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Eu culpo o ódio

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A carnificina homofóbica e transfóbica em Orlando foi um "desastre aéreo", com sangue e corpos de pessoas LGBT espalhados pelas manchetes. Mas pessoas LGBT morrem diariamente de ódio, isolamento, exclusão e violência em "desastres de automóvel" que não chegam a chamar a atenção pública. Adolescentes gays são vítimas de bullying nas nossas escolas, atormentados até a morte; mulheres transexuais são espancadas até a morte em nossas ruas, e o público não se abala nem um pouco.

Depois da chacina na boate Pulse, haverá as vigílias, os discursos e as passeatas de praxe, os juramentos de solidariedade, e depois disso o previsível retorno ao "business as usual". Meu coração está explodindo de amor e tristeza pelos que morreram e estão morrendo e está queimando de revolta diante daqueles que cometem, incentivam e possibilitam essas atrocidades. Em meio a todas as orações e o luto, eu me pergunto a quem cabe a responsabilidade? De quem é a culpa?

Eu atribuo a culpa a Ted Cruz, Pat McCrory e cada político na América e no mundo que promove o medo e ódio à comunidade LGBT, num esforço para angariar mais votos.

Atribuo a culpa aos legisladores que dedicam tempo e recursos incontáveis à redação de leis homofóbicas e transfóbicas, ao mesmo tempo em que frustram iniciativas legislativas que visam proteger a comunidade LGBT.

Atribuo a culpa a todos os líderes religiosos que incentivam seus fiéis a serem intolerantes com pessoas LGBT e a combater nossos direitos e dignidades básicas como seres humanos.
Atribuo a culpa a todas as pessoas que acham que sua religião lhes dá o direito de terem preconceito contra pessoas LGBT e a nos excluir.

Para mim, a culpa é de cada pai e cada mãe que vitimou e atormentou crianças transgênero em escolas, ao tentar negar aos alunos transgênero o direito de usarem banheiros e vestiários que correspondem à sua identidade autêntica de gênero.

A culpa é de cada pessoa que já ameaçou transgêneros de morte ou violência, simplesmente por usarmos banheiros que correspondem à nossa identidade autêntica de gênero.

Atribuo a culpa a todos os pais que ensinaram seus filhos a serem intolerantes e a repudiarem pessoas LGBT e a todos os pais que rejeitaram e maltrataram seus próprios filhos LGBT. Atribuo a culpa a todos que procuram apagar as pessoas LGBT, porque nossa existência os incomoda.

Atribuo a culpa a todos os que atormentam, intimidam ou assediam pessoas LGBT e aos adultos que desviam o olhar quando adolescentes LGBT são maltratados.

Para mim, são culpados todos os que pensam que é aceitável ridicularizar pessoas LGBT e os que tacham de "correção política" os esforços para pôr fim a essa perseguição.

São culpadas as polícias na América e no mundo que ignoram as pessoas LGBT e não nos protegem - que, na realidade, muitas vezes são as piores responsáveis por abusos e violência cometidos contra nós.

Considerado culpados todo tribunal, juiz e jurado que já absolveu ou impôs uma sentença apenas simbólica aos responsáveis por crimes de ódio contra nós, ou devido ao argumento de defesa do "pânico gay" ou simplesmente porque, a seu ver, nossa existência é digna de violência.

A culpa é de grupos de ódio e grupos de terror como a Associação da Família Americana, o Ku Klux Klan e o Estado Islâmico.

Considero culpados todos os que mantêm relações cordiais com regimes políticos sob os quais ser LGBT é considerado um delito que pode ser punido com a morte.

Para mim, são culpados todos os que mantêm silêncio enquanto pessoas LGBT são atacadas, agredidas, assassinadas e têm seus direitos humanos negados, ou porque acham que isso não é problema deles ou porque têm vergonha de erguer a voz em nossa defesa.

Todos eles estão com as mãos sujas de sangue, não apenas em Orlando, hoje, mas em todo lugar, todos os dias. Dezenas dos nossos foram assassinados a sangue frio na pior chacina de um atirador na história de nosso país, mas isso é apenas a ponta do iceberg. Somos agredidos, estuprados e assassinados com impunidade em todo o mundo.

Filhos LGBT são expulsos de casa e deserdados por seus pais, simplesmente por serem o que são. Com certeza nossas vidas valem o suficiente para que aqueles que nos estão destruindo devam ser identificados e responsabilizados. Poupem-nos seus discursos, suas velas e suas orações e deem-nos nosso direito de respirar. E, por favor, não afoguem com o ódio nosso direito de amar e viver autenticamente.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- O massacre em Orlando, o estupro no Rio e a individualização da violência

- O verdadeiro terrorista que mata LGBTs continua vivo e imbatível

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