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Saudades de casa mas não de onde a casa está

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FAR FROM HOME
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Há algo muito estranho em viver tão longe de casa (no meu caso mais de 9 mil km de distância). Você inevitavelmente sente muita falta de casa. Alguns dias, olho para o que conhecia como vida até me mudar para a Irlanda, penso nas pessoas que ficaram para atrás, família, amigos, paixões antigas e sinto uma saudade imensa.

Minha cunhada e meu irmão me mandam fotos da minha afilhada, que acabou de fazer dois aninhos, e o coração aperta de uma forma que nem consigo explicar, penso que estou perdendo a melhor fase dela e que provavelmente ela nem lembra mais das vezes que a peguei no colo. Penso nos meus pais que finalmente têm tempo para curtir a vida e os filhos e me culpo por estar tão longe justamente agora. De tempos em tempos os amigos postam fotos dos encontros e lá vem esse sentimento estranho que não sei explicar. Às vezes a sensação é de que uma versão alternativa da minha vida está acontecendo sem a minha participação.

Apesar de sentir muita falta de tudo que deixei no Brasil não sinto saudade alguma do Brasil em si. Não sinto falta alguma de trabalhar insanamente, da minha rotina ser trabalhar além da minha hora e no dia que "me dou o luxo" de sair no meu horário ouvir piadinha do chefe "Está desmotivado?", como se trabalhar de vez em quando somente as horas pelas quais fui contratado fosse sinal de desmotivação. Não sinto falta alguma de tudo que eu tinha que fazer para provar todo dia a sociedade que eu era alguém e que merecia todas as coisas que eu tinha.

Um dos primeiros choques culturais que tive ao me mudar para a Europa foi a forma que as pessoas se apresentam. Já reparou que sempre falando o nome e logo o trabalho? É como se a profissão fosse uma extensão sua. Nunca reparei, mas é o famoso jeitinho brasileiro de colocarmos as pessoas em categorias e determinar como vamos tratá-la e o tratamento que vamos exigir delas. Quem nunca ouviu o clássico "Você sabe com quem está falando?"

Se você tem títulos, você os usa para humilhar quem está abaixo de você. Construímos um modelo tão estranho que o seu trabalho passa a ser parte de você, e o mais triste, passa a ser a parte mais importante de você.

Eu estranhava muito algumas coisas por aqui, em especial o fato das pessoas não falarem o que fazem acompanhada do "Eu sou o fulano de tal", hoje eu entendo o motivo. Aqui não falamos pois não importa, e para mim foi mágico descobrir o porque não importa, simplesmente porque o seu trabalho não determina o nível de dignidade que terá, seja você um profissional com salário mínimo ou seja você um executivo, você terá acesso a cadeia de consumo e a ensino de qualidade, saúde, e isso não só liberta quem está na base da pirâmide (se é que em sociedades mais iguais existem estas tais pirâmides), mas liberta também quem está no topo que não se vê obrigado a fazer um trabalho que às vezes não gosta e nem quer fazer para sempre, porém deve pois é o que dá dinheiro e status.

Essa viagem tem sido um processo de descontração imenso, principalmente deixar as mentiras que o Brasil me ensinou como verdades para trás. Lembro que logo que cheguei por aqui conheci uma senhora que é garçonete há uns 20 anos e pensei "Nossa, que tipo de pessoas faz isso a vida toda?", Eu, como o Marcelo sou hoje, faço questão de responder pro Marcelo que chegou aqui "Qualquer pessoa que ama trabalhar com isso" - No Brasil criamos um ideal de felicidade que é ter um trabalho em escritório de terno e gravata, e não fica difícil comprá-lo como real, uma vez que essas são as posições que normalmente pagam um salário digno, mas não justo, pois outra verdade no Brasil é que se você não é o presidente ou dono da empresa para qual trabalha, provavelmente você está recebendo muito menos do que deveria, mas mesmo assim está trabalhando muito mais do que pelo que foi contratado.

Quando comecei a frequentar lojas, bares, academia por aqui, eu achava o europeu péssimo de serviço (como todo brasileiro acha), lembro que comentava com orgulho que no Brasil a gente era campeão de bom serviço. Hoje percebo que a nossa cultura da subserviência, infelizmente, é herança da escravatura. Já reparou que sempre que estamos na posição de prestador de serviço no Brasil nos submetemos a algumas situações bem estranhas para deixar o cliente (que sempre tem razão segundo o nosso manual de prestação de bons serviços) feliz? Sempre nos vemos como um nível abaixo de quem está na posição de recebimento de serviço, e quando estamos na posição de consumidor automaticamente invertemos os papéis facilmente, somos grossos, queremos ser tratados como príncipes, afinal nosso repertório tem origem no modelo colonial.

E justamente isso que acaba dando espaço para o preconceito velado, que faz com que um segurança ao ver um negro, por exemplo, entrar em um hotel de luxo, questionar onde ele vai, por não acreditar que ele seja hóspede. Pois nos recusamos a ver quem sempre vimos na posição de serviçal como recebedor do serviço. Você consegue entender como seria libertador então nos livrarmos da cultura de serviço? E por fim, você entende porque sinto falta de casa mas não de onde a casa está?

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