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Hora da liberdade?

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FREEDOM
Andy Roberts via Getty Images
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"Imaginemos um mundo em que cada pessoa tenha acesso livre e gratuito à soma de todo o conhecimento humano. É o que estamos fazendo com a Wikipédia."

"É hora de sair à luz e, seguindo a tradição da desobediência civil, fazermos oposição a este roubo privado da cultura pública", nos dizia Aaron antes de morrer."

"Devemos lutar pela 'Guerrilha do Acesso Livre'".

Vemos organizar-se lá no horizonte um profundo movimento de liberdade. Vai se impor a nós? Creio que sim e creio que já se impõe. Custará a nós até mesmo reconhecer a nós mesmos. Tal é seu impacto. É um movimento repentinamente poderoso, porque conecta uma série de tendências que não pareciam necessariamente ligadas até agora, nem tampouco produto de uma mesma origem. Sem dúvida, começam a sintetizar-se nesta nova conjuntura histórica. Algo se consolida nestas datas. Talvez porque também nós tenhamos começado a lê-las juntas, a juntá-las em nossa interpretação política do processo e, talvez, também porque essa leitura começa a ganhar adeptos e a impor-se.

Não sei se começou por aí, mas digamos que as coisas começaram faz já um tempo com um movimento - com um contra-movimento, na realidade, que foi chamado de "open source" e que foi gerado em um mundo de software e que redefine e desafia a lógica do mundo do software enlatado, fechado, proprietário e licenciável; trabalha a favor do software livre, desse que está disponível, que é aberto e que todo aquele que quiser pode utilizá-lo, programá-lo, escalá-lo, contribuir com ele, distribui-lo, entre outros; Firefox, Moodle etc. Software aberto e construção social colaborativa do software são, na verdade, as bandeiras entrelaçadas dessa façanha. É um movimento profundo, que não acaba de se impor, mas tampouco claudicou; que se mantém no jogo e que mantém todo o aparato em tensão; que - sobretudo - sustenta toda essa contenda ética de amplo alcance e dá a ela sua agenda política constante. É um movimento pela liberdade. Software livre, software aberto, software gratuito, software de produção social colaborativa.

Por um mundo mais livre.

Mas, em paralelo, como se uma coisa e outra tivessem pouco a ver, recordemos Julian Assange e aquele grande assalto chamado de Wikileaks; era o ano de 2007. Tudo o que era secreto foi repentinamente publicado, sem edição sequer. Goteiras de liberdade compulsiva. A imprensa apenas operou como transporte e a fonte expressou-se em estado puro.

Um grande movimento de liberação, produto de uma manobra política libertadora de envergadura. Não nos importa aqui que Assange esteja miseravelmente recluso em uma embaixada menor da Inglaterra, esperando sabe-se lá o quê, nem que tenha sido assediado ou estuprado; o que importa é que aquela manobra genial ainda permanece no espírito das coisas, desde agora, junto com o movimento do software livre. Atrás de Julian, vieram os FootballLeaks, os Panamá Papers e outra quantidade de operações em cernes de liberação clandestina.

Vazamentos, no fim das contas, como os chama o modelo vigente. Não são casuais, nem envolvem poucos; pelo contrário, há muito e muitos por trás; é uma frente ampla, crescente e em franco processo de organização. Obrigou a replanejar o lugar dos meios clássicos de comunicação (nunca foram eles a alma mater disso, ainda que suas caixas de ressonância sejam mais rápidas). Software livre; imprensa livre. Asas - quebradas - de liberdade. Estão também Snowden e o soldado Manning e suas publicações clandestinas e ilegais dessas coisas que tanto nos interessaram e mostraram.

Evidências fortes. Não importa - de novo - que esses mártires sejam párias, quando talvez deveriam ser simplesmente heróis, por mais psicopatas que, em particular, possam resultar, às vezes, e teríamos que ver... (Resulta pelo menos curioso que todos eles, no fim, acabam aparecendo para nós como borderlines).

Não importa que pareça que não importam, porque sua manobra importa, sim, importa e deixou uma marca indelével. E essa marca, conectada com aquelas outras, começa a ser tendência, caminho. Informação livre; segredos revelados; Frente comum. Algo acontece.

Sempre esteve por aí a pirataria e sempre a criticamos, talvez com razão. Mas, apesar de tudo, o gigantesco movimento da pirataria também se conecta com tudo isso. Lembremos que, atrás da Netflix e do iTunes e do Spotify, estiveram aquelas plataformas livres de conteúdos proprietários e que a isso chamávamos sem duvidar "pirataria".

Como bem sabemos, tudo isso atravessa axialmente o mundo editorial, é claro. Era pirataria? É? A pirataria também evidencia que os modelos de proteção estão saturados e mostram sinais bizarros, desses de que convém começar a desconfiar.

Também há Aaron Swartz, que se suicidou e se tornou ícone de um movimento que tem muitos outros e que denuncia o jogo sujo dos "donos" das pesquisas científicas e seu mapa fechado de circulação e, sobretudo, de monetização. Cadeados por todos os lados.

"Obrigar os pesquisadores a pagarem para ler o trabalho de seus colegas?", nos faziam perguntar. Aaron e outros publicaram clandestinamente tudo aquilo que "qualquer cientista deveria poder consultar" para que a ciência avance com outra velocidade e com uma base democrática que não tem tudo isso do fechado, do dominado, do imoralmente "seguro".

Não são movimentos fáceis, mas são significativos. Por ora, obrigam a sustentar certos níveis de clandestinidade, mas isso acabará. Ciência aberta, democratização da investigação. Fissuras no stablishment. Facebook, Amazon, Apple e Google e, com eles, os demais abriram outro debate que se alinha na mesma direção.

Os dados das pessoas, sua restrição ou liberação. De quem são, para quem são, quais são os limites de sua utilização etc? A disputa está travada, eu sei, e joga-se com ela em todos os planos (até atravessa a trama de House of Cards e o FBI gasta milhões em busca do irreverente "não" da Apple).

Seja como for, por trás de tudo isso está - outra vez - aquela questão do aberto e do fechado, do restrito e do irrestrito, da propriedade e do liberado; e alcança inclusive o debate ético da intimidade. Vejo tudo isso na mesma cadeia, inscrito no mesmo plano, desembocando no mesmo delta. Uma frente comum tem o horizonte; creio que haverá tormenta. Dado disponível; informação vital liberada; tudo é de todos. E inclusive, às vezes, da maneira que for.

A música e a literatura avançam na mesma direção também; a música primeiro, mais por necessidade do que por convicção. Desde que Jobs e seu iPod a puseram em xeque-mate de um dia para outro, os caminhos foram redefinidos, diferentes não só em magnitude, como também em sentido. O iTunes quis escolher o negócio fechado (Jobs, ao fim, além de ser genial, sempre buscava desaforadamente encher-se de dinheiro), mas, no caminho - e como efeito de sua própria disrupção profunda - só uma parte do negócio foi nessa direção, de um dólar por canção.

O resto; um resto grande e crescente que não existia antes do tsunami Apple foi parar diretamente no mundo livre, com produção liberada. Mudou de partido; alterou o conceito de business. E isso e o único que de verdade cresce e tem vitalidade na música. O Spotify tenta reconstruir o modelo de valor, sem negar o inegável da questão aberta e sem confrontá-la; não sei se conseguirá de maneira sustentável.

Na literatura tudo acontece mais devagar, como se fosse freado por uma indústria mais eficaz porque é feita para atrasar, mas vai até o mesmo lugar. Stephen King fez suas primeiras coisas e outros, menos altissonantes, também; não importam os atrasos, a direção também aí é inexorável. Cultura livre, consumos em outras escalas e escaladas.

O cinema e a TV convergem para cá também. A Netflix é como o Spotify, o final de um modelo de proteção (seu último estertor) e, ao mesmo tempo, o início de outro, mais ligado ao desregulado.
Twitter, Instagram e Snapchat desenrolam-se no mesmo nível. Não custa nada; tudo está aí para milhares de milhões, para que o tamanho, o tráfego e a vitalidade descentralizada redefinam o que chamamos de valor e planejem novamente o que chamamos de sentido. E não vão mal.

O movimento não é diferente nos conteúdos em geral e nos educacionais em particular. Pularei o que ocorre hoje na imprensa, porque é familiar demais para todos, que já sabem que o Twitter nos informa e os milhares de blogs e blogueiros aprofundam os assuntos. Há muito sabemos que há militantes do livre, franco-atiradores fundadores, produtores de conteúdo que desenvolvem conteúdos em aberto para combater o fechado e protegido e impulsionam politicamente a democratização do conhecimento.

Mas, há menos tempo, somou-se a isso um segundo movimente, social e politicamente muito mais relevante e que faz com que toda essa questão adquira um peso que não tinha. Refiro-me ao movimento complementar da produção livre de conteúdos, extremamente potencializador dele e também com uma carga de "re-redefinição" política do movimento muito relevante; refiro-me ao movimento de liberação dos conteúdos fechados.

Harvard, Stanford, os maiores museus e os arquivos públicos mais O fechado abre-se e disponibiliza-se sem limites e ativamente. A ética do fechado rompeu-se e os mesmos que há pouco argumentavam com ênfase a favor da proteção e do copyright como condição necessária da qualidade em conteúdos hoje investem a mesma ênfase no aberto e se tornaram ativistas da liberdade de produção e, sobretudo, de circulação de conteúdos. E produzem, umas atrás das outras, plataformas e canais de distribuição massiva livre de seus conteúdos de marca. Inclusive parecem ter se esquecido, como em uma amnésia súbita, daqueles argumentos espessos sobre a segurança, a proteção, a preservação e tudo mais.

Algo mudou e, se observarmos atentamente, é bem estranho tudo isso. Inclusive passaram a presumir seus números de divulgação em aberto e até competem entre si em quantidades - astronômicas - de produção e de consumo de conteúdos outrora fechados e agora repentinamente liberados.

Não me detenho em seus argumentos a favor do aberto, porque são simplesmente um ad-hoc para tentar justificar o que se parece mais com um impulso do que com um movimento estratégico, e muito mais com uma manobra de seguir uma onda impossível de ser parada do que de construí-la.

Tudo se abre, o espaço de valor e de sentido desloca-se e o saldo ético e social é evidente. A Wikipédia, criada por um financista intuitivo e empreendedor, Jimmy Wales (conta a lenda que a visualizou enquanto estava lendo sobre o movimento de código aberto, que advogava pela distribuição gratuita de software livre), e que nasceu como nasceu com uma visão muito inferior a seu impacto atual, tragou tudo que a antecedia e se viu inundada por sua própria força intrínseca (que é sua morfologia, claro); a Wikipédia, que nasceu vocacionalmente livre e se impôs precisamente por isso, é talvez nosso exemplo liminar e determinante. O que fica depois da Wikipédia? Nada que valha a pena.

Ou, melhor dito, tudo o que fica e que vale a pena depois da Wikipédia, a rigor da verdade, deveria ser colocado agora mesmo na Wikipédia. O que importa que as escolas a injuriem, as universidades ainda estejam pensando nela e as editoras façam como se não existisse? O que nos importa se ninguém como os professores e os alunos, os professores e os estudantes e os autores e os editores usam tanto a Wikipédia? O que nos importam os posicionamentos institucionais em tudo isso se o que traciona é o social e o que a justifica é o fim último, que é a liberdade?

A história, às vezes, é literária e força as linhas causais em detrimento das casuais, como quando contam que Aaron Swartz foi editor voluntário da Wikipédia e que, em 2006, candidatou-se para o Conselho de Direção da Fundação Wikimedia, mas não foi eleito. Nesse mesmo ano, escreveu uma análise de como são escritos os artigos da Wikipédia... Tudo ia sendo incubado. Paralelamente, corre a discussão das curadorias. É uma discussão útil e necessária, sempre que não for usada para defender os interesses da propriedade, que é o que costuma ocorrer. Em breve falaremos disso em outro lugar.

Para não falar do Youtube, que é mais do mesmo. O que nos importam as Academias das Ciências e das Letras, então? Nunca tivemos uma enciclopédia mais viva e melhor, nunca! O conhecimento está em um bom momento, e sua divulgação, no melhor de sua história. Conhecimento livre. Educação liberada?

Nos Estados Unidos, tudo isso chegou ao Congresso e vai adquirindo forma de Lei Federal. É uma tendência a mais, ainda que saibamos que os Estados Unidos em tudo isso sejam protagonistas e exemplo da máxima confusão e ambivalência institucional, ao mesmo tempo. Uma lei que a Amazon aprendeu rápido e que a Microsoft acompanhou de imediato (ainda com essa dupla moral típica, porque na questão do software livre não moveu nem um pé) e, por isso, apressam-se a anunciar ações e investimentos significativos do que devemos destacar no market-place Amazon Inspire, grátis e dedicado aos recursos educacionais em aberto (OER). As editoras olham para outro lado, fazendo seus inúteis passes mágicos para deter o tempo.

Blogs, Moocs, Webs, Plataformas... Vemos cair, pouco a pouco, a agenda da proteção e da rentabilização por restrição e subir a dos impactos, da democratização, da redefinição de renda e valor e do peso da circulação em rede em escala planetária.

Sem dúvida, por mais poderosa que ela seja nessa altura, a tendência sozinha não conseguirá; agora decidem nossas posições individuais de ativistas ou não do liberado. É hora de se comprometer. Há uma poderosa indústria por trás, justificando-se e defendendo-se e há também uma imensa corporação política resistindo, além de nossas ingênuas inércias e das já tão longas tradições.

LEIA MAIS:

- As marcas da educação

- O que se aprende sem alegria (ou sem sentido) não serve para nada

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