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Como funciona essa inteligência?

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INTELIGENCE
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Cada vez que me deparo com alguém inteligente, pergunto-me: "Como funciona?". Não é algo cotidiano encontrar-se com esses perfis. A rigor, não sei se deveria chamá-los de inteligentes; talvez sua condição seja outra, mais abarcadora e que comporta outras capacidades, além da inteligência estritamente entendida.

É revelador para mim entender como funcionam, porque creio que essa compreensão está na base de seu possível desenvolvimento sistemático e de sua escala. Procuro encontrar no particular de todos eles algum modelo padronizável que possamos trazer de imediato ao trabalho educacional.

Ontem, sem me distanciar mais, topei com um desses personagens. Você percebe porque, no pouco tempo de interação, sente que impõem e marcam diferenças profundas na velocidade, na intensidade, na clareza conceitual e no foco. Parece que sempre sabem aonde vão; mas não como néscios simplificadores ou como doutrinários de pouca monta, não; sente que sabem para onde vão ainda que saibam - e eles o saibam também e inclusive o digam - que estão procurando, que, talvez, apenas avistam e que estão testando. Essa força de direção não vem de seu conteúdo, senão da força de uma orientação e de uma postura. Não é que saibam aonde vão; sabem até onde vão. E, sobretudo, é possível sentir que sabem perfeitamente bem porque estão indo até onde estão indo. Daí que o que irradiam seja carisma, e não suficiência; dão vontade, não esmagam. São legítimos. Somam.

Logo, vê que conectam fortemente as ideias entre si. E vê também que as que não conseguem conectar, deixam-nas cair, sejam quais forem. Foco e sistema conceitual. Não retêm por reter; não retêm isoladamente, nem apresentam ideias soltas, sempre desenvolvem sistemas, ecossistemas conceituais consistentes. Seu cérebro funciona assim. Por isso é de costume ver que não anotam, nem carregam apresentações, mas tampouco esquecem, nem se perdem ou se desorganizam ao expor; pelo contrário, às vezes até cansa, de tão sistemáticos que são. Nunca descansam, porque nunca divagam. Concentram cada passo e, por isso, seu pensamento é tão penetrante que chega a incomodar. Não respiram, nem deixar respirar. Ganham em densidade cada vez.

Funções cerebrais menores como a memória ou a associação semântica sobram nesses personagens; exibem-nas em excesso, mas não as exaltam. Não são sua questão. Como um grande futebolista (Cruyff - digamos -, em homenagem) com o domínio da bola: está tão realizado que pareceria que não importa; o descontam. Ou melhor ainda, está assim realizado mediante um caminho indireto, porque esse domínio (como a memória, em nosso caso), vem por adição, como correlação necessária de uma capacidade superior. Esses inteligentes de que falo não se parecem com os inteligentes de sempre; não se encontram neles os estereótipos clássicos da inteligência socialmente estabelecida. A do aluno exemplar, para ilustrar com um caso, a do sujeito sisudo, concentrado, introvertido e estudioso. Têm outro estilo; parecem de outra espécie.
Há toda uma tendência de chamá-los de empreendedores e até poderia ser, ainda que não saiba se é o melhor nome.

Coloque-se na frente de um deles - ou dela - e parece que, se não se mover, passarão por cima. Não aconteceu com você nunca? Ou bem se move adiante e pega sua velocidade, ou se coloca de lado, os deixa passar e sabe que nunca mais os alcançará. Colocam-nos diante da encruzilhada; apelam a nós. São incômodos; sobretudo se pegam você fora de forma. Claro, claro, também pode optar por entrar em contraste, por construir sua posição e sustentar a tensão da batalha intelectual de alta voltagem; mas deve estar muito bem preparado. Eles sempre estão; vivem preparados. Também, muitas vezes, dá gosto surfar na onda deles e desfrutar da sua velocidade e vertigem.

Inspiram; só que a inspiração não é uma emoção cômoda e plácida, senão, pelo contrário, inquietante e desestabilizadora. Quando se está na frente de uma dessas heroínas, parece como se tivesse ido ao melhor psicanalista do mundo ou que sua filha acabara de dizer, tranquila e equilibrada, madura, que não, que desta vez fará o que ela quer fazer. Colocam você em questão, rompem o equilíbrio precário de nosso narcisismo medíocre. Ah, decerto, não costumam ser narcisistas, ou pelo menos não em excesso; transcendem o imaginário e se constituem e apelam mais além, onde eles sabem que as coisas de verdade definem seu valor. Arrasam a partir do profundo.

Dão antes de receber e isso nos confunde; não guardam nem suspeitam. Parece que estiveram vendendo, mas não. Se oferecem, como que estabelecendo as bases éticas do intercâmbio e da eventual relação. Sente-se que não predefinem o potencial do que está por vir e que estão dispostos a tudo. Se abrem; e assim como se abrem, se fecham e se vão sem vacilar (como conta a mitologia de Steve Jobs) quando a interação não faz sentido para eles, fica aquém, vai em outra frequência, dança em outro ritmo. São brutalmente práticos; são impiedosamente econômicos com eles mesmos.

Podem parecer mesquinhos com sua atenção. Sentem sua finitude e vivem com um apuro intrínseco; sabem (do modo que esse tipo de pessoas sabe o que sabe, como uma sorte de intuição certeira) que o que se propõem é difícil fazê-lo caber em uma vida. Por isso se apressam. E também porque não sabem onde está seu limite e vão explorá-lo. E escalam. Por isso, quando se está diante de um deles, deve-se saber que pode ser sua última oportunidade; se falhar, provavelmente não haverá outra oportunidade. Não se pode ir desatento a esse tipo de encontro, por mais de improviso que ele lhe pegue. Recorde-se, eles nasceram preparados.

São verticais e, se sentem cheiro de sangue, vão para lá (como nos conta Melville que os marinheiros inexoravelmente vão para o mar). Parecem feras: sentem sua pulsão primitiva e imparável; quase a cheiram e a tocam. Conectam até a integração total o pensar com o fazer e o fazer com o pensar; resulta-lhes irrelevante o debate pensar-fazer, porque como poderíamos pensar e não fazer ou fazer sem pensar? Seu cérebro não perde tempo com esses trocadilhos (lembre-se de que vivem com sentido de urgência).

Vão e vão e fazem e desfazem e voltam a fazer e enquanto isso, e entre tantas coisas, e ao mesmo tempo, pensam, contrastam, revisam e, de viés, seguem todo o restante. Ah, muito importante: nunca a posição de outro define sua posição (como os discípulos subordinados); outros, muitos outros, podem influenciar e os influenciam, na conformação de sua própria posição, mas, se sua posição não se torna sua, sabem que estão perdidos. Sempre falam a partir de si mesmos, ainda que haja milhares de outros a seu redor, e muito influentes. Não é que roubem (como diria o velho paradigma da propriedade intelectual), só se apropriam. Tudo é de todos, todo o problema é quem é você ali. Sempre o giro de apropriação é seu gesto constitutivo. Não negociam com isso.

São desses que nos faltam, são dessas que necessitamos.

...E poderíamos seguir caracterizando-os; são personagens escassos e geniais com que quase todos nós temos cruzado alguma vez na vida e que, provavelmente, recordamos com particular nitidez. Mas vou parar por aqui para extrair alguma conclusão que possamos levar ao campo educativo escolar.

É evidente que, mais que um corpo de conhecimento, o que define o perfil desses ícones sociais é sua posição relativa a respeito das coisas. Primeira conclusão, então: temos que construir uma escola que desenvolva pessoas a partir de sua posição diante das coisas e não a partir do que elas podem carregar como bagagem. É um jogo de estratégia. O projeto, que é o ponto de partida do desenvolvimento de uma pessoa, é a definição e a encarnação de uma posição no mundo. Para ou por que estou aqui? Isso sempre está claro quando se encontra com algum de nossos heróis. Logo, em seguida (ao mesmo tempo, solapadamente, imbricadamente), há um claro impulso até: sempre os vê se movendo. Nunca esperam; vão o tempo todo. Não são se não fazem e não fazem se não vão. É uma ética, diria. Segundo objetivo escolar: o que quiser que seja e até onde quiser que vá, mas indo.

Já não sei se, como causa ou como consequência do anterior, chegam a intensidade e o foco. Nunca se distraem, veja; exatamente o contrário do que acontece a nossas milhões de crianças todos os dias em nossas escolas. E não por não chamar a atenção delas (pay attention, please!), senão porque o que deveria tracionar não está tracionado e, então, o cérebro se afrouxa e se perde. A atenção é uma consequência da intensidade do projeto. E nossas heroínas olham fixamente até quando dormem. Sonham com o que fazem ou com o que farão. Ah, isso, sim, creio que dormem bem, porque senão, não sei como poderia se explicar semelhante eficiência neuronal.

Creio que a análise rende ainda mais; seguirei trabalhando.

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