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O quebra-cabeça que se instaurou na Turquia

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A Turquia passou por horas eletrizantes na noite de sexta para sábado. Houve uma tentativa de golpe militar que acabou com a prisão de mais de 3000 pessoas, entre elas militares de alta patente, e a morte de mais de 260.

Ainda abundam especulações por todos os lados, e três são as que se destacam: 1) tratou-se de um golpe militar "tradicional" kemalista; 2) foi um golpe de facção militar de alguma forma ligada ao Hizmet, o grupo liderado pelo clérigo residente nos Estados Unidos, Fetullah Gülen; 3) foi um caso de "false flag".

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Em relação à primeira narrativa, ela entra para a conta de quase que uma tradição turca de golpes militares. Eles aconteceram no país em 1960, 1971, 1980 e houve uma séria ameaça em 1997, que é comum de chamar-se de golpe pós-moderno. Um dos papeis das Forças Armadas seria o de ser guardiãs do secularismo e estas entenderiam que o governo estava colocando em risco as tradições seculares do país e questionando sua lida com a ameaça terrorista.

Já para a segunda, que vem sendo em grande medida defendida pelo próprio Erdoğan, militares ligados ao movimento Gülen teriam mantido como reféns autoridades militares ao tentar tomar o poder. Apesar da veemente negação do grupo, Erdoğan e membros de seu governo seguem falando em "limpar membros do governo paralelo do Exército", e também pode ser uma oportunidade política para dar um golpe fatal para esse grupo. Erdoğan não é o seu único inimigo, mas também setores tradicionais das forças armadas que apoiaram o regime democrático. Todos eles querem a extradição de Fetullah Gülen dos EUA para a Turquia.

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Por fim, seguindo uma certa tradição de teorias da conspiração na Turquia, há quem ressalte algumas características atípicas de golpes - como a falta de controle da mídia e de organizações governamentais ou prisão de políticos - e ressalte que o acontecido seria benéfico ao atual presidente. Uma ação como esta poderia lhe dar respaldo para sua demanda de mais poderes para seu cargo através de reforma constitucional, além de lhe dar razões para expurgar opositores.

Dois caminhos se descortinam agora. O primeiro seria o do governo justamente reconhecer a importância da democracia - com o povo na rua defendendo sua legitimidade, mesmo seus opositores declarados, e se recusando a apoiar o golpe - e da imprensa e redes sociais, e de fato se esforçar por um governo mais plural e inclusivo.

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O segundo, que infelizmente parece ser o mais provável, é a transformação do sistema político num presidencialismo abrindo o caminho para uma hegemonia definitiva. O recrudescimento de uma centralização quase "sultânica" e a implementação cada vez mais próxima de um estado militarizado.

LEIA MAIS:

- Lições sangrentas: Um ano de terrorismo na Turquia

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