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4 iniciativas feitas e comandadas por mulheres que estão mudando o mundo

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FEMINISM
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No fim de abril participei como jurado do prêmio The Bobs, da Deutsche Welle, que escolhe os melhores sites de ativismo online em 14 idiomas.

O júri se reuniu em Berlim onde debatemos os indicados e votamos nos campeões em quatro categorias -- cultura, tecnologia, jornalismo cidadão e mudança social. Para além das divisões, me chamou a atenção o quanto temas relacionados aos direitos femininos deram o tom de nossas discussões. Mundo afora, as mulheres são a vanguarda das lutas humanitárias.

Decidi então preparar esta seleção, para retratar o panorama dessas mobilizações, que incluem iniciativas brasileiras.

1. Enfrentando fundamentalismos religiosos

Razor´s Edge (Bangladesh)

Minha colega de júri Rafida Bonya Ahmed sobreviveu a um ataque de fanáticos religiosos em Bangladesh, no qual infelizmente seu marido foi morto. Eles se tornaram alvos por conta de suas atividades à frente do blog Mukto Mona, que reúne escritores que abordam temas científicos e os problemas do país de uma perspectiva secular. Outros colaboradores do site também sofreram atentados e vários foram assassinados. O governo falhou em defender a liberdade de expressão e diversas autoridades deram declarações culpando as vítimas pelo ódio fundamentalista.

Rafida deixou Bangladesh e agora vive nos Estados Unidos, como pesquisadora na Universidade do Texas. Ela continua em campanha contra a intolerância religiosa e o documentário "Razor´s Edge" (O Fio da Navalha) conta sua história e a de seus colegas. Fiquei muito impressionado com a serenidade e calma de Rafida ao abordar a violência que enfrenta.

Gershad (Irã)

Após a Revolução Islâmica de 1979 os aiatolás iranianos criaram a polícia do vício, uma força de segurança especializada em monitorar o cumprimento das regulações sobre a moral sexual, como se mulheres estão usando o véu (obrigatório), se suas roupas são adequadas etc. Os regulamentos são com frequência um tanto vagos ou contraditórios, dando margem a grande arbitrariedade, para além da ofensa básica da intromissão do Estado em aspectos da vida íntima que para muitas pessoas no país deveria ficar a cargo da privacidade individual.

Para tentar lidar com a vigilância, um grupo de iranianos criou o aplicativo Gershad, pelo qual os usuários podem marcar em mapas digitais a presença de patrulhas e blitzes da polícia do vício, driblando suas batidas. Algo semelhante ao que os brasileiros às vezes fazem com relação à fiscalização por dirigir embrigado, mas com a diferença que no caso iraniano o esforço é para burlar leis injustas.

2. Buscando o direito ao próprio corpo

Proyecto Quipu (Peru)

Durante a ditadura de Alberto Fujimori (1992-2000), o governo peruano esterilizou dezenas de milhares de mulheres pobres, à maioria delas indígenas, sem seu consentimento. Com frequência os médicos realizavam a operação enquanto elas estavam anestesiadas por causa de um parto ou outro procedimento, ou às vezes elas eram coagidas com ameaças de que iriam perder benefícios sociais.

O Projeto Quipu é uma espécie de documentário online no qual as mulheres contam suas histórias, relatam sua revolta diante do que sofreram e cobram justiça. Fujimori está preso por violações de direitos humanos, mas sua filha concorre à presidência do Peru pela 2ª vez seguida, com ampla votação.

Yu Xiuhua (China)

A literatura chinesa tem uma história riquíssima, de muitos milênios, mas que sempre privilegiou as vozes dos escritores das cidades. Poucas vezes ouvimos a perspectiva dos camponeses, menos ainda as das mulheres desse grupo social. Yu Xiuhua é um desses raros exemplos, que encontrou por meio da Internet um público ávido por sua poesia erótica e política, questionadora de várias das tradições e preconceitos da China contemporânea.

Yu Xiuhua tem paralisia cerebral, com dificuldades de trabalhar e enfrentando uma situação de escassez financeira. Ainda assim, ela escapou de um casamento abusivo e em seus versos celebra o prazer sexual e o desejo.

3. Lutando contra o assédio e a violência de gênero

Blank Noise (Índia)

Chega de Assédio (Brasil)

Assédio sexual na forma de cantadas grosseiras de rua ocorrem com tanta frequência que muitos as naturalizam e as consideram comuns. Mas em diversos países organizações feministas conduzem campanhas contra esse tipo de agressão, chamando a atenção para o quanto esse comportamento é inaceitável e se esforçando para engajar os homens nas mobilizações. Os relatos tocantes dos debates no Brasil em torno do primeiro assédio também são parte importante dessa conversa.

Stop Acid Attacks (Índia)

Em países como Índia e Afeganistão ocorrem ataques com ácido contra mulheres. A motivação em geral é sexual -- uma moça que recusou-se a manter um relacionamento com um homem. Ocasionalmente, acontecem no âmbito da família, como uma madrasta que agride a enteada. As consequências são terríveis, com deformações que deixam um forte estigma social. Este movimento indiano estimula as sobreviventes a irem a público contar suas histórias e desenvolver sua autoestima. A campanha criou um café perto do Taj Mahal dirigido pelas mulheres e conseguiu mudar a lei indiana para tornar mais difícil a compra de ácido, que anteriormente podia ser adquirido legalmente em farmácias.

4. Disputando espaço por representação pública

Agora é que são elas (Brasil)

As mulheres são pouco mais da metade da população de cada país, mas são subrepresentadas no debate público. Em nenhum parlamento mundial elas têm sequer 50% dos assentos. No Brasil, são menos de 10% das deputadas e senadoras. O mesmo ocorre na imprensa. A proporção feminina entre colunistas dos três principais jornais brasileiros é de cerca de 25%.

A campanha "Agora é que são elas" foi lançada como uma crítica a essa situação. Em novembro de 2015, durante uma semana, homens cederam seu espaço a mulheres em colunas em jornais e sites de notícias, para destacar o quanto há uma lacuna com relação às vozes femininas na mídia nacional. A mobilização acabou se transformando numa coluna online na Folha de São Paulo.

Erktolia (Turquia)

Ektolia significa em turco as terras governadas pelo patriarcado. Esse site realiza um levantamento de manifestações de sexismo na imprensa e na publicidade do país, denunciando os casos e pressionando a sociedade a cobrar por mudanças na maneira como as mulheres são retratadas na mídia.

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