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Tenho 30 anos, sou solteira e feliz. E, para falar a verdade, isso me assusta.

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SOLTEIRA
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É domingo pela manhã e estou numa padaria da cidade ouvindo Piano Ballads no Spotify. O lugar está tranquilo, algo incomum, contrastando com o típico horário do rush do brunch em Manhattan.

Três mulheres usando trajes de ioga dividem um bolinho de confeiteiro no canto, enquanto em outro canto um freelancer se proteger por trás de seu Macbook e está escrevendo torpedos há nove minutos. Me pergunto se ele conhece o iMessage em seu computador.

Por muito tempo eu tive medo de encarar as manhãs de domingo como solteira. Eu acordava, dolorosamente consciente de estar sozinha. Ansiava por um parceiro para servir de bálsamo para minhas feridas induzidas pela repulsa que eu sentia por mim mesma.

Eu ansiava por dividir "domingos de ócio" com um companheiro. Fantasiava sobre sexo matinal sonolento, seguido por aconchego, café ou brunch - ou então café seguido por brunch --, uma caminhada de mãos dadas, ou, ainda, ressacas mitigadas pela paixão mútua.

Mas hoje eu me deleito nas manhãs de domingo que passo comigo mesma. Depois de muitos anos passados fugindo de meus pensamentos e sentimentos, aprendi a curtir profundamente minha própria companhia.

Não que eu ainda não me sinta triste, solitária ou ansiosa de vez em quando: nos bolsões de tempo entre a criatividade, a conexão com outros e a ioga vêm à tona sentimentos que me lembram de minha dívida, minha mortalidade ou uma rejeição recente. Mas essas experiências são menos angustiantes do que eram no passado. Hoje é mais fácil passar por elas e superá-las, e eu não tenho tanto medo delas nem as julgo tanto - reações que durante anos me levaram a buscar relacionamentos apenas para suavizar a inflamação causada por minha voz crítica interna.

Na maior parte do tempo essa equanimidade é uma força e uma dádiva. É uma habilidade que ensino a meus clientes na terapia, um santuário que cada ser humano merece cultivar nesta vida. Na realidade, porém, há momentos em que eu questiono a paz que selei com minhas emoções, pois ela dissolveu uma área de carência que me impele a procurar um relacionamento romântico.

Fiquei tão à vontade com minha solteirice e com estar comigo mesma que perdi a motivação para encarar os riscos, os sacrifícios e a responsabilidade do compromisso exigido por um relacionamento (algo que, nos meus tempos de autorejeição, eu priorizava).

Não estou de maneira alguma sugerindo que todas as mulheres devem procurar um parceiro para fugir de sua voz crítica interna ou validar seu valor próprio. Não esqueçamos a influência da narrativa social tradicional! No verão deste ano, eu e minhas amigas do colégio fomos a Vegas para festejar nossos aniversários de 30 anos (que "básico", eu sei).

Eu estava batendo papo com um sujeito em um grupo ao lado da piscina, quando ele me perguntou a razão de nossa viagem. Quando lhe contei, seu rosto adquiriu uma expressão de nojo e ele disse que jamais teria começado a conversar comigo se soubesse que eu tinha 30 anos. Falou que mulheres de 30 anos são velhas demais e muito desesperadas - que seu "relógio de bebê" está marcando o passar do tempo sem dó e elas querem mais é "agarrar qualquer homem".

Ele me disse ainda que, já que eu não tinha cara de 30 anos e que já tínhamos começado a nos entender, ele ainda estava interessado em mim. Ufa! Que alívio saber que eu ainda tinha uma chance com aquele homem, um partidão!

Quando eu tinha 24 anos, escrevi minha tese de mestrado sobre a experiência de gênero das mulheres ao saírem de um relacionamento romântico (inspirado, como não surpreende, pelas repercussões negativas de eu ter terminado com meu segundo amor).

Excluí intencionalmente de meu estudo participantes que tivessem sofrido infidelidade ou maus-tratos, que são "desculpas" socialmente aceitáveis para explicar por que uma mulher pode optar por ficar solteira. Entre outras coisas, procurei expor a pressão inegável imposta às mulheres para terem relacionamentos -a ideia de que escolher ser solteira em vez de ficar com "um cara tão bacana" deve significar que temos falhas profundas.

Minha pesquisa exigiu entrevistas qualitativas profundas com mulheres, em que elas falavam da experiência de terem optado "de modo egoísta" por alimentar seu relacionamento com elas mesmas, em vez de com um parceiro leal - e provou que mesmo as mulheres que não se sentem impelidas a usar um relacionamento romântico para calar sua voz crítica interna ainda são sujeitas à "pressão para encontrar um parceiro".

O documento de 141 páginas resultou em orientações a ser seguidas no atendimento psicológico a essas mulheres cheias de ansiedade e sentimento de culpa. E os anos de imersão na teoria narrativa feminista me libertaram de boa parte das pressões internalizadas sentidas pelas mulheres para estarem em um relacionamento.

Mas há um grande porém: eu quero um relacionamento, e há momentos em que eu bem que gostaria de não ter toda essa consciência crítica das normas sociais. Há momentos em que sinto "a pressão": por exemplo, a resistência que senti quando fiz 30 anos; a ansiedade evocada por meu perfil no Bumble quando ele deixou de dizer "29 anos"; a tristeza quando penso que minha mãe, na minha idade, já tinha dois filhos.

Quando sinto essa pressão, há uma parte de mim que bem que gostaria que eu começasse uma relação duradoura com alguém até "X" data.

Talvez isso fosse mais produtivo do que "tomar consciência de minha ansiedade e meu sentimento de culpa, tomar consciência de sua origem como construtor social e deixar isso passar por mim e ir embora" - que é o que costumo fazer para lidar com sentimentos difíceis.

Mas não posso deixar de saber aquilo que sei. Meu desejo de estar em um relacionamento não é mais motivado por uma "carência", e, para uma mulher de 30 anos, cheia de amor, que cognitiva e emocionalmente deseja estar em um relacionamento, isso é profundamente frustrante.

Sou procrastinadora clássica e altamente funcionante, que depende da "carência" ou "necessidade" para entrar em ação. Sem isso, meu medo é que eu fique aguardando um unicórnio para me encontrar no altar. Essa versão extrema de "nunca entrar num relacionamento duradouro" é exacerbada por minha ambivalência em relação a ter filhos.

Liberta da maioria das pressões sociais e da autorejeição, eu poderia ainda assim depender de meu "relógio de bebê" para me pressionar a dar prioridade à busca do "pai de meus filhos". Mas parece que meu "relógio" está quebrado.

Estou frustrada porque eu quero ter vontade de ter dois filhos e uma casa de 220 metros quadrados. Quero ter vontade de me casar. Acho que se eu me importasse com essas coisas, isso geraria o senso de urgência que me faz falta.

E eu quero, sim, uma pessoa com quem passar domingos de ócio. Quero ter alguém que eu possa levar comigo de volta à Colúmbia Britânica nas férias e com quem possa ficar deitada no cais durante chuvas de meteoros, tentando entender o infinito. Tenho vontade de estar apaixonada de novo, de ter aquele sentimento ímpar e mágico do qual me recordo dos 20 e poucos anos.

E talvez, se eu valorizasse uma vida tradicional, eu me engajasse com alguma coisa.
Ironicamente, boa parte do tempo bacana que passo comigo mesma é gasto em um esforço para conceitualizar o dilema em que me vejo.

Como psicoterapeuta, sou suscetível à versão psicológica da "síndrome do estudante de medicina", colando rótulos diagnósticos à minha independência, na esperança de, com isso, poder redigir um "plano de tratamento".

Alguns dos rótulos são mais patologizadores que outros: transtorno de personalidade esquiva. Falta de disponibilidade emocional. Transtorno de personalidade narcisista. Egoísmo. Medo de compromisso. Medo da vulnerabilidade que eu tão frequentemente recomendo. Baixa autoestima. Autoestima inflada. Perfeccionismo.

Estilo de apego desapegado-evitativo, decorrente de apoio emocional inconsistente em minha infância. Problemas de abandono. Problemas com o pai. Problemas de autoestima. Ou talvez eu tenha lido materiais budistas em excesso e interprete a ideia do "desapego" literalmente demais. Ou talvez eu seja seletiva demais. Só isso.

Repasso na cabeça minhas separações de 2011 e 2012, achando que talvez tenham me ferido de modo irreparável.

O homem que amei de modo tão insensato e que me abandonou quando eu estava no meio de uma depressão; o homem por quem me apaixonei 18 meses mais tarde e que me ajudou a curar totalmente a mágoa que restara em meu coração - e que acabou revelando que tinha tido uma namorada à distância durante todo o tempo que namoramos.

Me pergunto se essas traições terão me deixado "desgastada" - termo que hesito em empregar porque é usado para descrever tantas mulheres solteiras trintonas. Me pergunto se os vários divórcios de meus pais me impediram de acreditar no amor verdadeiro e prolongado, ou se o comportamento relacional ao qual assisti prejudicou minha atração por parceiros emocionalmente sintonizados comigo.

Questiono se minha afinidade por atletas destituídos de empatia é protetora, se é evitativa ou se é um esforço vão de buscar a aprovação paterna que senti nunca ter tido na infância. Passa pela minha cabeça a ideia de que, se eu tivesse crescido jantando à mesa com minha família todos os dias, eu talvez estivesse querendo reproduzir a mesma coisa.

No meu íntimo, sei que não tenho nenhuma das patologias com as quais me rotulo de brincadeira. Me sinto tranquilizada pela consciência de que anseio pelo amor romântico, como qualquer outro ser humano anseia, e reconheço que meus supostos diagnósticos são reflexos da aversão que a sociedade tem pela mulher solteira, vista como "coitada, desesperada, ferida".

Mas questiono a funcionalidade relacional de minha percepção "liberadora". E há momentos em que eu, a embaixadora da autocompaixão, rejeito minha autoaceitação. Se eu fosse mais autocrítica, talvez tivesse meu confidente para as manhãs de domingo.

Ou imagino como minha vida teria sido diferente se eu não tivesse lido An Invitation to Social Construction. Se eu não defendesse o questionamento das normas sociais, talvez respondesse de fato a mensagens no Tinder, em vez de apenas entrar no aplicativo por solidão momentânea, tédio ou medo de "ficar para trás", para então, quando meu sentimento de ser inteira volta à tona, não ter motivação para responder.

Ou, quem sabe, se meu trabalho e minhas amizades não me dessem o sentimento de ter um propósito na vida, eu procuraria sentido em títulos como "senhora" e "Mamãe". Mas esse não é o caso hoje, e isso ao mesmo tempo me empodera e me assusta.

Porque tenho vontade de estar em um relacionamento.

Só não sei se ter vontade é o bastante.

Megan Bruneau, M.A. RCC é terapeuta de saúde mental, coach de wellness, escritora e apresentadora do podcast The Failure Facture, da Forbes. Siga-a no Facebook,Twitter, Instagram e YouTube.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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