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Exposição: Os muitos 33 anos do fotojornalista brasileiro Luciano Carneiro

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Retrato de Luciano Carneiro (Divulgação)

Em 1960, o fotógrafo José Medeiros escreveu sobre o colega Luciano Carneiro: "[ele] deixou um trabalho tão grande e um nome que não pode ser esquecido quando se escreve a história do moderno jornalismo brasileiro". Esta declaração é parte de um texto publicado na revista O Cruzeiro sobre a exposição póstuma em homenagem a Carneiro. Um dos jornalistas mais atuantes de seu tempo (fotografava e escrevia suas reportagens), Luciano teve sua vida interrompida aos 33 anos em um acidente aéreo.

A história do fotógrafo Luciano Carneiro pode ser contada através de seu olhar. No Instituto Moreira Salles, em São Paulo, a exposição Do arquivo de um correspondente estrangeiro - Fotografias de Luciano Carneiro reúne 150 imagens do final da década de 1940 e da década de 1950, período em que o fotojornalista cearense atuou na revista O Cruzeiro.

A mostra, em cartaz até 19 de junho (depois segue para o Rio de Janeiro), tem como objetivo difundir a visão de um talento ainda pouco conhecido na história da fotografia brasileira, lembrando da fala de Medeiros. Além disso, permite um denso recorte do início do moderno fotojornalismo no país.

Luciano viveu intensamente. Nascido em Fortaleza, em 1926, iniciou sua carreira como jornalista nos jornais Correio do Ceará e O Unitário, periódicos integrantes dos Diários Associados. Foi nesse mesmo período que começou a usar a câmera fotográfica. Em 1948, rumou para o Rio de Janeiro e passou a integrar a equipe da revista O Cruzeiro como repórter. Suas fotos passariam a ilustrar as reportagens um ano depois.

O olhar de Luciano Carneiro era humanista e engajado. Viajando exageradamente, o fotojornalista registrou personalidades como Salvador Dalí e sua esposa Gala Éluard. Entretanto, salta os olhos a grande cobertura da Guerra da Coreia, em 1951, não apenas pelo tato e talento de quem segura a câmera: Carneiro foi um dos únicos repórteres sul-americanos a cobrir o conflito. Dotado de um espírito aventureiro, essencial a bons fotojornalistas, e com um brevê de paraquedista que possuía, Carneiro saltou aos 25 anos ao lado do exército norte-americano em ação durante a operação Tomahawk, 1951.

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Paraquedistas norte-americanos em ação durante a operação Tomahawk, 1951 - Munsan, Coreia do Sul (Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

Consciente da brevidade da vida? Como que antevendo secretamente o prematuro desaparecimento, Luciano Carneiro havia dito a José Medeiros que não passaria dos 40 anos. Achava a velhice tediosa. Irrequieto, fez reportagens em quatro continentes: documentou, em 1955, o trabalho humanista do dr. Albert Schweitzer na África - premiado três anos antes com o Nobel da Paz; acompanhou a entrada de Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos em Havana, em janeiro de 1959; e realizou reportagens no Japão, na Rússia e no Egito do presidente Gamal Abdel Nasser.

No Brasil

Em terras brasileiras, realizou matérias sobre jangadeiros, posseiros, a seca no Nordeste, a herança do cangaço, as lutas estudantis e ainda diversas reportagens reunidas na seção "Do arquivo de um correspondente estrangeiro", da qual era titular e onde expressava livremente suas opiniões. Ali, revelava influências da fotografia humanista do pós-guerra praticada por fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, Robert Doisneau e W. Eugene Smith.

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Nordeste, década de 1950 - Brasil (Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

A história de Luciano Carneiro pode esconder algo de enigmático. Depois de tantas coberturas notáveis, o fotógrafo morreu tragicamente quando estava para cumprir mais uma missão: iria fotografar o primeiro baile de debutantes da nova capital, o Rio de Janeiro. Dos destroços do avião, foram resgatadas suas máquinas fotográficas e os filmes com as fotos.

O olhar e a palavra trabalhavam em cumplicidade a fim de explicar o modo como o fotojornalista via o mundo. Visto como herói depois da Coreia, Luciano escreveu para O Cruzeiro: "o jornalismo moderno não pode viver apenas dos comunicados oficiais. Na cobertura de uma guerra o segredo de sua eficácia é ter sempre debaixo do fogo um elemento de olhos bem abertos ou câmera bem ativa". Por outro lado, em texto sobre um singelo casamento em Paris, afirma: "a vida é tão rica de sugestões, há tanta poesia perdia até mesmo no meio da rua, que basta a gente manter os olhos abertos, e a máquina pronta, para selecionar as imagens que tenham significação, e assim interpretar a vida".

Carneiro ousou extrapolar seus 33 anos - da mesma forma como as pessoas retratadas em suas imagens excedem os limites da fotografia e aparecem em continuidade em outros quadros, revelando um tanto mais do que via Luciano. A parte da vida que cabe na fotografia.

Além das fotografias originais, a mostra traz materiais de época, como revistas e recortes de matérias, e um vídeo com entrevistas de Luiz Carlos Barreto, Walter Firmo, Evandro Teixeira, Flávio Damm, Ziraldo e Luciano Carneiro Filho. As 150 fotografias figuram na coleção de originais cedida ao IMS pela família do fotógrafo.

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Civis sul-coreanos retornam à cidade devastada, 1951 - Seul, Coreia do Sul (Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

Serviço:
Do arquivo de um correspondente estrangeiro - Fotografias de Luciano Carneiro
Até 19 de junho de 2016
De terça a sexta, das 13h às 19h
Sábados, domingos e feriados, das 13h às 18h
Local: rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis - São Paulo
Entrada franca

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