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Os Panama Papers dão mais provas de que o livre comércio não é realmente livre

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PANAMA PAPERS
Sean Gallup via Getty Images
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Por mais que Clinton e Obama gostem de falar em "livre comércio", a verdade é que a classe trabalhadora é que tem de arcar com os custos.

Você pode ser perguntar qual é a ligação entre um jogo de golfe amigável no verão passado, em Martha's Vineyard, e os Panama Papers. Continue lendo.

Como sabe qualquer pessoa que não estava escondida numa caverna - ou então sem acesso à internet --, o jornal alemão Süddeutsche Zeitung e o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, trabalhando com mais de uma centena de publicações do mundo todo, noticiaram o maior vazamento de dados da história: uma fonte anônima teve acesso aos arquivos do escritório de advocacia panamenho Mossack Fonseca.

Com base nos 11,5 milhões de documentos que lhes foram enviados criptografados, os jornalistas estão revelando os segredos sombrios dos paraísos fiscais offshore e das empresas de fachada usadas pelos mega-ricos e poderosos - de plutocratas e políticos a estrelas do cinema e dos esportes - para guardar e esconder suas fortunas, enquanto bilhões vivem e morrem na pobreza.

Mas e os Estados Unidos? Por que nossos suspeitos de sempre não apareceram nos dados vazados? Vamos voltar àquele jogo de golfe em Martha's Vineyard.

Era uma tarde ensolarada de agosto no clube de golfe Farm Neck, descrito pela revista Golf Digest como "uma joia de Martha's Vineyard": jogar uma partida no alto verão naquele campo custa 170 dólares por cabeça. Os jogadores: o presidente Obama, o ex-presidente Bill Clinton, seu amigo mútuo Vernon Jordan e o ex-secretário do Comércio Ron Kirk.

Comecemos por Clinton. Assim que chegou à Casa Branca, ele conseguiu a aprovação do NAFTA, o acordo de livre comércio da América do Norte que mandou inúmeras indústrias para fora dos Estados Unidos e centenas de milhares de empregos para o México, segundo o Economic Policy Institute.

E Vernon Jordan? Esse ex-líder do movimento pelos direitos civis e ex-defensor dos pobres hoje é um dos lobistas corporativos mais ricos de Washington. Como escrevemos alguns anos atrás, "Jordan é advogado sênior do poderoso escritório de advocacia Akin Gump Strauss Hauer & Feld, que recentemente se tornou a operação de lobby mais lucrativa dos Estados Unidos, faturando 8,6 milhões de dólares no segundo trimestre de 2014".

Se você conhecesse sua posição em relação ao "livre comércio", volte a outubro de 2005, num discurso do então presidente, George W. Bush, no Economic Club of Washington (Jordan era o presidente do clube). "É importante que as pessoas de Washington não usem o comércio como questão política", disse Bush. "O objetivo é ter forte apoio dos republicanos, dos independentes e dos democratas perspicazes, como Vernon Jordan."

Os presidentes Obama e Clinton estavam no campo de golfe para celebrar os 80 anos de Jordan. Mas eles também poderiam estar comemorando as maneiras pelas quais os três - e Bush - ajudaram a criar uma política de livre comércio que devastou a classe trabalhadora americana mas deixou os ricos muito mais ricos.

Quando os Panama Papers foram divulgados, o presidente Obama disse: "Não há dúvidas de que o problema global de evasão fiscal é enorme... Há gente aqui nos Estados Unidos que estão tirando vantagem do mesmo esquema. Muito é legal, mas esse é exatamente o problema. Eles não estão violando as leis. As leis é que são tão mal pensadas, que permitem que certas pessoas, se tiverem advogados e contadores suficientes, consigam escapar das obrigações que os cidadãos comuns têm de cumprir".

E quem é responsável por isso? Talvez os Panama Papers não revelem muitas trapaças por parte de empresas americanas. Mas o fato é que estamos metidos nelas até o pescoço. Considere nosso longo histórico com o Panamá, que se separou da Colômbia para que o canal pudesse ser construído - interesse direto das empresas americanas.

Avance para 2011. George W. Bush e Dick Cheney pressionaram, e o presidente Obama e a secretária de Estado Hillary Clinton consumaram - como uma de suas maiores prioridades ao assumir o poder - o acordo de livre comércio com o Panamá. Foi um investimento para garantir apoio corporativo no futuro e mais uma prova de que os dois partidos agem em conjunto em nome dos interesses das corporações.

E adivinhe quem era peça chave nesse esquema? O outro participante daquele jogo de golfe, Ron Kirk. Como secretário do Comércio, ele foi fundamental nas negociações quando Obama se tornou presidente.

Barack Obama insiste que a Casa Branca fez a coisa certa ao pressionar pelo acordo e segue afirmando que o acerto trouxe mais transparência para as transações financeiras do Panamá, já que existe um acordo paralelo de compartilhamento de informações fiscais.

Mas, como escreveu David Nakamura no The Washington Post, "defensores dos direitos dos consumidores que se opuseram às políticas comerciais dos Estados Unidos afirmaram que o governo americano e seus aliados estão tentando reivindicar crédito pelas reformas no Panamá sem aceitar responsabilidade pelas revelações de ampla evasão fiscal contidas nos Panama Papers".

Nakamura citou Lori Wallach, diretora do Public Citizen's Global Trade Watch: "Os Panama Papers mostram mais uma vez como são inteiramente cínicas e sem sentido as promessas feitas pelos presidentes americanos e pelos defensores das corporações sobre benefícios econômicos e reformas políticas advindas dos acordos comerciais... Proteções aos investidores e o carimbo de aprovação dos Estados Unidos tornaram mais seguro o envio de dinheiro sujo ao Panamá".

Em 2011, Hillary Clinton elogiou o acordo de livre comércio do Panamá e acordos similares com a Colômbia e a Coreia do Sul, dizendo que eles "facilitariam a venda de produtos americanos... O governo Obama está trabalhando constantemente para aprofundar nosso envolvimento econômico no mundo inteiro, e esses acordos são exemplo desse compromisso".

Mas enquanto ela, Obama e Ron Kirk pressionavam pela aprovação do acordo, Bernie Sanders fez um discurso vigoroso no Senado contra o pacto, dizendo que ele "transformaria uma situação ruim em algo muito pior e impediria os Estados Unidos de reprimir os paraísos fiscais ilegais e abusivos". O discurso viralizou na internet porque mostra como Sanders estava certo havia muito tempo a respeito dessa questão.

Se Sanders não estivesse em destaque hoje, Hillary Clinton ainda estaria apoiando a Parceria Trans-Pacífica. É um acordo do Panamá anabolizado. Até agora, o Partido Democrata tem sido tão responsável quando o Republicano no que diz respeito a falar de "livre comércio" -- mas ao mesmo usar esses pactos para favorecer os grandes conglomerados empresariais. A principal razão pela qual os Panama Papers provavelmente não revelaram muito sobre as corporações americanas é que tecnicalidades do acordo efetivamente mascaram e "legalizam" os benefícios para as grandes empresas.

Esses acordos comerciais escondem muita coisa, e nossas autoridades, especialmente os democratas, não deveriam simplesmente aceitá-los cegamente. Se Hillary Clinton se pergunta por que tantos trabalhadores estão apoiando Bernie Sanders - e até mesmo Donald Trump --, ela não precisa ir muito longe: basta olhar o armário onde seu marido guarda seus tacos de golfe. Afinal de contas, é um jogo de gente rica.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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