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Por que Donald Trump venceu?

Publicado: Atualizado:
DONALD TRUMP HILLARY CLINTON
ASSOCIATED PRESS
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A vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos rompeu uma série de consensos bipartidários entre republicanos e democratas. Os dados da boca de urna mostram que ela representou uma revolta de um eleitorado específico - a classe média mais modesta das pequenas cidades, com baixa escolaridade, assustada com os efeitos da crise econômica e preocupada com a imigração e a maior competição global.

Há pelo menos três características do discurso de Trump que ilustram essa ruptura com a agenda recente dos dois grandes partidos:

- Retórica discriminatória contra minorias étnicas e religiosas, além de muitas denúncias de assédio sexual.

- Rejeição dos acordos de livre comércio e organizações econômicas internacionais que tem sido o pilar da política externa americana desde a Segunda Guerra Mundial.

- Crítica às alianças de defesa, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte, e às guerras americanas no Oriente Médio e a proposta de uma política externa isolacionista.

Essa é uma plataforma atípica que, na falta de termos mais precisos, poderia ser classificada muito mais como "populista" do que como "conservadora". Trump se impôs como candidato republicano nas primárias à revelia da elite do partido, que o rejeitou explicitamente, com muitos líderes da sigla preferindo apoiar a rival democrata, Hillary Clinton.

A ascensão de Trump contrariou os modelos clássicos de análise política americana, que afirmam que a escolha do candidato depende em última medida do aval da elite partidária. Fazendo o mea culpa, alguns cientistas políticos concluíram que Trump foi uma exceção por conta de dois fatores: 1) Ele já era uma celebridade antes das primárias, muito conhecido dos eleitores; 2) As redes sociais lhe deram uma plataforma de mídia que ele explorou habilmente para pautar toda a campanha em função de seus gestos e palavras.

Trump não teria vencido sem as divisões dentro de seus adversários no Partido Democrata. Hillary Clinton foi uma candidata controversa desde o início, com alto índice de rejeição. Bernie Sanders a desafiou pela esquerda pela nomeação. Perdeu, mas mobilizou os jovens e forçou Hillary a incorporar em sua agenda alguns temas caros aos sindicatos, como a crítica ao livre comércio, mas ela não convenceu o eleitorado mais engajado.

Ainda não temos os dados para abstenções e a apuração dos votos não terminou, mas já é possível constatar que Trump terá menos que os 60 milhões que Mitt Romney teve em 2012, quando perdeu a eleição para Obama. E até provável que Hillary vença no voto popular por uma pequena margem, como ocorreu na disputa de 2000, em que Al Gore teve um milhão de eleitores a mais que George W. Bush. Peculiaridades inusitadas do sistema americano, com seu método em que o candidato que teve a liderança em um estado leva todos os votos do colégio eleitoral.

As eleições de 8 de novembro levaram ao poder não só Trump, mas deram aos republicanos o controle da Câmara dos Deputados e do Senado. Em seu governo ele também terá a oportunidade de nomear ministros da Suprema Corte, consolidando uma hegemonia sobre os três poderes da república que os republicanos não tinham desde a década de 1920.

Para o Brasil, a vitória de Trump traz ao menos dois impactos negativos. O primeiro é o risco de maior protecionismo comercial, consistente com tudo o que o candidato prometeu na campanha, prejudicando o esforço brasileiro em aumentar as exportações no contexto da recessão nacional. O segundo é o impacto das medidas anti-imigração para a enorme comunidade de cidadãos do país que vivem nos Estados Unidos, muitos em situação irregular. As ofensas racistas de Trump aos latino-americanos abarcam, evidentemente, também os brasileiros.

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