Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Marina Toth Headshot

Impeachment e o Advogado Geral da União: Debates e sofismas

Publicado: Atualizado:
IMPEACHMENT
Adriano Machado / Reuters
Imprimir

Lembro-me como se fosse ontem dos anos em que, ainda estudante da Faculdade de Direito da PUC de São Paulo, prestava monitoria para o hoje Advogado Geral da União, José Eduardo Cardozo, assessorando-o nas aulas de Introdução ao Estudo do Direito à turma do 1º ano. Retórica afiada, oratória invejável, raciocínio rápido.

A turma estudava Bobbio e José Eduardo Cardozo exalava dialética, enquanto, propositadamente, sofismava. Sofismava a todo tempo, sofismava tanto e tão bem e de tal maneira que, enquanto professor, intrigava, desafiava, estimulava os alunos a lapidarem suas capacidades cognitivas.

Os alunos percebiam que as conclusões não pertenciam àquelas premissas, mas tinham dificuldade em articular o ponto exato do sofisma, até que um aluno, indignado, levantou a mão e sem conseguir chegar no cerne da falácia, desabafou:

"Professor, mas o que o Senhor está dizendo é mais ou menos que: 'toda vaca dá leite, toda mulher dá leite, logo, toda mulher é vaca'".

Eu sorri na minha cadeira de monitora, em seguida ri. Riram todos, até o professor. O aluno estava certo, a aula era um sucesso. No auge dos meus 20 anos admirei José Eduardo Cardozo, e por suas aulas serei sempre grata. Sem elas seria uma advogada diferente do que sou hoje, talvez não identificasse, tão bem, um sofisma. Lembro-me até de comprar para o professor, com a bolsa estágio que recebia do meu então chefe, o gigante criminalista José Carlos Dias, um presente de natal.

E talvez por isso sinta mais tristeza, mais pesar, mais desanimo ao assistir as sessões do Senado e perceber que aqueles sofismas, tão bem-vindos em sala de aula, eram mais que treinos para alunos, pois havia um sofisma, do início ao fim, na defesa da Presidente em exercício feita pelo AGU.

E sofisma com tamanha competência, competência própria do grande orador que é, que hoje confunde a nação, com a peculiaridade de que a nação, formada por pessoas das mais desprivilegiadas e simples, está em busca não de treino como aqueles alunos, mas de verdade, de clareza, e se possível, de um bocado de decência.

Como bem disse Janaina Paschoal, "há crime de sobra de responsabilidade, há crime de sobra comum", e defender o contrário, da forma e nos termos que vem fazendo o AGU, parece excesso de sofismo onde não caberia sofismo algum.

Excesso de raciocínio torto para chegar à conclusão que se quer chegar. Ainda bem que como aqueles alunos, até a gente da mais simples, que não consegue articular o ponto exato da falha, da falácia, da inverdade, sabe que mulher é mulher e vaca é vaca.

E é por ter crime de sobra e pelo evidente desgoverno, que sofismas não prevalecerão, e dormiremos após este dia 11 de maio diferentes como nação. Não sem dor, não sem ressaca, mas diferentes.

Essa é a data provável para a votação do afastamento provisório da presidente Dilma Rousseff, e quanto o impedimento se aproxima, por mais hábeis - sofistas e politicamente - que sejam alguns dos governistas, mais distante fica a já malfadada possibilidade de reversão no cenário político.

A profecia da Presidente sobre ser "carta fora do baralho" deve se realizar mais cedo do que o previsto, e o constitucional processo de impeachment, concretizando-se, será não um golpe como muitos gritam e poucos acreditam, mas um contragolpe democrático, que iniciará a separação da propositada confusão criada entre Democracia e a figura da Presidente, coisas que, pela história de cada uma (da Democracia e da Presidente), não poderiam ser mais diferentes.

LEIA MAIS:

- Mérito de denúncia contra Temer cabe a comissão especial, e não a Cunha

- Sigilo fiscal e a politização do STF

Também no HuffPost Brasil:

Close
Personagens do Impeachment
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual