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Por que Donald Trump não tem condições de ser o próximo presidente dos Estados Unidos

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DONALD TRUMP
Carlos Barria / Reuters
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A polarização extrema tem dado o tom da corrida presidencial norte-americana de 2016. Ambos os candidatos estão usando estratégias que intensificam essa polarização buscando ficar em uma posição de vantagem em relação a seu concorrente.

Por um lado, Donald Trump procura contestar o estado de saúde de Hillary Clinton e demonstrar força ao propor ações enérgicas contra terroristas, tentando capitalizar na situação de modo que ele pareça forte o suficiente para proteger os Estados Unidos e que Clinton pareça doente e fraca, isto é, alguém que não tem condições de proteger o país. Por outro lado, Hillary Clinton procura taxar Trump de racista, sexista e xenófobo, enquanto se coloca como representante da tolerância, da diversidade e das minorias.

Apesar de haver um fundo de verdade em ambas as versões, pois Hillary Clinton já vem tendo o estado de saúde contestado há algum tempo tendo, inclusive, passado mal durante a cerimônia de 11 de Setembro em Nova York, e Donald Trump vir fazendo declarações no mínimo grosseiras sobre imigrantes, essas estratégias têm sido superexploradas e simplificadas para fins eleitorais.

Sem dúvidas, Trump tem sido o mais criticado, pois tem cometido muito mais gafes que a concorrente. Porém, as críticas dirigidas a ele tem sido majoritariamente no tocante à polarização proposta por Hillary Clinton e, ainda que possam fazer sentido, acabam por ocultar o verdadeiro risco que Donald Trump representa: suas propostas.

Algumas das principais propostas de Donald Trump focam em dois dos assuntos mais quentes dos Estados Unidos, da Europa e do mundo nos últimos anos: comércio internacional e imigração.
Começando pela última, Trump considera que imigrantes roubam empregos e diminuem os salários dos americanos, que eles cometem mais crimes que os nativos, e que representam um risco para a segurança nacional ao terem maior probabilidade de se envolver com terrorismo.

O Cato Institute, um dos Think Tanks mais importantes dos Estados Unidos, apartidário e sediado em Washington-DC, analisou o que os dados e as pesquisas têm a dizer sobre imigração e concluiu que nenhuma das alegações de Trump e de seus apoiadores é suportada por evidências.

Os imigrantes chegam aos Estados Unidos relativamente jovens (28 anos em média), pagam impostos para financiar os programas sociais, como o Social Security, tem uma participação na força de trabalho maior que a dos nativos, e seus filhos usualmente têm desempenho escolar e na sociedade de maneira geral superior à média americana.

Em relação à criminalidade, imigrantes têm menor tendência a cometer crimes que nativos e também vão presos com menor frequência. Enquanto 1,6% dos imigrantes homens entre 18 e 39 anos estão presos, entre os nativos essa taxa é de 3,3%. Desde os anos 80 a taxa dos nativos têm variado de 2 a 5 vezes a taxa dos imigrantes.

Por fim, em relação ao terrorismo, desde 1975, para cada terrorista estrangeiro que entrou nos EUA, 7,4 milhões de estrangeiros entraram no país. De todas as mortes causadas por ataques terroristas executados por estrangeiros, 98,6% ocorreram somente no ataque de 11 de Setembro de 2001. A chance de um americano morrer vítima de um ataque terrorista praticado por um estrangeiro é de 1 em 3,6 milhões. A chance de morrer num ataque terrorista causado por um refugiado é de 1 em 3,64 bilhões. A chance de morrer num ataque causado por um imigrante ilegal é a astronômica 1 em 10,9 bilhões. Para efeitos de comparação, as chances de morrer acertado por um raio nos EUA é de 1 em 174.426. Como os dados demonstram, as chances existem, mas são extremamente pequenas. Trump tem explorado o medo dos cidadãos para fazê-los terem maior hostilidade a imigrantes, quando os dados mostram que o imigrante de maneira geral traz enormes benefícios econômicos e mínimos riscos em relação à violência, com algumas poucas exceções.

Em relação ao Comércio Internacional, Trump tem empregado a mesma estratégia. Está usando o tema como um bode expiatório, explorando politicamente casos isolados e os medos dos trabalhadores americanos, além de instigar uma animosidade em relação à China e ao México que não é justificada pelas pesquisas na área. Ele critica o NAFTA, acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México, alegando que ele teria causado uma "derrota" dos Estados Unidos para o México. Ele se aproveita, ainda, do fato de ter sido Bill Clinton, marido de Hillary, quem assinou o tratado quando foi presidente nos anos 90. Ele critica o Transpacific Partnership (TPP), maior acordo comercial do mundo, e defende que os EUA deixem de fazer parte dele. Além disso, ele critica a maior integração econômica entre Estados Unidos e China, acusando o país asiático de abusar dos americanos em suas transações econômicas.

Por ter uma leitura do comércio internacional como se fosse uma guerra em que os parceiros podem ser considerados inimigos a serem derrotados. Trump quer aumentar impostos de importação e dificultar a divisão internacional do trabalho colocando entraves para empresas americanas produzirem bens e serviços fora do país.

O China vem crescendo muito nas últimas décadas e seu sucesso pode ser considerado quase um milagre, com a retirada milhões de pessoas da extrema pobreza desde as reformas iniciadas na década de 70. Agora, o país produz e vende trilhões de dólares em produtos baratos, além de comprar outros trilhões de dólares de outros países, como cobre chileno, ou alimentos e minérios brasileiros, puxando a economia global para cima.

Por concordarem com as vantagens do comércio e da globalização, 93% dos economistas acreditam que tarifas e quotas de importação diminuem a qualidade de vida da população. Além disso, 90% acredita que o governo não deve dificultar o investimento de empresas americanas que querem levar a montagem final de seus produtos para outros países.

Donald Trump está errado. Suas propostas são ruins, não tem base em evidências e buscam apenas explorar o medo da população causado pelas mudanças relacionadas ao fluxo de bens, serviços e de pessoas das últimas décadas. São nessas propostas que o debate deveria estar sendo centrado. São essas propostas que tornam Donald Trump inadequado para ser o próximo presidente da nação mais influente e poderosa do planeta.

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