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O diabo veste desconstrução

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DEVIL
Meriel Jane Waissman
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Era um grupo de problematização com mais de 12 mil membros. Todos lá defendiam como eram desconstruídos e fora dos padrões. Todos eram contra gordofobia, racismo, heteronormatividade, misoginia, e qualquer tipo de preconceito fácil de achar na sociedade. Às vezes eu até pensava que ou eles eram "fora demais da casinha" ou eu que era construído demais.

Eu não entendia muito bem qual era a do grupo até que um dia ocorreu uma problematização sobre corpo, vida saudável, etc. Eu, como costumo treinar, comentei que concordava com o discurso pró-saúde. Em minutos o "júri da internet" me condenou por gordofobia.

Mas, para a minha surpresa, várias das pessoas que me acusaram de gordofóbico depois me adicionaram, me cutucaram e até pediram fotos intimas ou sem camisa no privado.

Outro dia estava conversando com um amigo meu que está gordo e faz parte deste mesmo grupo, e ele me disse: "Esse povo te criticou no público por gordofobia mas no particular te pediu fotos? Engraçado, pois com quase todos esses eu já quis ficar e não rolou por eu ser gordo".

Um tempo depois um garoto portador de deficiência, que faz parte desse mesmo grupo de "pessoas desconstruídas" que eu, postou um desabafo onde contou sobre como estava conhecendo virtualmente um cara e que ambos estavam se curtindo, mas que tudo desandou quando ele disse que era deficiente.

A publicação teve mais de mil curtidas, vários comentários de apoio com mensagens do tipo, "Não fica assim! Esse cara é só um babaca e não te merece". E nesse momento não pude deixa de me perguntar: com tanta gente desconstruída e que consegue se relacionar apesar dos pré-conceitos em um ambiente só, como esse menino não conseguiu ainda ficar com alguém do grupo para namorar? E meu amigo gordo, por que raios não conseguiu também?

Isso me mostrou algo muito trágico: na internet, todo mundo é descontruído, adora gay feminino, gordo, pobre, negro, com deficiência, trans, mas na hora de se relacionar na vida real nenhum desses serve.

Isso me fez questionar: será que eu sairia com o rapaz deficiente? Será que os gordinhos têm chances comigo? Eu ficaria com uma pessoa se soubesse que ela é soropositivo, mesmo ela sendo indetectável? Será que não sinto atração pelo gay feminino e por boy zica por alguma construção?

Essas questões me trouxeram reflexões profundas e importantes.

De nada vale o debate, a desconstrução do discurso se não formos capazes de descontruirmos ideias e padrões de comportamento.

Eu entender as opressões que uma mulher passa em uma sociedade machista de nada vale se eu não for capaz de quebrar o machismo dentro de mim.

Sentir muito pela marginalização no jogo do flerte que um deficiente vive nada vai mudar a vida dele, se eu não for capaz de transpor isso e vê-lo como uma pessoa sexuada e mais do que isso, desejável.

Falar que a gordofobia é uma droga e que o mundo cobra demais das pessoas gordas e que gostos são construções sociais de nada vale se eu, no fim das contas, só me relaciono com pessoas "fit" ou magras.

Eu entender o lado deles e somar minha voz ao debate de nada serve se no fim das contas eu mesmo não sou capaz de ir além do discurso.

Olhando tudo isso descobri a mais cruel realidade: um dedo apontando para o outro, três apontando para nós mesmos.

Por isso, ao invés de mudar o mundo, decidi dedicar meus esforços em mudar a mim mesmo, e o primeiro passo está sendo reconhecer que eu acabo preterindo algumas minorias.

Decidi que serei mais espectador e menos protagonista, ou seja, sempre ao ver uma minoria falando sobre a sua vivência, vou refletir sobre meu papel como personagem da problemática e o que devo fazer para mudar a questão dentro de mim.

No final das contas, desconstrução não é olhar para o preterido e sentir solidário a sua dor, mas querer trabalhar por uma sociedade que não o machuque assim, e esse tipo de revolução, meu amigo, começamos em nós mesmo.

LEIA MAIS:

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