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Esperança é para os jovens

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LAVA JATO
ANDRESSA ANHOLETE via Getty Images
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É comum acordar no meio da noite com uma ideia na cabeça e uma palavra na mão, digo, na ponta dos dedos, pronta para virar escrita. Sheherazade nos leva para a cama. Sheherazade nos faz dormir, diariamente. Dependentes de histórias, de tramas, de enredos que somos. Os humanos.

O que aconteceria se todo esse escândalo da maior empresa do país nos fosse revelado de pronto, sem tal apresentação em capítulos diários? Nada, é claro. Mas poderia ser pior. Perderíamos a meada, cujo fio imaginário nos conduz pelos altos e baixos da vida. Precisamos de enredo, não necessariamente para compreender as nossas vidas e melhor conduzi-las. Às vezes, sim, mas nem sempre. Mais especificamente para nos ajudar a tocar a vida adiante, coisa que se faz mais e mais difícil em um mundo com tão severas perspectivas.

Esperança é para os jovens. Bom, pelo menos, isso. Pelo menos alguém para carregar o estandarte. Precisamos da esperança como um farol, uma projeção para o futuro. São eles que têm a coragem de olhar o real pela boca da caverna, enquanto nós acostumamos nossos olhos às sombras na parede do fundo. A luz dói. A história contada cotidianamente em nossas vidas - fábulas, noticiários, novelas, seja lá que nome tenha - é o colírio.

Que me importa se Barusco, se Duque, se Moch? Importa que entram e saem, que o advogado de fala firme é outro personagem da trama e defende também aquele senhor endinheirado que um dia fez plástica no rosto e enganou um país. O mesmo advogado, um mesmo personagem em duas novelas diferentes. Nem as repetições nos incomodam tanto quanto poderiam. Mesmo as tramas das novelas tendem a se intercopiar - é comum quando a volta do filho pródigo narrada na história das nove vira também enredo da novela das sete, quase como um contágio.

A imaginação humana é forjada pelo contágio. Estão aí as narrativas para nos contagiar com suas emoções fortes. E quando isso não é possível, quando o Jornal Nacional não tem assunto, é como se o dia ficasse mais pobre. Há quem desligue a televisão sistematicamente e, nesse horário, faça meditação. Esse opta por não viver as grandes histórias do mundo, mas navega no enredo de seus próximos, pois sem ele - o enredo, a trama, o plot - não se vive.

Imersos nas torrenciais dificuldades do viver, vamos colhendo fatos nas ruas, nas manchetes, nas imagens, nas redes. Alinhavamos cotidianamente uma compreensão narrativa mínima, que nos apazigue em nossa eterna busca de comida e sentido. Alguns nos dão respostas prontas, forjadas pela competência de assessorias de imprensa. Assistimos aos locutores lendo as falas falsas por dever de ofício, constrangidos. Mancos, os personagens negam para se firmar. Querendo estancar a trama, almejam nos proibir a história. E negando veementemente, mentem apenas duas vezes na mesma palavra. Estão acostumados.

Nós não. Na esperança de uma grande virada, eu espero, tu esperas, ele espera o próximo capítulo. Sheherazade nos leva para a cama. Sheherazade nos faz dormir. Até o amanhã.

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