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Onde estão as mulheres da literatura?

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MULHERES
Reprodução/Cosmopolitan
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Abra um caderno literário de um grande jornal, entre em uma livraria ou confira uma lista dos selecionados por algum prêmio de literatura: aposto que o número de autores homens que você encontrará nesses espaços será maior do que o número de escritoras mulheres. E por quê? A resposta é complexa.

A falta de visibilidade das mulheres no mundo das artes não é um assunto atual. Grupos feministas ao redor do mundo já discutem a questão há décadas, como é o caso do Guerrilla Girls, que desde os anos 80 desenvolve ações e cartazes irônicos e bem-humorados sobre o tema.

No começo deste ano, a escritora Joanna Walsh decidiu levantar a questão da falta de visibilidade das mulheres no campo da literatura com uma campanha: #ReadWomen2014 (leia aqui). Afinal, como Walsh afirma, as mulheres são maioria entre os leitores, consomem mais livros, revistas e e-books do que os homens e são as principais incentivadoras do hábito de leitura de seus filhos. Elas publicam livros na mesma medida que eles, mas seguem recebendo menos destaque na imprensa, em premiações e eventos literários. Alguns números dão conta do cenário: o prêmio Nobel de Literatura, por exemplo, existe desde 1901, mas só foi destinado a 12 mulheres em sua história; a Academia Brasileira de Letras tem 40 membros, só 5 mulheres; a Festa Literária de Paraty (Flip) 2014 terá, entre os 44 autores convidados, somente 7 mulheres - vale pontuar que, em 12 edições do evento, somente uma homenageou uma mulher.

A questão não é uma ou outra organização que não buscou autoras, ou um ou outro veículo de imprensa que preferiu escritores homens, mas toda a forma como a literatura feita por mulheres chega ao público e à crítica. Tomemos as capas dos livros como exemplo. É comum que autoras relatem uma tendência das editoras de sugerir capas com flores, cores suaves e delicadas mesmo que o tema não tenha nada que ver com essa identidade. A escritora Lionel Shriver comentou, em entrevista ao jornal The Guardian, como seu livro sobre um plano de assassinato quase teve uma capa com uma moça jovem, olhando para o horizonte. Ela sugeriu, então, trazer carcaças de elefante para a capa do livro e ouviu, do departamento comercial, que essa imagem poderia repelir as mulheres.

A cobertura da imprensa é outro capítulo à parte. Quando as mulheres são foco, é comum que se dê mais destaque à sua vida pessoal ou a seus atributos físicos do que ao seu trabalho literário. Basta lembrar de Pola Oloixarac, escritora argentina que esteve na Flip em 2011: grande parte dos veículos se referia a ela como a "musa da Flip", com mais foco em sua beleza do que em sua obra. E infelizmente não é o único caso.

Por outro lado, hoje, há muitas ações ao redor do mundo voltadas para gerar esse debate e disseminar a literatura feita pelas mulheres. A plataforma She Books, por exemplo, reúne contos e textos curtos produzidos por escritoras e disponibilizados em e-books. Já a VIDA é uma organização que investiga as percepções decorrentes da literatura feita por mulheres. Uma de suas ações é o VIDA Count, trabalho árduo, em que registram manualmente o destaque que publicações literárias destinaram às autoras mulheres em comparação com o destaque dado aos homens. São iniciativas bem diferentes, mas que procuram problematizar a questão. Para pensar esse assunto por aqui, eu e um grupo de mulheres da Casa de Lua colocamos no ar o KDMulheres, em que pretendemos reunir esses dados e pensar soluções. Também pretendemos desenvolver a iniciativa em um perfil de Twitter (siga aqui).

Diante desse cenário, muitos afirmam que não se pode fazer uma escolha com base no gênero do autor, mas na qualidade literária de uma obra. No entanto, o que é importante pensar é que não é possível fazer uma seleção justa e equilibrada quando a literatura feita por mulheres, em toda a sua riqueza e complexidade, não for disseminada aos leitores, críticos e curadores da mesma forma e na mesma quantidade que a literatura feita pelos homens. É esse questionamento que queremos despertar.

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