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'Monstro Rosa' e 'Pássaro Amarelo' querem ensinar o que é diversidade às crianças

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Um pássaro amarelo, que nasceu com as asas curtas, não pode voar e se entristece ao receber postais que seus amigos mandam de viagens pelo mundo. Um monstro rosa, grande, felpudo e desengonçado, nasceu em um lugar onde tudo é preto e branco. Estranhos em diferentes ninhos, as duas historietas, contadas e ilustradas pela espanhola Olga de Dios, falam de algo em comum: diversidade e a superação de deficiências.

Com os Jogos Paraolímpicos 2016 no Rio de Janeiro, esta semana o debate sobre respeito e, sobretudo, representatividade floresceu nas redes sociais com uma polêmica campanha chamada #SomosTodosParalímpicos. Se ainda não somos sensíveis no trato dessas questões, nós, adultos e, no caso, profissionais de comunicação, como conversar com crianças sobre temas como diversidade e preconceito?

Pássaro Amarelo e Monstro Rosa são dois novos livros lançados pela Boitatá, selo infantil da editora Boitempo, que tem se dedicado a promover o aprendizado e o questionamento crítico através da leitura. Escritos pela ilustradora Olga, as publicações também tratam de gordofobia e do livro compartilhamento de saberes.

Embora as narrativas lembrem outros tantos contos similares, como o clássico do Patinho Feio, tanto Monstro Rosa quanto Pássaro Amarelo parecem traçar caminhos opostos. Enquanto o pato torna-se cisne para ser feliz, por exemplo, o monstro colorido e o pássaro das asas curtas aprendem a se aceitar como são.

"Meu livro 'Monstro Rosa' é autobiográfico. Eu o fiz da minha perspectiva de mulher e lésbica em nossa sociedade patriarcal e heteronormativa. Tentei refletir os sentimentos que me acompanharam ao longo da minha vida sempre com uma visão otimista e transmitir os benefícios da construção de uma sociedade diversificada", disse Olga de Dios, em entrevista ao HuffPost Brasil.

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Olga, "Monstro Rosa" e "Pássaro Amarelo" são histórias que falam de diversidade para crianças. Você, em algum momento, já se sentiu um "monstro rosa"?

Sim, muitas vezes. Meu livro Monstro Rosa é autobiográfico. Eu o fiz da minha perspectiva de mulher e lésbica em nossa sociedade patriarcal e heteronormativa. Tentei refletir os sentimentos que me acompanharam ao longo da minha vida sempre com uma visão otimista e transmitir os benefícios da construção de uma sociedade diversificada, na qual todos e todas sejamos diferentes sem que isso tenha consequências negativas, mas, pelo contrário, que seja algo com valor positivo real.

Eu o concebi como forma de trabalhar a diversidade afetiva e sexual, mas muitas pessoas têm encontrado no livro uma boa ferramenta para trabalhar a questão da diversidade em outras realidades. Quando pessoas com vidas muito diferentes me dizem que se sentiram identificadas e representadas no "Monstro Rosa", fico realmente feliz.

Como surgiu a ideia dos dois livros? Eles se assemelham à história do "patinho feio". No entanto, enquanto o patinho se converte em outro, o monstro e o pássaro seguem sendo eles mesmos. Em que medida os dois livros se inspiram ou tecem uma crítica ao conto clássico?

As histórias clássicas até hoje seguem muito presentes em nosso imaginário, embora para mim seja uma referência distante. Grande parte da narrativa infantil tradicional encontra-se repleta de machismos e sexismos que perpetuam valores de desigualdade em relação às mulheres ou às pessoas que, por alguma razão, são rotuladas como "diferente". Meu trabalho é uma tentativa de quebrar os estereótipos tradicionais de gênero e criar histórias que promovam a liberdade, a igualdade e a diversidade valor. Usar a cor rosa para representar o personagem principal não é acidental, mas um ato destinado a dar a essa cor outros significados além daqueles associados a personagens tradicionais de princesas, muitas vezes ligadas a noções como ingenuidade, passividade e doçura. Queria que o rosa assumisse outro significado nessa história.

3. Como é o processo de criação de suas histórias? Primeiro surge a narrativa e depois a ilustração? Ou ambas manifestações aparecem em sintonia?

Crio meus livros como obras em conjunto e sinto a liberdade de modificar ambas as partes em qualquer momento do processo de criação. Primeiro eu narro minhas histórias visualmente e logo desenvolvo a parte escrita. Ilustração e texto se coordenam através das ideias que quero transmitir, mas sinto que sempre há um peso a mais na narrativa visual. Meus livros são destinados em sua maioria a pessoas que ainda não leem. A ilustração é muito importante para o meu público.

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O racismo no Brasil é mascarado. Sob a ideia de sermos um povo miscigenado e pacífico, muitas vezes não reconhecemos práticas racistas que não só estão do nosso lado, mas em nós mesmos.

"Monstro Rosa" é uma história que trata do valor das diferenças de uma maneira aberta e otimista. Aqui, na Espanha, o racismo, a homofobia, o machismo e outras discriminações também se tornam invisíveis e, em muitas ocasiões, são considerados assuntos sem importância.

Entendo que o Brasil por sua riqueza multicultural é uma amostra dessa diversidade que represento em meus livros. Acredito que o otimismo e a ternura do personagem podem trazer reflexões a qualquer pessoa e produzir esses questionamentos nas crianças, sobre como é positivo viver em espaços que valorizam a diversidade.

As duas histórias falam da busca pelo nosso lugar no mundo. Indo além, mostram as experiências que são vivenciadas quando nos locomovemos, saímos de nosso universo particular, e travamos novos contatos. E é muitas vezes no contato com o outro que percebemos nossas singularidades. Você vê na viagem, no deslocar-se, não só uma forma de nos conhecermos, mas de nos aceitarmos?

Sem dúvida a viagem tem um papel muito importante nos dois contos. Por um lado, a viagem traz conhecimento de lugares e contextos culturais diferentes, que nos enriquecem e nos dotam de ferramentas para analisar a nossa própria realidade. A viagem no conto do monstro rosa pretende motivar o interesse por novas realidades, mas é importante deixar claro que o personagem não nega seu passado e não tem rancor por ter se sentido diferente.

No caso do pássaro amarelo, a viagem tem um papel principal porque pretende explicar como o livre intercâmbio de informação e de conhecimento pode ser uma ferramenta de transformação social. Nesse conto, defendo a ideia de que as pessoas devem ter o direito de viajar e migrar livremente.

Olga, como você avalia o mercado infanto-juvenil atual? Os índices de leitura no Brasil caminham vagarosamente. Como despertar o interesse pelos livros ainda na infância?

O estímulo à leitura na infância é extremamente importante. Deve ser um compromisso de toda a sociedade. Devemos aproximar a leitura das crianças, mostrando que se trata de uma atividade divertida, com a qual é possível viajar para realidades diferentes. É importante, sobretudo, respeitar suas escolhas e critérios. Por exemplo, quando eu era pequena, adorava ler comics e ficção científica, mas no colégio me obrigavam a ler livros que não me interessavam. Meus professores acreditavam que eu não leia, quando, na realidade, eu era uma leitora com outros interesses.

O mercado de livros infantojuvenis é muito amplo e existem muitos produtos para o consumo das crianças. Dentro dessa profusão de opções, acho importante ser crítica com conteúdo e qualidade de material. Acredito que devemos ver a literatura infantil com respeito, mas buscando romper as lógicas de proteção excessiva ou censura de conteúdo, trabalhando no amadurecimento criativo das propostas.

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