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Sobre o feed perfeito do Instagram e a geração que se cobra demais

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Esses dias a Carol Rocha postou no Twitter dela, com uma hashtag engraçadinha que tinha como intuito compartilhar situações vergonhosas e reais, que uma dessas suas cenas era quando estava passando a compra no caixa e, conforme o valor ia aparecendo na telinha, ia analisando quais itens ficariam no supermercado.

Dei risada, achei engraçado e me senti, por poucos segundos, um pouco mais leve. Ler que alguém "famoso" na internet também passava por esse tipo de "pequenos perrengues cotidianos" me deixou um pouco mais confortável. Mais que isso, me tirou um pouquinho dessa cobrança eterna em que vivemos: a de ser perfeito.

Eu vou me usar como centro neste texto, mas tenho quase certeza que você vai se identificar, porque todo mundo com quem eu converso sobre esse assunto me diz "nossa, eu também" no final do meu devaneio, então lá vai: eu vivo 100% do tempo pressionada por mim mesma. Ninguém está vendo, mas eu preciso fazer o arroz perfeito, afinal, já tenho 24 anos e moro sozinha há 8 meses. Eu preciso ter o quarto perfeito. Eu preciso fazer o trabalho perfeito. Preciso ter o cabelo, a roupa, a maquiagem perfeita. Eu preciso ter o feed do Instagram perfeito - e o que antes era uma coleção de momentos felizes, virou mais uma vitrine que me cobra, o tempo todo, para ser perfeita. O meu aplicativo favorito virou mais uma ferramenta de pressão, afinal, eu preciso ter coisas bonitas para serem fotografas e manter toda uma linha editorial. Que matinho do condomínio, o quê! Eu preciso é montar uma decoração escandinava para fortalecer o conceito minimalista das minhas fotografias, senão, não presta.

Deu pra entender o drama?

Com toda essa cobrança, vem uma frustração que não acaba nunca porque nada, nada das coisas citadas anteriormente, são ou ficam perfeitas. Meus textos não são perfeitos, minhas fotos poderiam ser melhores, meu quarto só tem uma cama e eu preferi ir mais vezes à Araçatuba a decorá-lo. Minhas roupas são de fast fashion e a colega da balada tá sempre melhor vestida, mesmo. Para mim, tudo o que eu faço é "ok" e nada é realmente bom. Quando recebo elogios, não sei não responder com um "Ah, é okayzão, né?" ou apontar um defeito que faça com que eu desmereça aquelas palavras legais.

A cobrança é tanta e tão intensa que a gente não se sente merecedora de nenhum reconhecimento.

Esses dias, uma fotógrafa que eu adoro o trabalho e que eu acho incrível - de verdade -, postou no Facebook essa mesma coisa: o fato de não considerar o seu próprio trabalho, digno de tantos elogios. Ela contou no post que a cada comentário legal, mais ela enxerga defeitos ou coisas que poderiam ser melhoradas em suas fotografias e ensaios. Quando li aquilo, tive duas ações: a de dizer que ela estava louca, porque seu trabalho era impecável, e a de dizer que a entendia.

Com aquele post, me fiz algumas perguntas que estão me atormentando desde então. Por que não conseguimos apreciar o que fazemos? Por que toda essa compulsão pela perfeição? E, principalmente:

Quando é que vamos aceitar que podemos - e vamos! - fracassar algumas vezes?

A nossa geração - lá vem o conceito horrível de gerações, que eu odeio, mas vivo usando - é a geração da ansiedade, dos problemas psicológicos, da popularização do ansiolítico e da fobia social. Não é nenhum pouco normal todos os seus amigos concordarem que estão sofrendo com transtornos de ansiedade e não é preciso um diploma em psicologia para entender porque isso tá rolando. Nós vivemos sob pressão o tempo inteiro - e ela não vem da família ou do mercado, não. A pressão que mais dói é a que vem de nós mesmos. Falta o ar, falta calma, falta sobriedade mas, mais que qualquer outra coisa, falta humanidade de nós para conosco.

Somos tão compassivos com situações que não precisam, mas quando falamos de nós mesmos, somos irredutíveis. Se um amigo nos diz que "Dormiu demais no sábado e não conseguiu produzir nada para aquele freela criativo", somos os primeiros a dizer que "Ei, está tudo bem, você estava mesmo precisando". Quando é com a gente, o pensamento mais tranquilo é que "Você é uma irresponsável inútil". Percebem a diferença?

Às vezes tenho a sensação de viver num estresse tão grande que desaprendi a respirar. Quando paro para inspirar e expirar devagarinho eu sempre me pergunto "como é que eu estava vivendo esse tempo todo?". Sabe a sensação de estar nadando nadando nadando e finalmente colocar a cabeça para fora d'água e dar aquela respirada funda? É assim que me sinto quando paro tudo para ouvir uma música calma e focar na minha respiração. Ou quando vejo que alguém também está passando pelas mesmas coisas e perrengues que eu.

Hoje em dia nós dedicamos tanto tempo para construir vidas perfeitas na internet e para superar nossas próprias expectativas e cobranças que ver alguém "grande" assumindo que tem os mesmos problemas, medos e dias ruins, é mais do que empático ou reconfortante.

É como um respiro.

*Postado originalmente no blog My Other Bag Is Chanel

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