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Dar uma chance para frutas e vegetais 'feios' nos fará cidadãos melhores

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BELEZA DUVIDOSA
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A feiúra sempre esteve associada a maldade e perversão. Todos conhecemos o estereótipo de Hollywood: mocinhos bonitos e vilões feios. (Por algum motivo, essa fórmula não é tão direta quando se trata da representação de personagens femininas - boas ou más, as mulheres também podem ter atributos sedutores.)

Frutas e vegetais feios sofrem discriminação moral. Ou seja, eles são tratados com preconceito porque não são atraentes.

O resultado disso é que 1,3 bilhão de toneladas de comida é jogado no lixo todo ano.

Essas frutas e vegetais feios não têm comparação com o cânone dominante de frutas e vegetais. Estes últimos são lindos, e essa aparência traz consigo uma expectativa de sabor e suculência. Por isso, milhões de itens são deixados de lado ou jogados fora porque não atingiram critérios específicos e forma ou cor.

Tais exigências estéticas são ditadas pelos consumidores e pelos pré-requisitos dos varejistas. Portanto, é mais lucrativo ter mercadorias idênticas, mais fáceis de embalar e armazenar. Por essa razão, colheitadeiras de grande porte se livram automaticamente de frutas e vegetais que não são belos o suficiente.

Parte-se do princípio que beleza e qualidade estão unidas por um elo inquebrável.

Na minha opinião, o critério de feio e bonito é controverso. Alguns vegetais não atendem aos critérios exigidos - eles podem incluir: uma atraente cenoura de duas cabeças, um tomate com chifre, uma pimenta retorcida, uma abobrinha gigante e curvada, espinafres com algumas pontas pálidas por causa da luz do sol.

feios ou bonitos

Mas o que é aceitável ou não é matéria cultural e pode, portanto, ser mudado. As diferenças que vemos em formato e cor em um grupo (pense em maçãs, por exemplo) nos leva a acreditar que frutas e vegetais feios terão sabor diferente; os mais feios não serão tão gostosos e podem até nos fazer mal.

Parte-se do princípio que beleza e qualidade estão unidas por um elo inquebrável. Frutas e vegetais feios são cercados de estereótipos negativos, que geram suspeitas e medo.

Mais e mais pessoas estão se conscientizando dessa discriminação absurda -- e do desperdício a ela associado. Grandes redes de supermercados europeus aceitaram o desafio de dar direitos autênticos a frutas e vegetais feios, oferecendo-os por preços mais baixos.

Eles estão dando a esses vegetais o direito de serem consumidos, independentemente de cor ou formato. Essa iniciativa sem dúvida se inspirou nos esforços da União Europeia (2014 foi o ano europeu contra o desperdício de comida).

Para mim, conscientização, sensação de autoeficiência e responsabilidade são ingredientes necessários para a ação e, portanto, para a participação política dos cidadãos.

A empresa portuguesa Fruta Horrível tem um projeto semelhante, doando alimentos feios para famílias que não podem pagar os preços cobrados pelos supermercados.

É óbvio que a iniciativa da rede de supermercados mencionada acima se baseia em interesses comerciais; interesses que, sem dúvida, consideramos legítimos. Olhamos para esse projeto com pragmatismo: se ele se expandir, muitas outras redes vão tomar a mesma decisão e muitas pessoas do mundo todo teriam a oportunidade de comer frutas e vegetais diariamente, não só de vez em quando.

Movimentos que surgem em grandes cidades, como o movimento da comida feia, são muito inspiradores. Essa ação contra-cultural subverte a relação entre a aparência da comida e sua capacidade de alimentar. Se esse movimento crescer, haverá consequências óbvias para a comida, mas também nas crenças e atitudes dos seres humanos.

Para mim, conscientização, sensação de autoeficiência e responsabilidade são ingredientes necessários para a ação e, portanto, para a participação política dos cidadãos.

Talvez nosso país queira participar e lançar campanhas para que consumidores, distribuidores e vendedores mudem suas crenças e deem uma chance à feiúra.

Post publicado originalmente no HuffPost Espanha.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost ES e traduzido do espanhol.

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