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Querido Fernando Holiday, vidas negras importam

Publicado: Atualizado:
FERNANDO HOLIDAY
Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
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Querido Fernando Holiday,

Aqui quem fala é Marcelo. Assim como você, eu sou negro e faço parte da nada generosa classe média: um espaço com poucos da minha cor e da sua. Aliás, já reparou nisso? Ou você estava tão ocupado falando que negros se fazem de vítimas e esqueceu de reparar que nos lugares bacanas que frequenta é o único negro em posição de "consumidor"?

Sabe, Holiday, sempre que assisto aos seus discursos fico muito feliz e ao mesmo tempo muito triste. Feliz porque eu me lembro de pensar como você, e de como eu me achava o cara mais foda do mundo por ser negro, dirigir o carro do ano, usar roupas de marca, ter um trabalho de bacana, ser amigo de todos os brancos.

Mas hoje, quando olho para você, me pergunto: por que eu pensava dessa maneira? E a resposta é que me deixa muito triste. Não por mim, mas por você. Assim como eu, um dia você vai descobrir que não é o negro mais foda, mas sim, um garoto que acha que é tão grande, mas na verdade é bem menor do que a generosidade daqueles que financiam "um jovem negro para defender a pauta deles".

Se tudo der errado, no fim eles poderão falar que você era só "mais um negro fazendo negrice", e sair ilesos de seu espetáculo particular. Me conta quantos desses seus amigos bacanas, que vão mudar o Brasil se filiando ao PMDB e PSDB (que ironia, hein?), vão continuar ao seu lado?

Mas não escrevo essas palavras para falar dos seus amigos. Escrevo para falar sobre o seu discurso e toda a problemática que existe nele.

Você sempre fala (e muito) sobre vitimismo. Eu acho que você talvez não esteja vivendo no mesmo Brasil que a maioria dos seus irmãos de pele, então, aqui vão alguns dados que talvez ilustrem um Brasil que você deixou de enxergar.

Talvez você não saiba, mas, segundo a ONU...

70% da população extremamente pobre do País é negra;
Os salários de negros são em média 2,4 vezes mais baixos do que de brancos;
Apesar de representar 50% da população, os negros representam apenas 20% do PIB;
80% dos analfabetos brasileiros são negros;
Dos 56 mil homicídios que ocorrem no Brasil por ano, 77% são garotos negros (só no Rio de Janeiro 80% das vítimas de homicídios resultantes de intervenções policial são negras, e dos 220 casos em 2.011, apenas um, isso mesmo um, foi investigado).

Enquanto nos restaurantes bacanas que frequentamos (pelo menos isso você reconhece que é um privilégio meu e seu, né?), com exceção de nós, todos os clientes são brancos. Em contrapartida, 75% da população carcerária é negra, e o pior, estudos ainda comprovam que afro-brasileiros se condenados são desproporcionalmente sujeitos a prisão.

Você sabia que, em 2013, 66% a mais de mulheres afro-brasileiras foram mortas, na comparação às mulheres brancas?

Você realmente acha que a população negra está se fazendo de vítima? Você realmente acha que a negra periférica com apenas o ensino fundamental, que acorda todo dia às 5h para às 8h estar no centro fazendo faxina na casa de bacana, que está lutando com o que pode, e o que não tem, para que seu filho tenha pelo menos uma esperança de futuro diferente do seu, que sai de casa com medo de um dia perder o seu filho para o tráfico, pois o traficante mora duas casas ao lado e a grana fácil seduz jovens, está se fazendo de vítima? Realmente ela é a aproveitadora da história? Nesse seu mundo cor de rosa onde a população negra não está à beira do abismo social, qual papel você se designa? Você é negro ou branco nesse mundinho paralelo que você criou?

E por fim deixo uma reflexão de Judith Butler, filósofa americana, que ironicamente é branca, mas parece entender mais sobre os desafios dos negros do que você, quem sabe ela lhe mostre que a vida de negros vale mais do que o interesse dos grupos que te financiam.

"Quando algumas pessoas refazem a mensagem 'A vida da população negra importa' para 'Toda Vida Importa', elas não entendem o problema, mas não porque a mensagem delas é falsa. É verdade que todas as vidas importam, mas é igualmente verdade que nem todas as vidas são construídas para importar. E é precisamente por isso que é mais importante nomear as vidas que não importam e estão lutando para isso no modo que elas merecem."

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