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Qual o lugar das mulheres na política?

Publicado: Atualizado:
MICHELLE OBAMA BARACK OBAMA
NICHOLAS KAMM via Getty Images
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Já tem um tempo que quero escrever um texto sobre "mulher e política". Mas o texto simplesmente não me vem. Talvez porque eu tenha lido muitos textos bons sobre o tema, em que as mulheres dissecam as manifestações machistas desta nossa conjuntura turbulenta, nacional e internacional.

Cheguei a pensar que, assim sendo, nada teria a acrescentar. "Estou contemplada na fala da companheira. Próximo ponto".

Mas, por via das dúvidas, comecei a juntar meus retalhos. Pedacinhos de histórias para guardar no bloco de notas imaginário.

Uma colcha de retalho de acontecimentos

O primeiro eu achei em uma conversa com um amigo, que, acompanhando as prévias do Partido Democrata para a escolha de seu(sua) candidato(a) à Presidência dos Estados Unidos, me perguntou se eu achava que as mulheres deveriam votar na Hillary por ela ser uma mulher.

O segundo, quando a Isto É publicou a matéria "As explosões nervosas da presidente" que trazia, na capa, uma foto de Dilma em que ela parecia estar encarnando o capeta da loucura. Que, como é de conhecimento notório, ataca preferencialmente as mulheres.

Logo depois, me veio outro após uma aparição pública da professora Janaína Paschoal, no Largo de São Francisco. A penalista, uma das autoras do pedido de impeachment da presidenta, defendia, de forma enfática, seus argumentos. Aparentemente o capeta havia desencarnado de Dilma e baixado na professora, segundo asseguravam as piadas das redes sociais.

Mais um pedacinho me veio por meio de outra revista, a Veja, que, estampando imagens da jovem Marcela Temer, sentenciava "bela, recatada e do lar".

O deputado federal Jair Bolsonaro foi quem me deu um retalho ao prestar elogios, em cadeia nacional, ao coronel Ustra. O homenageado foi condenado pelo Tribunal de Justiça por práticas de tortura, durante a ditadura cívico-militar, estando entre suas inúmeras vítimas duas mulheres que se tornaram símbolos da luta pelo direito à memória e à verdade: Amelinha Telles e Criméia de Almeida.

E não ficou por aí. Outro dia, logo que acordo, sou apresentada a Milena Santos, que publicou fotos suas no gabinete ministerial do marido, então recém-empossado Ministro do Turismo. A morena estava sendo queimada viva nas redes sociais por um vestido decotado e fotos consideradas pouco convencionais.

E "tchau, querida!". Fico por aqui, pois essa colcha é de costura infindável.

Olhando esse mosaico de fatos, volto à pergunta central que me persegue há tanto tempo: Qual é o lugar das mulheres na política?

Melhor perto?

Eu me sinto obrigada a discordar quando alguém diz que a mulher não tem lugar na política. Há uma cadeira cativa reservada, com bastante antecedência, na história política do Brasil e do mundo: ao lado.

Diz a sabedoria popular que "por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher" (ou uma "linda e poderosa", como consta que Milena declarou em sua conta no FB). E esse lugar pode ser ocupado de diversas formas. É possível, como em um camarote, que as mulheres se sentem, silenciosamente, bem perto dos grandes homens que fazem a história, acenando como princesas para os acontecimentos políticos.

Mas é possível que esse lugar seja politizado e que essas mulheres assumam grande importância na escrita da história. Claire Underwood? Não. Evita! Que quase foi vice de Perón na corrida presencial argentina, por aclamação das massas, tendo sido impedida por uma articulação entre a elite conservadora e um câncer no útero. Ou Michelle Obama, que simboliza a chegada à Casa Branca de uma mulher negra, e que está muito longe de ser apenas uma imagem bonita nas novas páginas da American History.

Seja como par ideal, seja como companheira de luta, a verdade é que a sociedade reservou um lugar para as mulheres na política, e não se trata de um lugar qualquer: é exatamente ao lado dos grandes homens que farão história.

A reserva, contudo, só se aplica ao "perto" e é passível de cancelamento imediato se a solicitante disser algo como "desculpe, acho que você não entendeu. Não quero ao lado. Quero O lugar".
Além disso, são necessários alguns requisitos. Preferencialmente, jovens, brancas e com alguma instrução. E, obviamente, heterossexuais.

Ou longe?

Situação bastante diferente ocorre quando as mulheres escolhem ocupar o lugar de poder. Aí, toda ousadia será castigada.

Desequilibradas e agressivas. Sedutoras e devoradoras de homens. Infelizes e solitárias. Essas são as legendas das fotografias das mulheres que decidem que não irão pedir licença e que o papel de companheira não é suficiente. Serão condenadas a todos os tipos de violência. A pena será agravada conforme a classe social, raça, identidade de gênero ou filiação partidária.

O lugar das mulheres na política é um lugar amaldiçoado e, por isso, frequentemente vazio. Não é de se estranhar que na votação do prosseguimento do impeachment na Câmara, que nos permitiu observar mais de 500 rostos e nomes de congressistas, vimos poucas Marias dizendo "sim" ou "não". E ainda menos Marias negras, Marias índias, Marias trans.

Longe parece, portanto, mais seguro. Afinal, em um país religioso, ninguém é boba de querer encarnar capetas.

Então, mulheres por mulheres? Nós por nós mesmas?

A solução seria, então, o "Partido Unificado da Sororidade"? Afinal, as mulheres são a maioria da população e, unidas, teriam o poder majoritário. Seria só apertar o botão verde do "confirma" quando víssemos a foto de uma mulher e teríamos resolvido a questão.

Parece-me que não.

É inegável a urgência de aumentar a representação feminina nos espaços de poder no Brasil. E não só das mulheres, mas dos(as) negros(as), indígenas, jovens e diversos outros grupos que representam a pluralidade da nossa sociedade.

Mas a fórmula da sororidade não se sustenta. Para quem impunha as bandeiras do feminismo, do enfrentamento ao racismo e da igualdade em todas as suas variações, é preciso assumir o compromisso de não só ocupar esse lugar, mas de atuar para rever toda a geografia do poder. De colocar as questões de gênero, classe e raça no centro do debate.

Daí que, contraditoriamente, é possível que candidaturas de homens brancos possam, em determinadas conjunturas, serem mais favoráveis às nossas pautas do que candidaturas femininas. Não é de se estranhar que o nome Bernie Sanders tem falado mais para o coração de muitas feministas do que o de Hillary Clinton. Por enquanto.

P.s.:

Termino o texto infeliz com o que leio. Essa resposta ao meu amigo não me parece satisfatória. É como montar um quebra-cabeça de cinco mil peças e descobrir que algumas delas vieram faltando.

Talvez a resposta seja de que esta história não terminou. Porque talvez o que tenhamos que fazer é justamente viabilizar o "Partido Unificado da Sororidade". Mas não só. Também o "Partido Nacional contra o racismo e qualquer forma de xenofobia?". Ou "Partido contra a Homofobia, a Lesbofobia ea Transfobia do Brasil"? Fico, então, não com um fim. Mas com um... Por enquanto.

LEIA MAIS:

- Lute como uma menina: Mas lugar de menina é na política?

- Do fiu fiu à misoginia: Desfilando pelo Carnaval, os homens que não amavam as mulheres

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