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Vamos abolir o 'morrer de frio'?

Publicado: Atualizado:
FRIO EM SO PAULO
Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas
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O problema começa na região chamada hipotálamo, dentro do cérebro da pessoa. Essa é a área que, entre outras funções, regula a temperatura do organismo.

Quando o frio é intenso, o hipotálamo perde a capacidade de controlar a temperatura do corpo. E ela cai. O calor é necessário para que todas as células vivas do organismo funcionem por meio de reações químicas. Se a temperatura do corpo estiver muito baixa, essas reações simplesmente não acontecem.

Os movimentos dos músculos diminuem. Depois, a capacidade de respirar cai e a circulação de sangue fica mais lenta. Se o frio continua, essas funções do organismo param. A pessoa morre. Simplificando, e biologicamente falando, é assim que se morre de frio.

As manchetes são sintéticas (em todos os sentidos): na madrugada mais fria do ano, morador de rua morre de frio. Na última sexta-feira (10), um homem de 55 anos foi achado morto na rampa de acesso do metrô Belém, zona leste de São Paulo. Era a madrugada mais fria do ano.

Aí está nossa acalentadora justificativa. É assim que se noticia. A Prefeitura é procurada e diz que a abordagem para abrigos é feita diariamente. Segundo a Prefeitura, ela chega. É aqui, nesta esquina, que o Estado pode ou não estar. O noticiário segue.

Eu soube pela página do padre Júlio Lancellotti que foi encontrado mais um "irmão de rua morto pelo frio hoje em São Paulo".

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(Foto: Eduardo Xavier)

Seria então a esquina das avenidas Paulista e Brigadeiro Luís Antônio outro ponto inacessível? Como lembra Lancelloti, ali não há abrigos de emergência.

Em 2016, pessoas morrem de frio na cidade mais rica do Brasil, na 17ª cidade com mais bilionários no mundo, na 6ª maior do mundo em população.

No horizonte? Em 2025, São Paulo talvez esteja no top 5 das mais patacudas (def: endinheirada - e não reduto de patos) do planeta. Será que até lá pessoas deixarão de morrer de frio?

No sábado (11) à noite fez 6 graus. Eu estava caminhando por esse centro financeiro-coração pulsante que é a Avenida Paulista. Por um erro de cálculo, estava com menos casacos do que gostaria.

Repeti uma centena de vezes, levianamente, que iria morrer de frio. Afinal, a expressão, que é usada para enfatizar algo, caia bem naquele momento. Meus dentes batiam freneticamente, meu corpo tremia e meus joelhos tilintavam. Eu estava morrendo de frio.

Então, como tendemos a naturalizar o sofrimento, e enquanto não somos capazes de evitar que pessoas morram de frio, que ao menos risquemos de nosso vocabulário tão odiosa expressão que não tem razão de ser. Lembrando: apenas enquanto não formos capazes de evitar que pessoas morram de frio. Medida inócua apropriada para tempos frustrados.

Não consigo ver nada mais urgente que pessoas morrendo pela queda de temperatura. Afinal, o que pode esta cidade - e o que pode os que nela vivem e a administram?

ATUALIZAÇÃO:

Na madrugada do domingo (12), mais um morador de rua morreu, desta vez na calçada da Avenida Paulista, na região central de São Paulo. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP), o corpo de Adilson Roberto Justino foi achado na Avenida Paulista por volta das 4 horas da manhã do domingo sem sinais de violência física. Leia mais

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