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O que o Mujica tem a ver com a possível morte de um ex-preso de Guantánamo?

Publicado: Atualizado:
JIHAD DHIAB
The Washington Post via Getty Images
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No dia 17 de agosto deste ano, Jihad Dhiab iniciou uma greve de fome. O estado de saúde delicado o levou a um "coma superficial" 28 dias depois. O sírio ex-prisioneiro de Guantánamo foi liberado ao Uruguai em dezembro de 2014 na condição de refugiado junto a outros cinco ex-reclusos da mesma base militar que os Estados Unidos mantêm ilegalmente em Cuba desde os ataques terroristas ao World Trade Center em 2001. O traslado do grupo, o primeiro libertado após uma década de confinamento e torturas sem nem sequer ter sido julgado, atraía os holofotes internacionais mais uma vez ao então presidente uruguaio José "Pepe" Mujica, quem propôs a ideia.

A ideia era boa, ou pelo menos parecia. Entre continuar preso sem nenhum direito e ser livre em outro país, a segunda opção soa bastante mais atraente. Algo semelhante também descrevia a situação das cinco famílias sírias recebidas pelo Uruguai como refugiadas da guerra que assola seu país de origem - outro item do pacote de bondades internacionais e humanitárias do Pepe naquele 2014. Contudo, como se não bastassem as polêmicas internas em torno dessas decisões do Mujica, não faltaram problemas de adaptação dos novos residentes. E, três meses depois, o Governo do atual presidente, Tabaré Vázquez, encontrou-se com uma batata quente na mão assim que tomou posse.

De lá pra cá, teve de tudo. Desde uma suposta denúncia por violência doméstica no alojamento das famílias refugiadas - negada pelo Governo e amplificada pela imprensa local -, passando por desentendimentos culturais (entre eles, um pai que não queria que sua filha freqüentasse a escola por ser mulher), e acampamentos ao relento em protesto contra as condições oferecidas pelo Governo uruguaio, como ofertas de subempregos e residências precárias, além de um subsídio temporário por meio da Agência da ONU para Refugiados (Acnur).

Os primeiros a protestar foram os ex-reclusos de Guantánamo. Em abril do ano passado, quatro deles (Dhiab não participou) se instalaram em frente à embaixada dos Estados Unidos para exigir uma reparação do Governo americano devido aos abusos sofridos. Depois de quase um mês acampados, assinaram um acordo com o Governo uruguaio e a Acnur que previa um programa de inserção ao país, com aulas de espanhol, um subsídio mensal, ajuda para alugar uma moradia e a promessa de receber suas famílias. Dhiab nunca assinou dito acordo. Foi, desde sempre, categórico: queria ir embora.

Em setembro de 2015 foi a vez das cinco famílias sírias organizarem uma manifestação. Instalaram-se no principal cartão postal de Montevidéu, a Praça Independência, em frente à Presidência da República. Reclamavam do alto custo de vida local, entre outros pontos, e pediam ser reassentados em outro país. Ambos episódios geraram certa rejeição de uma parcela da população aos acolhidos por iniciativa do Mujica. O protesto das famílias sírias coincidiu ainda com o momento em que a chocante imagem do garotinho sírio de 3 anos morto na praia, depois do naufrágio de um barco de refugiados no Mediterrâneo, tocou o mundo.

De um lado, muitos uruguaios taxavam de "ingratos" os refugiados em seu país. Do outro, o Governo tentava explicar que não podia oferecer-lhes mais do que oferecia a um uruguaio. E na outra ponta, o trauma de vivenciar uma guerra ou de passar mais de 10 anos preso sem ser julgado, o choque cultural e a vulnerabilidade de vidas humanas. Tão infeliz foi a experiência de todos os lados que, no fim das contas, o Uruguai cancelou a chegada do segundo grupo de sete famílias refugiadas da guerra na Síria, conforme estava previsto no acordo feito pela gestão Mujica.

Para Pilar Uriarte, coordenadora do Núcleo de Estudos Migratórios e Movimentos de Populações da Universidade da República, o grande erro no projeto de trazer esses refugiados foi "ter pensado tudo sob uma perspectiva de caridade e não de direitos". A docente uruguaia participou em uma primeira instância de assessoramento ao Governo para o programa de assentamento das famílias sírias e lamenta que a situação tenha chegado a tal ponto. "É preciso trabalhar o preconceito. Esperamos que as pessoas digam que somos maravilhosos quando o assentamento deve ser feito não porque queremos que nos agradeçam, mas sim porque é um direito", opinou em diálogo com este blog.

Uriarte considera que as manifestações dos refugiados sírios e dos ex-prisioneiros de Guantánamo estão dentro do esperado. "As pessoas estão agradecidas de estarem em um lugar seguro, mas também têm sentimentos desencontrados, de amor e apego às origens que não se anulam para começar a vida do zero", explicou e reforçou que esse desejo latente de "ir embora" é normal em qualquer situação de refúgio ou exílio e deveria ser compreendido. A docente é bastante crítica com as formas como o Governo tratou o assunto: "Que você queira salvar a vida de alguém não significa que essa pessoa queira ser salva da forma que você acha que é a melhor".

No livro "José Mujica. A revolução tranqüila", do jornalista internacional Mauricio Rabuffetti, a iniciativa de acolher a detentos de Guantánamo aparece em um contexto em que o nome do então mandatário uruguaio chegou a ser cogitado para o Prêmio Nobel da Paz. De acordo com o autor, "Mujica passou a multiplicar as referências a questões de direitos humanos em seu discurso". E o Pepe já contava com uma boa audiência mundo afora devido ao prestígio obtido em infinitas entrevistas à imprensa estrangeira mostrando seu estilo de vida simples, somadas a decisões como a de regular o mercado da maconha, promover o casamento entre pessoas do mesmo sexo e legalizar o aborto. E assim foi feita a sua vontade.

De volta ao presente, Dhiab recebeu atendimento médico após desmaiar por causa da greve de fome e tomou soro na veia. Porém, o desejo de não ser hospitalizado foi respeitado, apesar de estar inconsciente. Esta não é a primeira vez que o sírio apela a esta estratégia. Em Guantánamo também colocou à prova seu corpo para protestar. Naquela ocasião, não funcionou. Imagens que mostravam o detento sendo alimentado à força chegaram a ser difundidas e geraram comoção.

Agora, o ex-prisioneiro luta novamente. Deseja estar com a esposa e os filhos, mas o subsídio que recebe não é suficiente para mantê-los no Uruguai. Aos 45 anos, caminha com dificuldade, com auxílio de uma muleta. Gostaria de ir à Turquia, onde mora atualmente a família, ou a outro país onde pudessem viver juntos. O Governo uruguaio insiste em explicar que Dhiab é livre para ir aonde queira, mas cabe aos países aceitá-lo, e informou que tem buscado outras nações dispostas a recebê-lo. Em julho, o ex-recluso apareceu na Venezuela, mas além de ter sido preso, foi deportado de volta ao Uruguai.

Há expectativas de que o tema seja tratado entre autoridades uruguaias e estadunidenses, aproveitando a Assembleia Geral da ONU em Nova York esta semana. Enquanto isso, Dhiab definha. "Estarei em outro país com minha família ou morro", declarou em um vídeo divulgado na semana passada.

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