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O que se aprende sem alegria (ou sem sentido) não serve para nada

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SCHOOL FINLAND
Miia Saastamoinen via Getty Images
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Quando acontecem coisas como a Finlândia anunciar com carisma que o que se aprende com alegria se esquece menos, contorço-me em minha própria incomodidade e volto a perguntar como é possível.

Não posso evitar.

A Finlândia é um desses modelos educativos mais eficientes do planeta, senão o mais; e quando chega a hora de revelar seus segredos, relembra-nos de máximas dessa índole: o que se aprende com alegria se lembra melhor. E eu me contorço, provavelmente como muitos outros.

Não me contorço porque não tenham razão, porque creio que têm. Poderia - e parece-me necessário - matizar e aprofundar a linha, propondo substituir essa alegria de que falam por uma noção mais profunda e que a abarca, que é o sentido. Que o que faz sentido, quando é aprendido, se esquece menos. Mas são matizes, no final das contas. Não gosto muito da alegria, porque soa a hedonismo ou a leveza, enquanto que sentido soa a profundidade e remete a causas e valores. Mas são matizes. Os finlandeses têm razão, o que se aprende sem alegria - ou sem sentido - não serve para nada e se solta da memória ao primeiro sopro de ar. É o que acontece com nossos alunos.

O que me contorce é que não tenhamos sido capazes de assimilar ainda (não da Finlândia, senão de nossa própria inteligência do fazer pedagógico) uma obviedade significativa de tal tamanho. Como - me pergunto - podemos estar tão idiotizados a ponto de não ver que o que se aprende com alegria se lembra mais e melhor? Como podemos ser tão imbecis? Não creio que o sejamos porque não compreendemos: creio que o somos porque, ainda que possamos compreender, não o fazemos. É a idiotia própria do impotente. Estamos inibidos.

Os sistemas educativos latinoamericanos (que contrastam em tamanha escala com os resultados da Finlândia e que nos fazem idolatrar aquele recôndito e diminuto país até pouco tempo só conhecido pela Nokia) têm a inteligência atrofiada pelo alicate fatal que nossa tradição mantém aplicado em nós. E não podemos sair e sofremos diariamente, mas não nos rendemos, que é o que deveríamos fazer, para poder começar de novo; ficamos na submissão. Atrofia-nos nosso tonto amor próprio, que não nos deixa admitir que perdemos.

Se a distância que nos separa da Finlândia passa por assumir esse tipo de máximas, então estamos piores do que pensamos. Digo isso porque costumamos pensar que os finlandeses estão onde estão porque desenvolveram metodologias extremamente complexas, associadas a tecnologias que somente são possíveis no primeiro mundo, tudo isso, produto de dezenas de anos de trabalho sistemático, investimentos por aluno de que carecemos e uma genialidade quase genética com que não podemos competir.

Mas, não. Não é isso; isso é apenas o que nós cremos, mas quando perguntamos a eles, dizem coisas mais elementares, mais ligadas às crenças do que às ciências; mais produto da reflexão essencial do que do devir histórico ou dos recursos excepcionais. E é então quando sinto que pensamos o que pensamos porque só assim conseguimos fugir da evidência de nossa própria impotência. Agigantamos o que não temos para não ter que assumir a evidência da nossa própria idiotia.

É por isso que me contorço. Como não vamos nos dar conta de que o que as escolas deveriam desenvolver nos alunos não se consegue fazendo o que fazemos todos os dias com esses alunos? Claro que nos damos conta disso. Mas não fazemos nada. Aplaudimos o que acontece nos congressos; laceramo-nos diante dos ataques sensatos da imprensa; reconhecemos quando nos comparam e - mais uma vez - vêm os mesmos resultados insultantes.

Claro que sabemos que a escola que temos mata a criatividade e, por isso, vemos e revemos milhares de vezes aquela célebre TED de Ken Robinson. Sabemos, mas não fazemos. E isso, a meu ver, contorce-me. É tudo tão óbvio que, se seguirmos jogando o que não sabemos, faremos o papel de ridículo a cada dia de uma maneira mais patética. Fazemos todo o possível como que para que nos diagnostiquem com QI de baixo nível. Mas não é verdade; não é isso, insisto.

É atrofia neurótica, não falta de inteligência. É cristalização política e corporativismo enfermiço. Não é falta de vontade, tampouco. É falta de ar e ausência total de generosidade social. Estamos hipotecados em milhares de misérias individuais. Estão falhando em nós os sinais vitais mais essenciais. Eu sei que há conceitos bem complexos em educação e sei também que valem a pena as discussões de alto nível.

Mas não é aí aonde não chegamos. É muitíssimo mais abaixo que nos mantivemos parados. Não nos sentamos nem à mesa da discussão legítima sobre a educação profunda. Faltam-nos questões básicas como velocidade, sentido, tonificação, força vital, projeto, fome, visão, convicção, audácia, tolerância, colaboração, inovação e demais fatores elementares. Somos um sistema completamente fora de forma; não é que perdemos na competência, é que não estamos nem na competição.

Por isso me contorço. Preciso antecipar-me às previsíveis próximas provocações contra nossa dignidade intelectual. Quero reagir. Quero sentir-me parte de um coletivo que assuma que tocou o limite e que deve sair com humildade e grandeza ao mesmo tempo. Senão, creio que o ácido tóxico que estamos segregando em cada nova contorção sofredora vai acabar nos retirando até a vontade de sofrer. A Finlândia não fica tão longe, se formos capazes de redefinir o conceito de distância.

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