Martha Maria Dallari

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Correndo e pedalando desde o início do século 20

Publicado: 30/01/2014 18:11

Marathon
Getty Images

A maratona, prova espetacular do atletismo, corresponde oficialmente desde 1921 a uma corrida de exatos 42.198 km. A história desta medida é retrato de fatos e acontecimentos do começo do século passado.

Em 1903 o Comitê Olímpico Internacional escolheu Roma como sede dos Jogos Olímpicos de 1908. Nas palavras do Barão de Coubertin, a cidade era a melhor alternativa para que "no retorno de sua excursão pela América utilitária, o olimpismo resgatasse sua toga suntuosa, tecida de arte e pensamento".

A erupção do vulcão Vesúvio em 5 de abril de 1906 determinou a renúncia da cidade. Londres foi definida como substituta para sediar os jogos que aconteceriam dois anos depois.

Nos preparativos, ficou decidido que a maratona, então corrida só por homens, seria disputada entre o Castelo de Windsor e o White City Stadium, construído para os jogos. Entre a largada e a chegada, 26 milhas, a distância no sistema de medida inglês que mais se aproxima dos 40 km do sistema métrico, próximo do percurso corrido pelo soldado grego Phidíppides, que morreu, esgotado, após anunciar a vitória dos gregos, na planície de Maratona, sobre os persas em 490 a.C. Phidíppides foi homenageado pela criação da maratona no século 20.

No entanto, às vésperas da disputa, a rainha Alexandra, nascida na Dinamarca, vinda de uma família de praticantes de atividades físicas, quis que as crianças reais assistissem à largada da corrida. Para acomodar o pedido, o início da corrida foi transferido para o lado leste do castelo, de onde as crianças poderiam vê-lo sem sair de seus aposentos.

Desde 1921, maratona, no atletismo, é uma corrida de 42.198 metros. E foi essa a distância percorrida pelos milhares de concluintes de provas no mundo todo em 2013. Paris, Honolulu, Londres, Praga, Boston, Tsukuba, Chicago, Sahara, Doha, Tóquio, Pequim, Berlim, Kovice, Praga, Patagônia, Ártico, muitas cidades e regiões do mundo todo receberam, saudaram e pararam para a passagem de atletas, profissionais e amadores, sempre acompanhados de sua torcida.

Já o Tour de France, prova ciclística que atravessa a França durante o mês de julho, existe desde 1903, com milhares de seguidores desde os seus primeiros anos.

Clément, fabricante de bicicletas, equipamento novo, substituto para os cavalos, adequado para as também novas estradas, e Michelin, produtor de pneumáticos, peças essenciais para o conforto dos ciclistas, entre outras indústrias, pagavam caro para anunciar seus produtos no jornal esportivo Le Vélo, impresso em papel verde.

Líder de mercado, o periódico era dirigido pelo criador da corrida ciclística Paris - Brest - Paris, de 1.200 km, disputada a cada dez anos, entre 1891 e 1951. Quando Pierre Giffard, o editor, como o escritor Émile Zola, assumiu publicamente a defesa do capitão Dreyfus, militar do Exército francês acusado de traição, protagonista do que ficou conhecido como um dos grandes erros judiciários da França, Le Vélo perdeu seus financiadores.

Para acolhê-los surgiu um novo jornal, denominado, a partir de 1903, L'Auto, administrado e editado pelos proprietários do velódromo do Parque dos Príncipes. E, para atrair leitores, o diário criou e patrocinou uma nova prova ciclística, realizada em etapas, o Tour de France.

Com quase 2.500 km, ligando Paris, Lyon, Marseille, Toulouse, Bordeaux e Nantes, antes de voltar a Paris, a corrida cativou uma quantidade enorme de seguidores: as tiragens do jornal atingiram 100 mil exemplares durante o mês de julho de 1903.

Até hoje o Tour de France reúne milhares de seguidores e atletas, assim como o Giro d'Italia criado em 1909 pelo jornal La Gazzetta dello Sport e a Vuelta a España, patrocinada pela primeira vez pelo diário espanhol Informaciones, em 1935. A camisa amarela do líder, que repete a cor das páginas do jornal que o inventou, é carregada de símbolos.

Se esses eventos atravessaram o século 20 e continuam a atrair o interesse de atletas e de público, merecem ser conhecidos e discutidos. São parte daquilo que chamamos Esporte, manifestação social e cultural praticada com caráter lúdico e também em competições locais e internacionais, em vários países e continentes, com regras semelhantes e medidas de resultado.

Associá-lo ao lazer, vê-lo apenas como jogo ou atividade corporal, forma de recreação de poucos, é enxergar parte de seus significados. Conhecer e compreender o esporte é uma forma importante de ver a história e pensar no futuro.

 
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