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'Quem matou Eloá?': Um documentário para pensar o feminicídio e espetacularização

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QUEM MATOU ELO
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Acredito que muitos acompanharam pela mídia televisiva o caso da Eloá em 2009. O ex-namorado Lindemberg Alves invadiu o apartamento de Eloá Pimentel, de 15 anos na época, e a manteve refém por cinco dias.

Lembro muito dessa história porque ficava em casa no período da tarde, depois de voltar do colégio, e porque por uma semana quase todos os canais abertos "cobriram" o fato ininterruptamente.

Lindemberg matou a ex-namorada com um tiro na cabeça e outro na virilha. Mas será que foi apenas Lindemberg quem matou Eloá? A polícia durante os cinco dias conversou com o rapaz e estabeleceu com ele uma relação de confiança (afinal, tratava-se de um moço "sem antecedentes criminais e trabalhador"). No entanto, antes de mais nada, e acima de tudo, qual foi o papel da mídia na morte da menina? Sempre que tento recordar algum caso de interferência absurda da imprensa em uma pretensa cobertura o caso de Eloá me vem à mente.

O documentário "Quem matou Eloá?", de Lívia Perez, traz muitas das cenas de horror daqueles dias. Jornalistas atravessaram as negociações, conversaram com o sequestrador, fizeram pedidos e insuflaram toda a situação (Lindemberg orgulhava-se da atenção que recebia). Sob o manto da ética e da imparcialidade, emissoras miraram na audiência e erraram de forma cabal. (O jornalista Britto Jr., por exemplo, respondendo sobre o papel da mídia no desfecho, disse que a TV Record só quis ouvir os 'dois lados', sem sensacionalismo). A vida de Eloá era o que menos parecia importar.

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Imagem do documentário 'Quem matou Eloá?', de Lívia Perez

"Quem matou Eloá?" fala essencialmente da mídia na cobertura de casos de feminicídio. Hoje, apesar de termos iniciativas importantíssimas como o Minimanual do Jornalismo Humanizado feito pela ONG Think Olga, ainda, deliberadamente e sem reflexão, falamos de crimes praticados por ciúmes e por amor em excesso. Matar por amar demais?

Romantizamos e nos posicionamos todas as vezes em que preferimos não usar a palavra "estupro" para o que deveria ser chamado de estupro. No caso de Eloá, um comentarista do programa de Sônia Abrão (RedeTV!) "analisa" a situação e diz acreditar que tudo acabará em pizza (é isso mesmo que ele fala). Afirma ainda que aquela crise (o sequestro?) iria passar, que ela o perdoaria (!) e que eles ficariam juntos (!!).

Eloá não queria mais um relacionamento e foi morta por isso. A mídia relevou a figura de um homem apaixonado e desesperado e santificou a menina-morta. Escondendo-se com a máscara do leitor (quem?) que quer ser informado - "saber mais detalhes" -, a mídia moraliza a história e vê na tragédia o lembrete para a não repetição.

Só precisa avisar que mulheres continuam morrendo diariamente nas mãos de homens. E que a mídia continua a tingir esses homens e esses casos com as cores do amor. Mas é sangue mesmo.

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