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Playgrounds são assunto sério

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PLAYGROUNDS
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Espaços públicos que promovem a socialização o desenvolvimento de habilidades motoras e cognitivas das crianças merecem mais atenção e mais investimentos.

Diante das opções tentadoras de diversão eletrônica, as crianças estão reduzindo drasticamente o tempo dedicado às aventuras nos espaços externos. Muitos pais parecem se preocupar com a participação excessiva dos eletrônicos no dia a dia filho, mas são raros os que conseguem encaixar na rotina momentos de atividades livres em locais estimulantes. A dificuldade em administrar o tempo e, principalmente, a preocupação crescente com a segurança das crianças pode tornar conveniente esse interesse quase obsessivo delas pelas telas e botões.

Uma pesquisa recente com duas mil famílias inglesas constatou que três em cada quatro crianças passam menos de uma hora diária brincando em ambiente externo - um tempo menor de contato com luz solar que o garantido a detentos das prisões daquele país. A realidade das nossas crianças que vivem nas cidades grandes não deve ser diferente. E aqui há um agravante: temos menos alternativas interessantes de ambientes destinados a brincadeiras ao livre. A maioria dos nossos playgrounds públicos têm duas ou três atrações, não raramente mal conservadas. A arquitetura nos surpreende com tantas soluções belas e funcionais, mas até agora pouco trouxe para concorrer com os inevitáveis escorregadores e balanços das praças brasileiras. Sem questionar a diversão que podem propiciar, sozinhos eles não representam um grande motivador para tirar pais e filhos de casa.

A necessidade de oferecer ambientes atraentes e repletos de estímulos em espaços públicos é evidente em vários locais do mundo. Em muitos outros países, a comunidade têm à disposição parquinhos desenvolvidos por arquitetos especializados nesse setor. Alguns são tão criativos e irresistíveis que dá vontade de voltar a ser criança para aproveitar a estrutura.

Esses locais, quando bem arquitetados, não apenas servem de incentivo a passeios em família e menos horas de sofá: são projetados a partir da consciência da importância do ambiente no desenvolvimento de funções psicomotoras, sensoriais e sociais. Trazem às crianças a oportunidade de praticarem o equilíbrio, a força, a atenção às diversas texturas, a lateralidade, a coordenação motora, a propriocepção (noção da localização espacial do próprio corpo) e as habilidades criativas e sociais.

Para comprovar que a arquitetura do espaço faz toda a diferença na brincadeira, os pesquisadores Anthony Susa e James Benedict realizaram um estudo, na década de 90, relacionando brincadeiras de faz de conta, criatividade e o design do playground. Para isso, testaram o "pensamento divergente" de 80 crianças enquanto brincavam em diferentes espaços. A conclusão foi de que os parquinhos contemporâneos são mais eficientes no estímulo à criatividade que os tradicionais. O estudo serviu de base para muitos projetos de arquitetura voltados a esse público e outras pesquisas apontando a necessidade de um olhar mais profissional sobre as áreas construídas para estimular brincadeiras.

Enquanto seguimos conformados com nossos velhos e abandonados escorregadores de praça, em países em que ambientes de lazer são levados a sério e considerados parte fundamental do desenvolvimento infantil, a discussão (que nem chegou no Brasil) está tão avançada que estão revendo alguns de seus projetos mais modernos. O motivo: excesso de segurança.

Além de serem impedidas de brincar livremente, como resultado de vários tipos de medo que as cidades grandes nos impõem, as crianças perderam a confiança de seus pais, que em algum momento da história recente colocaram uma lente de aumento nas pequenas ameaças do dia a dia e resolveram que elas são totalmente irresponsáveis e desprovidas de noção de perigo.

Um dos fatores que mais pesa no estilo de vida das crianças modernas - seja na Inglaterra ou aqui -, a necessidade de segurança acabou influenciando a forma como são planejados os espaços contemporâneos de brincadeira. Afinal, a sociedade, especialmente a americana, vive sob ameaça constante de processos e qualquer atividade que envolva o público infantil corre sério risco de gerar insatisfações com consequências legais.

Os medos e ansiedades dos adultos, desproporcionais aos verdadeiros riscos que a realidade traz, desconsideram a natureza da criança e mais prejudicam que protegem. O perigo, em pequenas doses diárias, é parte fundamental das brincadeiras. Filhotes de espécies mais evoluídas se divertem correndo riscos, testando seu próprio comportamento diante de situações perigosas simuladas nas pequenas lutas e aventuras de sua curta infância. E isso não ocorre por acaso, nem representa irresponsabilidade ou falta de noção, como muitos pais de filhotes humanos acreditam. É parte do crescimento, do autoconhecimento e do conhecimento dos limites do corpo e das necessidades do outro. A vida é cheia de riscos e a infância é a fase de treinamento para reais dilemas que requerem autoconfiança na hora de agir. Crianças privadas do contato com o perigo crescem sem coragem, dependentes, com altos níveis de ansiedade e sem noção de como lidar com situações sociais simples que não poderão ser evitadas pelos pais mais tarde.

Portanto, além de modernos, criativos e cheios de estímulos, muitos playgrounds contemporâneos de países desenvolvidos estão sendo repensados para trazer um certo risco. Ou seja: voltam a ter cantos, pontas, superfícies duras, altura e mais probabilidade de gerarem batidas, quedas e machucados. Os pais excessivamente protetores terão que rever seus conceitos e entender porquê as ataduras do Menino Maluquinho foram essenciais para a formação de um jovem feliz e bem resolvido, conforme Ziraldo concluiu a história.

Na década de 40, muito antes de termos comprovações científicas da importância dos riscos que a brincadeira livre traz, o arquiteto dinamarquês Carl Sørensen criou um conceito de playground que foi espalhado por toda a Europa. Sua ideia era dar às crianças da cidade as mesmas chances de viver aventuras que eram privilégio das que cresciam no interior. O Adventure Playground atualmente conta com cerca de mil espaços em diversos países, inclusive Estados Unidos e Japão. Equipados com muitos pedaços madeira e ferramentas de verdade, os parques permitem que os pequenos aventureiros construam seus próprios brinquedos, escalem cordas, subam em árvores e se sujem bastante.

No Japão, a preocupação em expor crianças pequenas ao risco foi um dos principais fundamentos do projeto da escola projetada por um dos arquitetos mais conceituados daquele país na atualidade. Takaharu Tezuka projetou a Fuji Kindergarten, em Tóquio, levando em consideração as necessidades naturais das crianças - inclusive de se aventurar. Na escola, em formato oval e sem a tradicional separação física das salas de aula, elas têm total liberdade de explorar o ambiente e passam a maior parte do tempo gastando energia nas áreas externas. Lá elas correm, em média, quatro quilômetros por dia e ganham naturalmente as habilidades psicomotoras que garantem seu desenvolvimento social e cognitivo. Nenhuma criança é considerada problemática por não conseguir ficar sentada dentro de uma sala. O arquiteto Takaharu Tezuca, em sua palestra do TED, destaca: "Crianças precisam de pequenas doses de perigo. Nessas ocasiões elas aprendem a se ajudar. Isso é viver em sociedade. É o que estamos perdendo nos dias atuais".

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