e não temos pressa em concluir, porque o governo faz questão da construção coletiva.

Óbvio que o governo tem propostas para a reforma trabalhista e da Previdência, mas não nos interessa fazer uma proposta nossa. Queremos que seja uma proposta dos próprios interessados.
Estamos fazendo isso para não ficarmos reféns do histórico dessas reformas, que sempre enfrentavam problemas no Congresso.

HuffPost Brasil: Dentro do governo, há que defenda o aumento da carga tributária, mas o senhor...

Está descartada essa hipótese. O governo Michel Temer não trabalha com a ideia de aumentar impostos.

Mas o senhor está falando de curto prazo?

Depois que o governo mostrar que tem rumo, que sabe onde quer chegar e que haverá uma projeção de prazo para chegar, talvez deva-se conversar com a sociedade e saber se vamos encurtar esse prazo criando temporariamente um tributo ou uma contribuição, mas quem vai responder será a sociedade.

HuffPost Brasil: Esse diagnóstico será feito em quanto tempo?

Ele já existe. Ele não é tornado público, porque temos etapas para vencer. Temos feito projeções periodicamente. Dependendo de como nós consigamos direcionar a reforma da Previdência e outras medidas, teremos um diagnóstico mais concreto. Para o governo tributário, a carga tributária do Brasil já é elevada demais. Hoje, o governo não tem crédito político junto a sociedade para pensar em pedir qualquer sacrifício. Primeiro, precisamos cortar da própria carne, temos que ajustar as contas.

A pergunta que não quer calar: quando as coisas vão começar a melhorar, ministro?

Todos estamos esperançosos. Estamos liderando um processo para converter a esperança em confiança. Na hora que isso acontecer, a economia engrena e teremos os primeiros passos de retomada da atividade econômica do Brasil. O mercado internacional já está nos vendo de outra maneira. Os investidores estrangeiros já estão menos resistentes ao mercado brasileiro.

Sobre a composição do governo, como o senhor enxergou a ausência de mulheres no primeiro escalão?

A participação da mulher na política não é a mesma que vemos no Poder Judiciário, no Ministério Público. As mulheres ocupam lugar de destaque nas atividades da sociedade brasileira. Talvez, na concepção das mulheres, a política não seja importante. Por isso, não há essa participação.

Mas há esse interesse. Temos mulheres na Câmara, no Senado...

Observe o percentual de mulheres vereadoras no país. A participação das mulheres ainda é baixa. Temer e eu buscamos mulheres para algumas pastas e não tivemos nenhuma confirmação. Por isso, é compreensível a atual composição. Houve a tentativa de busca, mas as mulheres têm pouco interesse na participação política. Nós tentamos e não conseguimos. E pedimos aos partidos que indicassem mulheres.

O que o senhor quer dizer é que é preciso dividir essa responsabilidade da ausência de mulheres nos ministérios com os demais partidos?

Não houve nenhuma indicação de mulheres pelos demais partidos. Se tivesse havido, teríamos alguma ministra.

A liderança do governo no Congresso deve sair nos próximos dias?

A liderança do Congresso deve sair do Senado e, em princípio, não deve ser um nome do PMDB. Essa é a orientação do Michel. Ele quer dar uma face mais horizontal nas suas lideranças do governo.

Essa posição deve ficar com um dos senadores que demonstram indecisão em relação ao processo de impeachment?

Acho que isso é barganha. O que eu leio como indecisos, na minha visão e pelas conversas que interlocutores meus fazem, já optaram pela saída de Dilma do governo.

Uma mulher pode ser escolhida para a liderança?

É possível, mas não garanto.

De que maneira o senhor enxerga esse primeiro passo para a cassação do presidente afastado da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha?

Ele conseguiu construir com muito trabalho e dedicação, uma liderança firme e expressiva na Câmara. Mas isso fica limitado ao Legislativo. Não tem vasos comunicantes dentro do governo. Ele é uma pessoa que todos nós respeitamos como pessoa, mas que está enfrentando um problema na Casa. O governo está isento e não interfere nisso.

Existe alguma preocupação em relação ao presidente do Senado Renan Calheiros e ao desfecho do processo de impeachment?

Temos muita esperança de que o presidente Renan não será afastado. Se afastado for, na Câmara, tivemos o afastamento do Eduardo, e a Câmara continuou trabalhando. Não será diferente no Senado.

Qual é a sua projeção mais recente sobre a votação do julgamento final da presidente afastada Dilma Rousseff?

Saí de Brasília na terça-feira com 59 votos garantidos pelo impeachment de Dilma e a tendência é que esse número cresça. A oposição perde força diariamente, porque trabalha com teses que brigam com os fatos. Eles falam em golpe. Que golpe seria comandado pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso. Isso parece piada.

LEIA MAIS:

- A luta dos não conformados

- Temer nega pedido de propina e diz que delação foi 'criminosa'

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