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Rodrigo Maia e a ignorância sobre o Azerbaijão

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RODRIGO MAIA
Adriano Machado / Reuters
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O presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia e uma pequena comitiva estão em viagem internacional, que inclui uma visita ao Azerbaijão. Pelo que entendi, trata-se de sua primeira viagem internacional no cargo e a mídia brasileira está em polvorosa, intrigada com a escolha do destino. Alguns veículos o classificaram como "exótico país asiático" e o outros sites tinham inicialmente o localizado na Ásia Central.

Na realidade, não domino os pormenores por trás da escolha do deputado carioca pelo destino. Imagino que tenha a ver com alguma participação um pouco atrasada nas comemorações do 25º aniversário de independência do país da União Soviética (que eles lá chamam de restauração, porque na realidade tiveram alguns meses de independência em 1918), originalmente celebrada em 18 de outubro. A imprensa relata que ele possui agenda com autoridades ligadas à indústria de petróleo e gás, que é a principal do país, e de fato não só relevante internacionalmente, como das mais antigas do mundo.

Meu intuito aqui, não é tentar entender as razões pelas quais o deputado escolheu o roteiro, mas gostaria de aproveitar o interesse despertado pelo país do Cáucaso do Sul e ressaltar algumas questões que são certas que o deputado e acompanhantes se deparem por lá.

Uma primeira impressão que a comitiva brasileira deve ter do Azerbaijão, e que é bastante ressaltada por todos lá, e o caráter multicultural do país, sendo uma verdadeira encruzilhada de povos e religiões. Na realidade, trata-se de um país fascinante nesse sentido, pois a quase totalidade dele é composta de turcos étnicos, mas, diferentemente da Turquia que é em grande maioria sunita, são muçulmanos xiitas (como os vizinhos iranianos), e, apesar de independentes desde 1991, os dois séculos de domínio russo (seja pelo Império Russo ou pela URSS) deixaram marcas profundas e a língua russa é a ainda a língua da cultura e largamente usada no país. Pois então: são turcos, mas xiitas e russófonos.

Há ainda presença de ortodoxos russos, católicos, muçulmanos sunitas e remanescentes do passado zoroastrista. E ressaltaria ainda que contam com importante e longeva presença judaica, dividida em três grupos: os judeus da montanha, os georgianos e os ashkenazim. Isso mesmo: um país muçulmano xiita com histórica comunidade judaica que vive com tranquilidade no país. Sempre bom se inteirar dessa realidade e colocar em perspectiva nosso multiculturalismo e repensar, por exemplo, clichês muito usados no Brasil de ser o país de relações harmoniosas entre árabes e judeus, já que aqui a quase totalidade dos árabes são cristãos. Já no Azerbaijão, judeus e muçulmanos de fato convivem bem.

Uma segunda questão que certamente saltará aos olhos de Rodrigo Maia e companhia é o peso do conflito de Nagorno-Karabakh. Justamente no contexto do desmonte da União Soviética, houve uma guerra entre 1992 e 1994, entre o Azerbaijão e a vizinha Armênia, que deixou por volta de 20 mil mortos, um milhão de deslocados e refugiados, acusações mútuas de massacres - os azeris falam mesmo em genocídio - e a ocupação da Armênia não só de Karabakh como de mais sete distritos azerbaijaneses. Desde o fim da guerra, portanto, cerca de 20% do território azeri se mantém na prática ocupado, e um cessar-fogo vinha se mantendo "congelado" sem muita atenção da comunidade internacional, com alguns "degelos" em tempos recentes.

Qualquer conversa mesmo que rápida com um azerbaijanês, a região é sempre trazida à tona. Elogie o mugham, a música nacional, e a resposta imediata é: "linda, não é? É originária do Karabakh, ocupado pela Armênia". O mesmo acaba acontecendo para comida, tapetes e artes em geral. O tema vem à tona o tempo todo e realmente se percebe que não é somente o objetivo principal da diplomacia do país, como se trata de uma questão importante para a população como um todo. Acredito que a comitiva brasileira acabe se perguntando por que se sabe tão pouco sobre esse conflito no Brasil, que conta com diáspora armênia expressiva. E como um país com um terço da população do vizinho, sem saída para o mar, dificuldades financeiras, consegue bancar essa ocupação por tanto tempo? Questões válidas, certamente, quando se leva em conta o papel de certas potências revisionistas no cenário internacional.

Enfim, reforço desconhecer os reais motivos e interesses por trás da viagem de Rodrigo Maia a Baku. De antemão, porém, agradeço ao deputado pelo interesse que acaba de despertar em um país que conta embaixada no Brasil desde 2012, bastante atuante por sinal, bem como papel importante na Eurásia e na indústria do petróleo como um todo. Mais do que um "exótico país asiático", trata-se na realidade de um país com uma auto-imagem em grande parte europeia também, a ponto de sediar no passado recente o festival de música Eurovision e os Jogos Olímpicos Europeus.

O Azerbaijão conta ainda com longevo interesse internacional - tendo abrigado ramos das famílias Nobel e Rothschild na virada do XIX para o XX - reconhecida expertise na área de óleo e gás (não é raro esbarrar com alunos da Ivy League em cursos de verão oferecidos por lá), e com papel muito importante no Cáucaso do Sul, que é de fato onde se encontra.

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