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As Olimpíadas e o complexo de vira-lata

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OLYMPICS RIO
Adam Hester via Getty Images
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Nada pode ser mais representativo do complexo de vira-lata do brasileiro do que a reação à matéria do New York Times sobre o biscoito de polvilho.

Convenhamos: o jornalista não falou nenhuma mentira. Biscoito Globo é oquei, mas não é nenhuma maravilha de comer gemendo. Não é nenhum bacon, nenhuma picanha.

É só um biscotinho de ar esfarelento que o carioca cresce comendo e por isso tem gosto de infância, tal qual aqueles salgadinhos "de isopor" (que talvez as crianças de hoje nem comam mais) e a pipoca do saco cor-de-rosa (quer coisa mais mequetrefe do que aquilo? Mas, se jogar na minha frente, como o saco inteiro).

Todos os povos têm guloseimas que parece ser preciso nascer no lugar pra gostar: os australianos têm Vegemite, os holandeses têm Drop e por aí vai.

Mas tão sedentos são os brasileiros pela aprovação dos americanos e europeus do Oeste (brasileiro nenhum está preocupado em como Bulgária, Lituânia e Eslovênia os enxergam, né? O lance é só com os colonizadores) que uma matéria dizendo que biscoito de polvilho não tem nada demais vira uma celeuma.

O povo fica ofendidíssimo, machucadíssimo, revoltadíssimo, #somostodosbiscoito.

O despeito da maior parte das reações demonstra a sede de aprovação: "quem esse americano pensa que é? Eu nem ligo pra opinião dele mesmo".

Amigo, se não ligasse, não teria passado dois dias só falando disso nas suas redes sociais. Simplesmente daria de ombros porque o que importa é que você gosta do biscoito e o que as suas papilas gustativas sentem ao comê-lo.

Mesma coisa aconteceu quando Jamie Oliver não gostou de brigadeiro. Que diferença faz na sua vida um estrangeiro não gostar de comer o que você gosta?

Por que você toma essa diferença de paladar como uma ofensa pessoal? Bingo: porque você queria muito ser aprovado pelo gringo e te machuca não sê-lo.

Se Jamie Oliver tivesse eleito brigadeiro como o melhor doce de todos os tempos, mesmo brigadeiro não passando de leite condensado misturado com achocolatado e havendo muitos doces mais sofisticados inclusive na própria culinária brasileira, certeza que todo mundo teria compartilhado o link do elogio com o maior orgulho e sem a menor autocrítica.

Afinal, é Jamie Oliver, ele sabe do que está falando.

Outro grande exemplo de complexo de vira-lata é o imbróglio do nadador americano que alegou ter sido assaltado. Não passa de um frat boy mimado que ficou bêbado e saiu fazendo arruaça num posto de gasolina.

Aí parece que o segurança do estabelecimento sacou sua arma e o obrigou, ele e os amigos, a pagar uma "caixinha" pela arruaça provocada. O americano inventou para a mãe que foi assaltado, provavelmente pra não ter que assumir que estava fazendo arruaça.

Além de fratboy mimado, o tal moço e sua família gostam de um holofote, até reality show já fizeram, então a mãe viu nisso uma oportunidade de choramingar para a imprensa que o coitado do filhinho estava sofrendo com a violência do Brasil.

Chamaram o moço para dar entrevista e ele manteve a mentira, afinal, nessa altura do campeonato, desmentir ficaria chato e pessoas são assaltadas todos os dias no Rio -- o que poderia dar errado, não é mesmo?

Acabou que virou uma questão diplomática, pois ao perceber que a história do cara era inconsistente, a polícia deu um duplo twist carpado na chance de salvar sua reputação diante dos gringos. E, de novo, redes sociais em polvorosa, povo ofendidíssimo.

Mas, vem cá: independentemente do nadador americano ter ou não ter sido assaltado, não é verdade que assaltos ocorrem no Brasil todo santo dia? Outros atletas foram roubados, inclusive.

Provar que, neste caso específico, o cara estava mentindo não vai fazer absolutamente nada pela reputação do Brasil em relação à violência, que já é ruim.

Merecidamente ruim, aliás, pois os brasileiros infelizmente se acostumaram (tiveram que) a níveis inaceitáveis de violência.

O americano e o europeu médios já pensam que isso aqui é bagunça e não é de hoje. Tanto que, aqui na Europa, ninguém está nem aí para essa história. Só os brasileiros acham que isso vai fazer uma grande diferença na imagem da nação.

Claro que a mídia sempre faz a violência parecer muito pior do que é na realidade, mas isso ocorre internamente também.

Quando visitei o Rio pela primeira vez, por exemplo, meu pai ficou super-apreensivo: de tanto assistir Datena, criou a ideia de que o Rio é um festival de bala perdida.

Engraçado que quando Cidade de Deus e Tropa de Elite ganharam prêmios em festival internacional de cinema, todo mundo achou lindo (afinal, era aprovação de gringo), mas se os mesmos gringos depois dizem que o Brasil tem violência e instituições corruptas, aí a gente fica ofendido e quer que eles pensem que não é bem assim?

Lógica, quedê?

Mas o pior do que vi nas redes sociais nessa época de Olimpíada foi o anticomplexo de vira-lata. Gente justificando grosseria e falta de educação, como se fosse combate ao imperialismo americano e colonialismo europeu. Como este post, que viralizou:

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Fiquei chocada com tanta gente aplaudindo a grosseria gratuita dessa moça! Se ela parou para falar com o cara, gastou seu tempo para isso, o que custava ser gentil e ajudá-lo, já que arranhava um pouco de inglês?

Sim, arranhava, pois cometeu dois erros crassos só nesse post... Portanto, se ela mesma não é obrigada a falar inglês perfeitamente, por que o turista teria que falar português fluentemente também?

É de bom tom aprender algumas palavrinhas do lugar que você visita, claro, mas aprender uma língua a ponto de conseguir se comunicar bem leva muito tempo, esforço e dinheiro.

Imagina brasileiro não podendo mais visitar Buenos Aires só falando portunhol? Ou não poder ir mais pra Disney com inglês quebrado?

A partir de hoje, pra passar lua de mel nas ilhas gregas tem que aprender grego antes! Pra fumar maconha em Amsterdam tem que dominar o holandês!

Basicamente, ninguém vai mais a lugar algum. Que idéia mais estapafúrdia... Só espero que um dia ela precise de ajuda, surja alguém podendo ajudá-la e resolva não fazê-lo, para ela ver o que é bom.

Felizmente, em minhas viagens, nunca me deparei com uma pessoa assim. Até com mímica já fui ajudada, porque quem quer ser gentil faz isso da melhor maneira que conseguir.

Patriotismo jamais deveria passar na frente da obrigação de sermos bem-educados com as pessoas, seja quem for.

Outra coisa que denota uma falta de empatia desgraçada é que ela nem sabe de onde vinha esse turista. Talvez inglês não fosse sua primeira língua, e ele já estivesse fazendo esforço para se comunicar em inglês -- língua que, ela gostando ou não, já é o idioma internacional do turismo.

Tarde demais, Juliana. Tua grosseria com o tal turista não vai mudar esse fato.

Também houve quem dissesse que as pessoas que reprovam vaias para desconcentrar o time adversário só fazem isso por complexo de vira-lata, porque ficam com medinho dos gringos nos acharem malcomportados.

Ora, se você acha que só precisa se comportar com educação e empatia quando quer impressionar os outros, você é parte do problema cultural de que estamos falando.

Se você não vê problema em levar vantagem numa situação porque fez algo para prejudicar seu oponente, você é parte do problema cultural de que estamos falando.

Se, quando te apontam que seu comportamento foi grosseiro, em vez de refletir sobre seu comportamento, você se justifica dizendo que outros fazem igual ou pior ("Mas e os Hooligans? Mas e os europeus que jogam banana no campo?"), se esquivando de melhorar e nivelando tudo por baixo, você é parte do problema cultural de que estamos falando.

"Ah, mas isso é Brasil!" Sim, mas é o que o brasileiro tem de pior. Se parar pra pensar, essas três atitudes estão por trás de muita coisa que vai mal no País. Não adianta nada sair na rua de camisa verde e amarela, pedindo o fim da corrupção, e depois não ver nada demais em levar vantagem de formas escusas em outras situações, como num evento esportivo.

"Ah, mas brasileiro não chama jogador chinês de Yakissoba e China in Box por mal, ele só acha engraçado." Acha engraçado porque é mal/pouco educado. Não enxerga que a piada é racista porque é mal/pouco educado.

Já passou da hora de se educar. Não me peça pra ter orgulho disso, porque não dá, não. Quando alguém não sabe se comportar, a gente só pode sentir vergonha alheia. E essa vergonha não é complexo de vira-lata.

Afinal, quando a atitude é vergonhosa, que outro sentimento se pode ter além de vergonha?

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