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A esquerda não está sempre errada

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IMPEACHMENT
EVARISTO SA via Getty Images
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Sou um assumido liberal.

Acumulei argumentos suficientes para convencer a mim mesmo que o valor da liberdade vale mais, inclusive, do que o valor vida.

Mesmo assim, sou um centrista.

O estudo aprofundado da psicanálise me levou a apreender que todos os extremos se encontram no mesmo ponto de cegueira e, porquanto, devem ser encarados com repulsa.

Assim, afirmo que o problema com a esquerda no Brasil não é tanto a ideologia, mas sim, o desvio de finalidades engendrado pela institucionalização da corrupção.

Me posiciono pró-impeachment não pautado em conceitos jurídico-político abstratos, mas, porque sou um pragmático. Dependo do bom funcionamento da economia para receber o meu salário e para que este tenha algum poder de compra. Para que meu filho tenha pão e segurança. Porque encho o meu tanque de gasolina e não aguento pagar quatro reais o litro quando o preço do barril de petróleo internacional bateu baixas históricas, só para cobrir os custos da tergiversação perversa do dinheiro público.

Porque vejo as empresas fechando as portas e os sonhos das pessoas sendo prorrogados para a próxima década. Porque na década de 1990 e 2000, o Brasil era o país do futuro e hoje, retrocedemos barbaramente em razão das manobras fiscais utilizadas para fingir realizar uma Constituição que não cabe no PIB.

Ainda que o Senado venha a admitir o processo e a presidente seja afastada, o que mais realmente me preocupa é que venhamos a não ter a fortuna de nossos próximos líderes serem "Mandelas", no sentido de uma tão necessária integração e harmonização entre as oposições.

Os governantes espelham a maioria dos governados e a nós mesmos falta empatia.

Nesse sentido, como prevenir um enforcamento do canal de diálogo argumentativo para que não nos encontremos em meio a uma sociedade de divisão e ódio?

A sociedade brasileira contemporânea não está mais debatendo ideias. As pessoas passaram ao campo da adjetivação pura e simples (petralhas versus golpistas/pobres versus ricos/ esquerda versus direita), aglomerando-se em blocos e com isso se aproximam da separação e da violência.

A história já demonstrou que esta fórmula é um perigoso pré-palco para guerra civil. Com sorte, como o Brasil não tem essa tradição e há instituições democráticas sólidas suficientes, poderemos preveni-la.

Nesse contexto contemporâneo onde as paixões falam mais alto (e quase ninguém escuta senão as suas próprias razões), é que, à lá Nelson Mandela, o primeiro olhar em perspectiva que trago à reflexão, inclusive dos liberais como eu, é de que nem sempre a esquerda está errada.

Não custa lembrar que o ex-presidente Fernando Collor (último a sofrer processo de impedimento) foi, essencialmente, quem derrubou as barreiras de importação sobre tecnologias internacionais, abrindo a porta para uma alavancagem das indústrias e empresas nacionais.

Da mesma maneira, foi na gestão da esquerda que foi sancionada a lei 12.850/2013, que versa sobre organizações criminosas e o instituto da colaboração premiada, utilizado em peso pela operação lava-jato.

Pela ótica da implementação das garantias fundamentais - individuais -, ocorreu em 2011 o julgamento da ADPF 132, por uma Suprema Corte essencialmente nomeada pelo PT, permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo; assim como o é o julgamento ainda em andamento quanto à descriminalização do uso de drogas ilícitas (Recurso Extraordinário nº 635.659).

E ainda, recentemente, há o exemplo tímido mas no caminho certo de aumentar para 20 dias a licença paternidade, por meio da lei 13.257/2016. Tímido porque o prazo é infinitamente mais curto do que o internacionalmente reputado como salutar para a criação de um núcleo familiar sólido - segundo quadro estatístico e comparativo levantado pela revista The Economist (mínimo 06 meses, compartilhável entre pai e mãe).

Narro isso para lembrar aos cidadãos de plantão que não dá para partir para a adjetivação cega. Há, além das falhas, propósitos e realizações boas em qualquer corrente ideológica, esquerda, direita, liberal, conservadora etc. A questão maior é reencontrarmos a calma, a cabeça fria e a ética para mantermos a base sólida de um diálogo responsável, separando o joio do trigo e, trilhando sem solução de continuidade o caminho democrático.

Os comunistas adoram cuspir jargões como "o materialismo imperialista" (não tem o gosto pelo esforço), ao passo que conservadores de direita reagem com conclamações à tortura (cegos aos direitos humanos).

A solução, perdoem-me ambos, está em algum lugar intermediário da escala, em um espaço reservado para o pragmatismo suprapartidário comprometido apenas com o melhor resultado para a maioria.

Sim, as correntes da fidelidade partidária terão de ceder para a análise científica, mas esse é o custo da tração necessária para sair de uma vez por todas da lama.

O maior inimigo a qualquer estado de direito é a corrupção (ética, monetária, do comodismo, etc). Este é um vício que opera sobre a ética.

Os "governantes", por sua vez, não chegaram a suas posições sozinhos. São movidos pela atuação populacional, em redes sociais, em mídias e fóruns - não é à toa que o deputado federal mais bem votado do estado do Rio de Janeiro prestou reverência ao coronel Ustra ao votar favoravelmente ao pedido de impeachment na votação da câmara.

Então, a causa essencial do problema não está neles, mas em cada um de nós. Olhemos no espelho: somos heróis ou covardes? Estamos de algum modo contribuindo materialmente para o nosso entorno ou somente refletindo responsabilidades? Estamos nos preparando para um próximo governo de harmonização e pacificação nacional ou um tão separatista quanto o anterior, porém, mais uma vez invertendo os papéis da iniquidade?

Ao fecharmos os olhos para uma visão holística e encerrarmos nossa disposição para um canal de diálogo quando apenas adjetivamos, sem uma cabeça fria e uma visão em perspectiva, incrementamos o risco de sermos traídos pelas nossas próprias paixões ingênuas.

A favor ou contra, não devemos gritar "fora Dilma" ou "tchau querida", sem estarmos certos e seguros dos próximos passos que queiramos que sejam tomados.

Isso, para não cair naquela velha frase de Nelson, a qual parafraseio: "Não sendo mais sacaneados pelos canalhas da véspera, nos sujeitamos a sermos pelos canalhas do dia seguinte."

LEIA MAIS:

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