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As marcas da educação

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EDUCATION MARK
Mark Segal via Getty Images
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Não me refiro a essas marcas indeléveis que a educação deixa nos tecidos sociais quando funciona mal, ou quando funciona bem e acaba deixando os países melhores ou piores mais do que qualquer outra coisa. Refiro-me a outro registro, mais superficial e mais trivial, mas, talvez, por isso mais expressivo. Refiro-me às marcas que usamos na educação para identificar escolas, livros, programas, aplicativos e tudo mais.

Nas escolas, destacam-se vários aspectos que compõem um perfil com marca registrada. São abundantes os nomes "célebres", que foram cristalizados no caldo da canonização. Quem não conhece várias escolas Simón Bolívar, San Martín, Sarmiento, Piaget, Freire, Martí, Machado de Assis, Cervantes, Colombo, Rubén Darío...

Quando não nos encontramos com os Papas Pios, João Paulos, Franciscos e assim por diante. Alguém, alguma vez, pensou nesses nomes como marcas, quero dizer, como uma senha de identidade, de pertinência e de valor? Porque não posso pensar em algo mais distante do imaginário estudantil que esses nomes. E, inclusive, na maioria das vezes, tampouco são doares de identidade, porque a escola Simón Bolívar não acaba sendo, por isso, uma escola libertadora; é somente o prócer, pelo prócer.

Também temos o repertório dos registros mais sentimentais e vazios, como quando chamam as escolas da vida, de vida, viver, sol, escola do amor, da lua e das estrelas. Outro fracasso identitário, repetido até o cansaço. E, claro, sobra também o uso narcisista de chamar a sua escola pelo seu nome (o da fundadora, na sua maioria), coisa que jamais ocorreria a uma boa agência de marketing. Ou, senão, chega a corrente das siglas e as vemos serem chamadas de CUATI, QUOLI, POSCI, ASTA, ISTRAE etc.

Parece tudo feito a propósito para fracassar no que uma marca deve conseguir. E agora, mais recentemente, qualquer coisa, mas em inglês, para que soe bem. Prados verdes - fields, em geral -, lifes e coisas do tipo. E para os menorzinhos, como corresponde aos estereótipos, no diminutivo sempre. Há também os abstratos leves, sem conotação nenhuma, como os móveis, barris, luz e montes verdes. Sobram os açucarados "Pequenos Príncipes". As flores e os animaizinhos foram reservaram pelos livros.

O de geografia e da série Gaivota e o de matemática da "Girassol"; houve e há caracóis em toda parte, na livraria do bairro. E abaixo, discretos, os selos editoriais duros das marcas legendárias, que parecem mais selo da escrivania que presença de marca. No Brasil, chama a atenção que as editoras se chamem Positivo, Objetivo, Poliedro e demais totens do positivismo cientificista que reina fanaticamente no imaginário acadêmico do país.

Mas as marcas são os nomes e seu estabelecimento gráfico e sua circulação visual geral. As escolas refugiam-se em certa iconografia marcial, com escudos e símbolos pelo estilo; e quando não são essas violências obsoletas e essas demarcações territoriais feudais, são ícones degradados ou desgastados como árvores, flores, lápis, mesas e lousas. Todos com um tratamento gráfico hiper-realista que se esquece da arte, da síntese e da eficiência comunicacional em geral.

Nunca um gesto, como a Nike, nem uma ambição, como o SpaceX. Manejos gráficos fora de época, torpes em geral e antigos sempre. O logotipo do Anglo, no Brasil (uma das marcas mais reconhecidas no K12) segue sendo quase uma foto do torso de um leão. Os escudos são medievais e as armas explícitas. As pontas furam, quando já quase não há pontas no mundo gráfico atual, nem nos produtos de hoje em dia.

E, no final, vêm os slogans, que completam a composição. Sempre no gerúndio, para que não digamos nem que sim, nem que não. Educando para crescer, crescendo contigo, fazendo companhia, formando cidadãos, transformando a educação; e, quando não, então chegam as certezas como os melhores resultados, a excelência, qualidade garantida, futuro, êxito certo. Cansa, não acham? Só que poucas vezes os colocamos para funcionar assim, todos juntos. Não soam diferentes coisas como "já imaginou?", "somente faça", "é hoje"?

Nas marcas, como nos outros registros, o ecossistema educativo volta a mostrar-se torpe, quando não descompassado. Eleva mitos pouco pertinentes e até alguns impertinentes. Constrói registros visuais nada empáticos com os millennials com que trabalha. Quer impor à força inclusive as empatias emocionais. Crê que sempre tudo funciona pela obrigação. Mas não. A educação precisa de marcas. Há só ruído, poluição geral e cheiro de velho e hierárquico. Não é casual. Há por aí também plumas para escrever, esquecia-me; livros abertos com as páginas flamejantes, bibliotecas puídas de madeira cansada. Bandeiras, bandeirolas e essas coisas que costumam existir também nos estádios quando joga a seleção de cada país. Vitrines com copos de lata de torneios irrelevantes fora da experiência de vivê-los.

Não há símbolos na educação. Não há próceres que nos sirvam, porque os que encontramos estão esvaziados ou, senão, melhor seria esvaziá-los. A carga aventureira de Colombo não está nos Cristóvãos Colombos que temos, nem a angústia e a força de Túpac Amaru se detêm nas escolas homônimas; os Bandeirantes nem se sentem. Quando as escolas se chamam Galileu, costuma lhes faltar - e não se importam - aquilo que tanto caracterizou Galileu e que deveríamos chamar de espírito galileano; o mesmo ocorreu com Oscar Wilde ou com Pablo Neruda.

Quem dera houvesse menos monarcas e pretensões de nobrezas em toda sua semiologia. E, claro, que no Anglo não há vestígios da fúria carismática do leão; talvez melhor fosse caso se chamasse mariposa ou beija-flor. Algumas instituições chamam-se apenas como a rua que passa na frente de sua primeira sucursal. Sobram os europeus, os anglo-americanos, euros daqui e dali, unidos não sei por onde.

Se o que chega de novo à educação quer chegar impactando, então sugiro que façam uma parada e pensem em suas marcas. Há uma enorme oportunidade - como diria o consultor; necessitamos de seu saudável revulsivo, como prefiro dizer eu. Marcas com peso, de peso, consistentes consigo mesmas, comprometidas com sua tradição, elegantes e modernas, brandas e permanentes; nossas, portanto; contíguas, amigas, próximas, críveis, comprometidas, intensas, fortes, empreendedoras, audazes. Sim, audazes, sobretudo. Audazes antes de mais nada para definir quem são.

Se tivesse uma escola não a chamaria de Vértice, chamaria de Recíproca; não a chamaria de Objetivo, chamaria Subjetivo; não a chamaria de Poliedro (ainda que goste desse nome), chamaria de Metáfora ou Desejo. (A produtora de Almodóvar se chama O Desejo). Não a chamaria de Airbnb, mas faria o que o Airbnb faz: abrir os espaços privados e até íntimos para que cheguem outros, de fora, e enriqueçamos reciprocamente as vidas uns dos outros. Alugar um cômodo de sua casa a um turista, é a isso que me refiro; dispor das instalações da escola para que a comunidade as utilize para o que lhe pareça melhor.

Chamaria de iRecíproca, para que a tecnologia a atravesse desde seu batismo; ainda que esse "i" seja também de inovação, de independência, de identidade e de integralidade. Então seriam iMetáfora, iDesejo ou iSubjetivo. Prefiro esse "i" a um X grande, que soa hollywoodiano. Não usaria nomes em latim ou em grego, como Paideia, Logos etc, ainda que tragam coisas que me interessam; parece pesado demais. Não usaria as referências gregas - dizia - mas, sim, procuraria ativamente fazer com que a profunda tradição dos gregos e do saber deles estivesse presente em minha marca.

Não a chamaria de Platão, nem Sócrates, nem Diógenes, mas talvez, sim, usaria Agatão ou algum deus menor para dar nome a nosso auditório ou à plataforma da escola. (Tive um cachorro, um bonito pastor alemão, que se chamava Agatão). Não faria homenagens explícitas com a marca (não a chamaria Tesla, por exemplo, nem Albert Einstein, claro), ou, melhor dizendo, sim, faria, mas homenageando outras coisas.

Por isso, Recíproca, porque queria homenagear, que é exaltar, vender, ponderar, reivindicar, reposicionar e exortar a reciprocidade como princípio ético essencial; assim como também as matemáticas e suas místicas. Se em minha escola as coisas não são recíprocas, não serão; por isso, seu nome. Em minha escola, impera o princípio da reciprocidade. Na hora das cores, usaria o amarelo.

Faria com que minha escola se apresentasse como iRecíproca escola no Brasil, iRecíproca school na Inglaterra, iRecíproca escuela no México e assim por diante. Seu ícone seria uma peça simples, um traço nítido, um reflexo levado à sua mínima expressão. Nada de figurações do tipo elefantinhos, arvorezinhas ou menininhos levados pelas mãos. O traço único de uma complexidade apenas direcionada ou aludida.

Como o desenho de Quixote e Sancho de Picasso, por exemplo: como a luminária da Pixar. Isso mesmo, o ícone de uma marca de identidade e uma homenagem a uma origem: como a inscrição simbólica em uma tradição (a luminária da Pixar é o Luxo Jr., o personagem do primeiro curta-metragem da Pixar, quando não era nada). Logo, em seguida, síntese total. E leveza, do tipo que pedia Calvino para a boa literatura quando estava morrendo.

Marcas flexíveis, pouco presunçosas, que se adaptem bem ao contexto que as recebe. Não é o mesmo ser Subjetivo na Universidade do que sê-lo em um torneio de futebol; não é a mesma subjetividade que está em jogo e em discussão; o nome não adquire o mesmo sentido em um contexto e no outro.

E essas diferenças devem estar coletadas na marca e em suas expressões. Não é a mesma coisa ser Desejo em Puebla do que sê-lo em Orlando; o raio de alcance e o tipo de conotações do desejo em cada caso muda radicalmente. Não é a mesma coisa ser Recíproca em Israel do que na Jordânia.

E, sim, vamos aludir a objetos com nossas marcas, pois então vamos trazer os que de verdade são necessários no mundo educativo. Cipós; naves espaciais; longuíssimos pisos de madeira sem móveis; espelhos; pontes; ares livres e essas coisas. Talvez poderíamos chamá-la Assumir, mas jamais Assumindo. E não diria logo abaixo o típico de "sua escola", mas, sim, poderíamos colocar "a escola é você"; ou inclusive, se decidimos chamá-la de Assumir - inclusive iAssumir - poderíamos deixar em declive a exortação para que a assumam dizendo "iAssumir, assuma!". E até podíamos daí em diante usar as três marcas, indistintamente e dependendo do caso: ora Assumir, ora iAssumir, ora Assuma... E inclusive, iAssuma!

Não a chamaria de 2020, nem Nova Escola Argentina 2000 (como se chama ainda a escola em que estudei em Buenos Aires); simplesmente, nesse caso, a chamaria de Futuro. Talvez fosse melhor "Ao Futuro" ou "No Futuro". Não mentiria desde o nome, chamando-a de Canadian School - por exemplo - a uma escola que não é canadense ou de Martin Luther King a uma escola que não seja de inclusão. Não manusearia tanto a Deus; preferiria um ideus, para provocar e levar a discussão aonde gostaria de levar.

Se quando minha avó fundou a escola, não teve dúvidas em colocar seu nome, nem considerou arriscado (talvez minha avó não tivesse inimigos e, muito provavelmente, era uma absoluta desconhecida para além de seus cinco vizinhos), por que eu agora teria que andar medindo os mil riscos de colocar o nome da minha? Ela queria dar-lhe identidade; pois eu também.

Noite Tropical poderia ser um grande nome, se quisesse um nome sensorial; transmite essa paz quente que resulta acolhedora. Amanhecer, em mudança, não funciona; é sentimental, simplesmente; seus clichês obsoletos obturam sua eventual riqueza sensorial. Se vamos usar metáforas, temos que inventar.

Ao fim e ao cabo, volto e escolho de novo Recíproca. As marcas recíprocas que a experiência educativa deve deixar em cada um; as marcas nos alunos - obviamente -, que não saem como chegaram, mas também as marcas na instituição que os alunos deixam - que é um registro menos óbvio. Todos temos que sair marcados e é bom que a marca nos recorde essa vocação.

Essa interação sistematizada que é a vida escolar nos transforma sempre a todos; a escola é o resultado dessas imbricações e não a vontade de alguma hierarquia. As marcas recíprocas na escola Recíproca. Marcas múltiplas, para dizer a verdade: 360 graus de incidências intersubjetivas, que nos levam obrigatoriamente ao delta da escola como experiência. Esse também poderia ser um nome possível. Experiências. iExperiências, que isso deve ser uma escola hoje em dia.

Erudição, ao contrário, é um slogan de que gosto; experiências, erudição ao contrário. Também gosto do nome Invés, assim, seco. Trabalho agora mesmo em um aplicativo educativo que resolvemos chamar Leonardo, seja dito de passagem. Tomara que gostem.

LEIA MAIS:

- O que se aprende sem alegria (ou sem sentido) não serve para nada

- Como funciona essa inteligência?

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