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Atenção, pais! Acabem de uma vez por todas com a briga na hora de fazer seu filho comer

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É hora do jantar e meu filho de 4 anos está brincando super concentrado. Quando anuncio que o jantar está pronto, ele também faz o seu: "Não quero comer, Mamãe."

Eu lhe digo seis palavras que evitam a guerra pela comida que ele quer que eu começa: "Você não é obrigado a comer".

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Esta é a regra em nossa casa, mas ela é seguida por uma segunda regra, independentemente de querer comer ou não. Digo a ele que os jantares de família são importantes porque são a hora de estarmos em família, não apenas a hora de comer. Por isso, temos que nos sentar à mesa todos juntos.

Nove em cada dez vezes, depois de sentado, meu filho come pelo menos parte da comida que está em seu prato.

Por que é tão importante evitar brigas em torno da refeição.

Meu problema com as guerras em torno da refeição é que há um vencedor e um perdedor. Se o pai ou mãe ganha, a criança perde, e se a criança ganha, fica com todas as cartas na mão. Nenhuma dessas situações é benéfica.

Quando fazemos da hora da refeição um competição entre a vontade dos pais e a vontade do filho, perde-se a alegria e o momento de comunhão da refeição. Alguns pais podem vencer a guerra e ficarem satisfeitos por seu filho ter comido como eles queriam, mas lá no fundo a criança pode estar cheia de ressentimento, comendo as ervilhas para agradar a seus pais, e não porque goste de comê-las.

Na verdade, um estudo de 2008 publicado no Journal of Nutrition Education and Behavior constatou que os pais que pressionam seus filhos em idade pré-escolar ou usam recompensas para fazê-los comer frutas e verduras vêem um aumento imediato no consumo desses alimentos, mas que, ao mesmo tempo, diminui a probabilidade de as crianças darem preferência a esse tipo de alimento saudável.

Transforme a situação em uma do tipo "ganha-ganha"

O que eu gosto mais da Divisão de Responsabilidade na Alimentação proposta por Ellyn Satter é que ela atribui a pais e filhos tarefas muito específicas na alimentação. Os pais são encarregados de decidir o que é servido na refeição, quando ocorrem as refeições e onde. As crianças decidem o que e quanto comer daquilo que lhes é oferecido.

Assim, quando meus filhos reclamam da comida que preparo para eles, digo que eles podem optar por não comer a comida. E tomo o cuidado de incluir pelo menos uma ou duas coisas que eles tenham mais chances de aceitar. Isso lhes dá algum controle, elimina as tensões e aumenta a probabilidade de eles experimentarem a comida (isso é muito diferente da estratégia "coma isto ou passe fome").

E já não basta que os pais tenham que fazer supermercado, planejar as refeições, prepará-las e servi-las de maneira estruturada? Se assumirem a responsabilidade adicional da tarefa que cabe a seus filhos na hora de comer, isso só torna o processo mais difícil. O mesmo se aplica quando os filhos assumem a tarefa dos pais de decidir o que comer. Não é divertido ser cozinheiro que precisa preparar alguma coisa rapidinho, nem é divertido virar refém de um filho que descobre que detém todo o poder.

Superando o medo.

Pude perceber que dar às crianças a liberdade de escolher entre os alimentos que lhe são oferecidos não apenas é difícil para os pais como é algo que realmente lhes mete medo. E se a criança comer apenas pão? E se disser que está com fome na hora de ir para a cama?

Como especialista em nutrição familiar, ajudo os pais a entender a razão dos comportamentos de seus filhos em relação à comida. Creio que essa informação não apenas proporciona paz de espírito aos pais e reduz seus sentimentos de culpa, como os ajuda a entender por que as práticas da alimentação sem pressão realmente são as melhores.

Ajuda, por exemplo, saber que meu filho de 4 anos está passando por mudanças de crescimento e cognitivas mais lentas, o que significa que seu apetite é reduzido e ele se mostra mais seletivo em relação à comida. Sei que ele está suprindo suas necessidades nutricionais e que geralmente come melhor no café da manhã e no almoço -- e recorro a lanches para cobrir as brechas nutricionais -- de modo que posso ficar relaxar mais na hora do jantar. Meu filho vai superar esta fase de resistência, como aconteceu com sua irmã mais velha.

Além disso, os anos pré-escolares são uma época em que as crianças tomam iniciativas com suas tarefas diárias, o que inclui o comer. As crianças às quais é permitido que decidam o que comer, depois de a comida ser servida, e que o façam com êxito, têm probabilidade maior de gostar de comer a comida. Mas crianças não autorizadas a tomar a iniciativa e que são criticadas quando o fazem podem desenvolver um sentimento de culpa em relação à comida, o que resultará em menos confiança e prazer.

Munidos de uma compreensão mais profunda da alimentação, os pais poderão evitar as guerras em torno de comida, confiar que seus filhos vão avançar em seu ritmo próprio na aceitação de alimentos e abraçar a refeição em família como meio de apoiar seus filhos nessa empreitada. E aquelas seis palavrinhas (você não é obrigado a comer), embora assustadoras, vão deixar essa transformação acontecer.

Este post foi publicado também no blog da Maryann, Raise Healthy Eaters.