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Com que idade as crianças podem andar sozinhas pela cidade?

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CHILDREN STREETS
Rebecca Nelson via Getty Images
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Um dos marcos da vida é a hora em que a gente ganha autorização para sair de casa sozinho. A primeira vez é sempre difícil. Uma simples ida à padaria traz ameaças assustadoras: ruas para atravessar, pessoas e barulhos estranhos, caminhos para escolher. Na hora de pedir o pão francês, a dúvida: como chamar a atenção da moça que não olha para os clientes? No caixa, a criança conta cuidadosamente o dinheiro e torce para que o troco venha certo. A volta para a casa é um alívio e uma vitória.

Os pais também vivem esse momento intensamente. Vão acompanhar da janela a saída à rua. Vão esperar com nervosismo. E também vão ficar aliviados e felizes ao fim da experiência.

Como os pais preparam os filhos para essas situações? Com quantos anos eles deixam os filhos saírem de casa? Pensando nisso, fiz uma pesquisa informal com alguns amigos, brasileiros e de outros países. Não tem nenhuma validade estatística, claro, mas serviu para levantar alguns assuntos bem interessantes:

A autonomia se conquista gradualmente

Crianças que estão acostumadas a andar a pé com os pais têm uma vantagem: elas têm alguma familiaridade com seu bairro. Os primeiros percursos são pequenos, controlados. A mãe de um menino diz que ele começou a ir sozinho a lugares perto de casa aos oito, aumentou aos poucos os trajetos e hoje, aos dez, já pega transporte público sozinho.

Esse método é o que os especialistas recomendam: acompanhar as crianças e ir aumentando a autonomia gradualmente até que elas conheçam o trajeto e os perigos. "Treinar" reações a fatos inesperados. Alguns dizem que só a partir dos dez anos a crianças consegue tomar decisões sensatas diante de situações inesperadas, como um carro que sai de uma vaga na hora em que ela está atravessando a rua, por exemplo.

Em cada país, um jeito diferente

Cada cultura trata de um jeito a iniciação das crianças nas ruas de suas cidades.

Em alguns países, como a Suiça ou a França, por exemplo, há uma espécie de rede de proteção social às crianças. Em Zurique, crianças bem novas, de cinco a sete anos acostumam a andar sozinhas ou em grupo para a escola. Há uma noção coletiva de proteção a essas crianças: donos de lojas, guardas, pessoas na rua costumam dar uma olhadinha para ver se está tudo indo bem com a turminha em seu caminho. No Japão, crianças sozinhas na rua sempre são acompanhadas de longe, ou de perto, pelos transeuntes, preocupados que elas estejam perdidas ou precisando de ajuda.

Também existe uma questão cultural. Em alguns países, a partir de certa idade, as crianças não gostam de serem buscadas. Na Inglaterra, por exemplo, depois dos onze, as crianças acham muito "uncool" - inadequado, talvez - quando os pais vão buscá-las na escola, ou nas baladas. Eles preferem andar ou pegar um ônibus. Se tiver que ser buscada, a criança/adolescente espera que os pais não sejam vistos pelos outros colegas. Pensando bem, talvez essa seja uma característica global dos adolescentes...

Na Holanda, a questão é menos de andar a pé do que de bicicleta. Um amigo que mora em Amsterdam diz que a partir dos dez anos, já é muito mais comum as crianças se aventuram sozinhas em duas rodas do que a pé.

Já em Atenas, uma cidade grande e confusa, as idades sobem um pouco. Crianças de onze anos começam a andar em grupo para a escola. Aos quatorze, estarão confortáveis pegando o ônibus sozinhas. Mas a mãe grega com quem eu conversei adverte: ai do filho que não deixar o celular ligado!

A escola é a maior referência para o caminhar da criança.

Pesquisas mostram que as crianças que vão a pé ou de bicicleta para a escola começam as aulas com maior atenção e capacidade de retenção. Faz sentido; elas tiveram que "ligar" o cérebro para escolher o caminho e "ligar" o corpo para caminhar.

Muitas pessoas com quem eu conversei relataram o trajeto que os filhos fazem até a escola. Quando a escola é perto, fica obviamente mais fácil, mas há lugares que não permitem um caminhar seguro, seja pelo medo da violência, seja pelo risco de acidentes causado pela ausência de calçadas, faixas de pedestre, sinais específicos e motoristas que não param para os pedestres. Os ônibus escolares não deixam de ser uma experiência de vivenciar a cidade. O menino ou a menina têm que estar a postos em algum lugar, mas não é a mesma coisa.

Em algumas cidades italianas, o próprio governo local regulamenta isso: nas escolas públicas, existe um requerimento de que os filhos sejam trazidos pelos pais até onze anos. A partir daí, cada um vai sozinho.

Hoje em dia há algumas experiências bem interessantes de pais e escolas testando o que eles chamam de "carona a pé" em São Paulo - um grupo de alunos guiado por algum adulto vai a pé para a escola. É um nome novo para um hábito que existia décadas atrás. Um ex-professor e amigo meu, que estudou em Pinheiros algumas décadas atrás, lembra com prazer de andar com outras crianças, num grupo que ia crescendo durante o trajeto até chegarem todos juntos à escola.

Nos EUA, há menos crianças andando para ir às aulas. Em 1969, quase metade das crianças ia a pé ou de bicicleta para a escola. Hoje em dia, esse número é de apenas 13%. Transporte escolar provavelmente ajuda a explicar essa queda, mas talvez ela seja consequência também do sprawl urbano, que criou bairros muito espalhados, com distâncias enormes mais adaptadas ao uso do carro.

As estratégias de segurança

Se por um lado, a experiência do espaço público as ajuda a desenvolverem sua identidade, por outro, é natural garantir que a saída à rua não se torne uma experiência traumática para a criança: há que se ter segurança de atravessar a rua e não ser assaltado.

As cidades mais seguras do mundo facilitam a vida das crianças. Em Oslo, um amigo norueguês conta que os filhos começaram a ir sozinhos para a escola bem cedo, antes dos oito anos. Ele se mudou para o Rio de Janeiro e ficou sem coragem de deixa-los andar pela nova cidade. Quando voltaram à Noruega, os meninos voltaram às ruas e hoje já estão explorando Oslo de bicicleta.

Singapura, talvez a cidade com menor índice de assaltos no mundo, também estimula que ascrianças novinhas andem pela cidade. Aos dez ou onze, estarão usando quase naturalmente o transporte público.

Mas, nas demais cidades, a vida não é tão fácil. Em São Paulo, um amigo contou que o filho foi assaltado quando era criança. O assalto ficou marcado na cabeça do menino e ele só foi ter coragem de sair sozinho regularmente ao ir para a faculdade.

Em regiões mais carentes, tudo muda de figura e eu posso apenas imaginar que pessoas que moram nas regiões mais violentas das grades cidades brasileiras terão percepções totalmente diferentes sobre a segurança de seus filhos num ambiente mais hostil.

A percepção de segurança depende muito do tamanho da cidade.

Talvez seja a comunidade, o fato de todos se conhecerem. Em cidades menores, as crianças se apropriam do espaço público com mais naturalidade.

Em Ilkley, uma cidadezinha no centro leste da Inglaterra, por exemplo, as crianças começam a passear sozinhas pelo centro a partir dos dez anos de idade. Para ir a Leeds, ali pertinho, porém, os pais só as deixam a partir dos treze anos, e mesmo assim, em grupo. Quando perguntei a razão a um casal de amigos ingleses, eles disseram que as filhas do casal se sentem muito à vontade entre estranhos, multidões e pessoas em situação de rua. No entanto, saem correndo quando vêem adultos bêbados ...

Meus amigos italianos contam que em Milão não é incomum ver mães de famílias ricas esperando seus filhos adolescentes saírem do balé, esportes, aula de música, dentro de seus carros. Já em Livorno, uma cidade muito menor, os meninos e meninas da mesma classe social vão sozinhos a essas aulas e ficam em grupos no centro da cidade.

Cada família tem um tempo certo.

As crianças são diferentes e os pais são diferentes. Há crianças que pedem para sair de casa e aquelas que choram para não sair, nem para uma voltinha com o cachorro. Há pais que estão confortáveis em deixar as crianças saírem de casa mais cedo. Outros relutam e vão se acostumando aos poucos à autonomia de seus filhos. Em alguma idade entre os dez e os quinze, ou até mais tarde, a maioria das crianças terá ganhado alguma autonomia para explorar pedaços da cidade. Sim, há os pais que querem os filhos ao seu lado a vida toda, mas é preciso crescer e a conquista da rua e da cidade é parte desse crescimento.

Meninas e meninos.

Aparentemente, pais e mães ainda sentem que meninas precisam de um tempo a mais para sair sozinhas. No Brasil como em vários outros países onde há tanta violência contra mulheres, isso parece explicável. Pessoas com quem eu conversei relatam casos em que as meninas adolescentes recebem assobios e sofrem vários tipos de assédio na rua. Infelizmente, isso aumenta a insegurança das meninas e retarda a autonomia.

Crianças com necessidades especiais também querem a rua

Um amigo tem uma filha com necessidades especiais, a Mariana, uma simpaticíssima menina de quase quinze anos. Ele se mudou do Morumbi para o Alto da Boa Vista, um lugar que tem calçadas, lojas, árvores, pessoas. E deu esse depoimento lindo sobre a primeira vez que saiu com a filha no novo bairro "Fim de semana passado vivenciamos algo inédito para minha filha e remoto para mim. Descemos a pé, com a cadeirinha de rodas dela, e passeamos pelo bairro, fomos até o Mercado municipal daqui, um privilégio. Não consigo precisar os sentimentos dela, era uma mistura de apreensão, surpresa e excitação, mas eu estava muito feliz. Morava muito bem no Morumbi, mas lá isso não era possível. As calçadas, quando existem, estão ocupadas pelas padarias, estacionamentos, mesas de bares, latões de lixo etc.... sem falar que é quase tudo muito íngreme, aí não há muito o que fazer. Acho que as pessoas subestimam a importância das calçadas na saúde da vida de uma cidade".

A experiência da rua pode ser difícil. Mas ela é essencial para o desenvolvimento da identidade dos futuros adultos. Cabe a nós fazer todo o possível para ofertarmos a nossas crianças uma experiência melhor, mais segura sob todos os pontos de vista e que as estimule a conhecer e explorar a cidade.

LEIA MAIS:

- A cidade andável

- O que aprendi com as minhas caminhadas urbanas de A a Z

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