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A ressaca, as eleições e a resiliência do Rio

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MARCELO CRIVELLA
YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
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Eu sonhava em pegar sol e jogar um vôlei no posto 12 da praia do Leblon. Recém-chegada de uma semana de trabalho na Londres cinzenta, eu não sabia o que havia acontecido no Rio nos últimos dias. Recebi em áudio um recado do meu treinador avisando que a maré estava contra os meus planos.

"A ressaca subiu e acabou com a praia do Leblon inteira. Acabou com a areia, com todas as estacas. Os treinos estão suspensos até segunda ordem. Vamos ficar uns 10 dias sem campo. O alerta da Marinha é que a ressaca vai continuar até amanhã. Vamos aguardar o mar recuar", comentou Rafael, o treinador da minha rede.

Precisei checar com os meus próprios olhos.

Andei até a praia. Vi ondas grandes. Vi pouca faixa de areia. Vi quiosques cercados por faixas da Defesa Civil e até o novíssimo quiosque do bar do Riba detonado. Vi as estacas da nossa rede de vôlei transformadas em tocos de uns 20 centímetros. Vi montes de mais de 2 metros de areia colocados no que antes eram calçadas e funcionários limpando as ruas para a passagem dos carros.

Sem drama. É pura realidade. É a total impossibilidade de usufruir da cidade.

Essa ressaca -- que foi sentida não só no Rio de Janeiro mas também em vários outros pontos do litoral brasileiro -- é uma demonstração do que se pode esperar em tempos de degelo das calotas polares e aumento da temperatura dos oceanos. Em função das emissões de gases de efeito estufa, esses fenômenos têm se acelerado e a força dos mares cresce com eles. Em todos os cantos do planeta, ainda que de maneira desigual.

Tem quem pense que é papo furado esse negócio do mar crescer tanto assim. Afinal, ressaca a gente sempre viu ou ouviu falar.

A diferença agora é que, a cada milímetro de mar elevado em função do aquecimento global e de outros fatores, as ressacas ganham mais potência.

Um estudo encomendado pela Presidência da República em 2013, parte do programa Brasil 2040 e realizado pelo Instituto Tecnológico da Aeronática (ITA), mapeou as zonas em risco alto de ressaca, inundação e deslizamento. Apenas no Rio, o patrimônio imobiliário sob alto risco foi estimado em R$ 124 bilhões. E além de 1500 metros de possível avanço do mar na linha da praia da Zona Sul, também a Linha Vermelha, ainda que longe da orla, poderia alagar com frequência maior devido ao efeito de "barragem" que o mar mais alto exerce sobre os canais que a rodovia cruza.

Não se trata de ficção científica nem de alarmismo inconsequente. Essas projeções alertam para a necessidade de uma visão de longo prazo que considere os impactos da mudança do clima sobre a cidade, sobre seus cartões postais e sobre a nossa vida cotidiana nela.

Em tempos de novo prefeito eleito no Rio de Janeiro, espero que, no mínimo, o novo gestor municipal tome conhecimento desses estudos e os utilize em abordagens de planejamento de curto, médio e longo prazos. Mas mais do que pensar, terá de investir e responder de modo visível e coletivo aos novos riscos impostos à cidade. Ou corremos o risco de não ter mais praia no Leblon e nem em Copacabana. E tampouco transitar nas vias existentes na cidade.

Portanto, caro sr. prefeito Marcelo Crivella, resiliência tem de entrar nas suas ações e investimentos. Hoje. Amanhã. E também depois.

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