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Não precisamos ir além das fronteiras para testemunhar o perigo da homofobia

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YURI CORTEZ via Getty Images
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Por alguma razão, o massacre de Orlando tem dificuldades para ser reconhecido como um ato homofóbico. Embora as leis de alguns países ocidentais tenham evoluído, o ódio contra gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros continua sendo um fenômeno amplo e venenoso nas três religiões monoteístas e além.

Nos julgamentos de Nurembergue, não houve menções ao assassinato em massa dos "triângulos cor-de-rosa" (distintivo que os prisioneiros gays eram forçados a usar nos campos de concentração nazistas). E por bom motivo. Os vitoriosos que levaram os nazistas a julgamento ainda tinham políticas altamente homofóbicas em seus próprios países. Os gays vítimas do Terceiro Reich foram ignorados e não aparecem em monumentos ou memoriais. Os sobreviventes não receberiam reconhecimento nem compensações.

Na noite do massacre de Orlando, a rede de TV francesa France 2 noticiou o crime como se ele tivesse sido cometido por alguém cujos motivos eram "desconhecidos". A mesma reportagem especificou que o ataque ocorreu num clube gay por um homem que, segundo seu pai, tinha expressado desgosto depois de ver dois homens se beijando.

Infelizmente, não surpreende que um fundamentalista religioso tenha sido o responsável pelo ataque de Orlando. Judeus, cristãos e muçulmanos têm propagandistas de ódio contra os homossexuais. Recentemente na França, o rabino Sittruk afirmou: "A Torá considera o homossexualismo uma abominação e um fracasso da humanidade". Ele também disse que a Parada Gay de Tel Aviv seria uma "tentativa de extermínio moral" dos judeus. Incitando seus ouvintes a fazer algo, ele concluiu de modo sinistramente similar ao Estado Islâmico: "Espero que os ouvintes reajam de modo radical a essa abominação".

Com relação ao Islã, a maioria dos países majoritariamente muçulmanos continuam a condenar o homossexualidade (às vezes à morte) em seus códigos penais. Já a Igreja segue presa entre correntes violentamente homofóbicas e mantém sua oposição aos casamentos de pessoas do mesmo sexo. Lembre-se do que disse o cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon: "Logo eles vão querer casamentos de três ou quatro pessoas e, talvez um dia, a proibição contra o incesto vai cair".

Nas três religiões monoteístas, vozes se levantam há muito tempo: a Associação Muçulmana dos Homossexuais da França (HM2F, criada em 2010), David & Jonathan, movimento homossexual cristão fundado em 1972, e Beit Haverim, grupo de judeus franceses homossexuais (desde 1977).

Intelectuais dessas religiões assinaram manifestos contra a homofobia e a transfobia, incluindo o filósofo protestante Oliver Abel, o ensaísta católico Jean-Claude Guillebaud, o teólogo muçulmano Tariq Oubrou e o rabino Krygier Rivon, que diz estar "preocupado com a discriminação, violência e humilhação que homossexuais e transexuais continuam a sofrer". Eles explicaram: "Sentimos que toda família religiosa tem integrantes que repudiam a violência, e outros que a incentivam".

O fato de o ISIS capitalizar este ódio não deveria nos surpreender. Mas seria trágico se a organização terroristas se tornasse a árvore que esconde a floresta homossexual. No Mississippi, uma nova lei vai permitir que autoridades ou empresas se recusem a servir gays se isso for contra princípios religiosos. Na Carolina do Norte, transgêneros não podem usar os banheiros que correspondem à sua identidade de gênero, e outros estados estão tomando medidas semelhantes.

Na Polônia, um país muito católico, muitos consideram ruim ser gay. Representantes da igreja não hesitam em segregar os gays. Na Rússia, o presidente Putin aprovou uma lei que proíbe "propaganda homossexual", e notícias recorrentes sobre violência contra os gays deixam claro que demonstrações públicas de homossexualidade são extremamente perigosas no país.

Deve-se notar também que, entre os chefes de Estado que declararam "Je Suis Charlie" no ano passado, metade não pode fazer o mesmo gesto em relação ao ataque de Orlando, porque as leis ou costumes de seus países proíbem a expressão da homossexualidade.

Não precisamos nem sequer ir além de nossas fronteiras, ou de nossas religiões, para observar a cultura homofóbica. Obviamente, nem toda a discriminação ou ódio ocorrem na mesma escala do massacre de Orlando. Ainda assim, jovens LGBT de menos de 25 anos têm quatro vezes mais propensão a cometer suicídio que seus pares heterossexuais. Muitos desses jovens adultos rejeitados por seus próprios pais não vêm de famílias fundamentalistas.

O silêncio nos julgamentos de Nurembergue a respeito da matança de gays foram só o prelúdio da hipocrisia atual que permeia nosso país. Por causa da vergonha imposta por uma cultura patriarcal, heteronormativa e androcêntrica, indivíduos homossexuais, transexuais e bissexuais são deixados às margens. Quantos continuam escondidos porque suas famílias ou seus ambientes sociais e profissionais não os permitem sair do armário?

Nossa sociedade precisa de um detox cultural para o ódio contra lésbicas, gays, transexuais e bissexuais.

Para aqueles de nós que somos héteros ou cis, Orlando deveria ser um aviso.

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