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Se o impeachment acontecesse no Uruguai, o país já teria parado

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PEPE MUJICA
Anadolu Agency via Getty Images
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Quarenta mil pessoas é a média do que a central sindical uruguaia (PIT-CNT), costuma levar para as ruas de Montevidéu em dias de pequenas paralisações pontuais por algum tema específico que esteja incomodando em determinado momento.

Por exemplo, para protestar contra o TISA (Trade in Services Agreement, em inglês), aquele acordo comercial internacional para o setor de serviços que ninguém entende muito bem do que se trata, sabe?

Pois é.

Muitos brincam que o Uruguai para e marcha por qualquer coisa, independentemente de sindicatos. Seja pela agressão a uma jovem negra na porta de um bar, seja pelo TISA, seja pelos recortes no orçamento para a Educação, seja pela carência do setor audiovisual, seja pelo reconhecimento do genocídio armênio 100 anos atrás, seja pela água da torneira que certa vez apresentou algum odor (diga-se de passagem, o Governo chegou a oferecer um desconto na conta de água enquanto durasse o problema).

Se a média de participantes em uma marcha por paralisação do PIT-CNT na capital uruguaia parece pouco para um país de proporções continentais como o Brasil, lembre-se de que o Uruguai possui 3,3 milhões de habitantes em todo o território nacional, de acordo com o último censo demográfico em 2011. É pouco mais que a metade da população total da cidade do Rio de Janeiro, com 6,3 milhões registrados no censo de 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E

tudo bem que, tratando-se de um país pequeno, é mais fácil mobilizar as pessoas, assim como levar a cabo determinadas políticas, como o inovador Plano Ceibal que distribui um laptop para cada criança matriculada na rede pública de ensino e que é comumente usado de exemplo por estrangeiros para continuar apresentando o Uruguai como a Suíça da América Latina. Ou, mais recentemente, como a "Holanda da América Latina" quando o assunto é a regulação do aborto e da maconha (apesar dos estereótipos contidos nessa analogia).

Fato é que o Uruguai é um país politizado. E os sindicatos aqui fazem barulho, inclusive os patronais, de acordo com os respectivos interesses.

Quando o PIT-CNT convoca paralisação, de meio expediente ou de um dia integral, os cidadãos já se agilizam para programar a data e fazer malabarismos na rotina, seja para chegar ao trabalho e/ou para saber com quem deixar os filhos. Não tem ônibus, não tem taxi (pelo menos agora tem Uber, mas fica saturado em dias assim ou dias de chuva), não tem aula, não tem médico (respeitando os 30% mínimos de plantão requeridos por lei em casos de greve).

Alguém consegue imaginar um cenário assim no Brasil? Ora, se quando o metrô paralisa já é um caos dependendo da cidade. Imagine tudo de uma vez? E se no Uruguai um simples gesto do Governo de participar das primeiras consultas para um eventual acordo internacional de comércio de serviços como o TISA já é suficiente para que a central sindical do país convoque uma paralisação dos trabalhadores. O que aconteceria se o presidente eleito pelo povo fosse destituído em um processo liderado precisamente por pessoas investigadas em denúncias de corrupção?

Algumas horas depois de consumado o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, neste último dia de agosto de 2016, o PIT-CNT lotou o auditório de sua sede em uma conferência internacional sobre democracia e contra o neoliberalismo.

Apesar de ter sido paralelamente organizado com bastante antecedência, sem que se previsse a coincidência do momento, o evento acabou se concentrando no repúdio ao atual panorama brasileiro com a presença do eterno popstar da política mundial, José "Pepe" Mujica.

O ex-presidente e atual senador uruguaio voltou a criticar o impeachment e a chamá-lo de golpe de Estado. Em discurso aos presentes, disse que o ministro de Relações Exteriores do Brasil, José Serra, em visita ao Uruguai há dois meses já contava como certa a destituição de Rousseff, uma evidência a mais de que já estava tudo combinado por trás do que classificou de um grande teatro por parte do Senado Federal. Também ressaltou o papel do ex-presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, para levar adiante o impeachment como uma chantagem política. Para Mujica, "o que está passando no Brasil é um problema de todos".

"Estão condenando esta mulher [Rousseff] por não ter entrado na corrupção", concluiu, embora também tenha enfatizado o papel de determinados setores políticos derrotados nas últimas eleições que, segundo ele, em vez de se preparar para as eleições seguintes preferiram encurtar o caminho.

Por outro lado, Mujica reconheceu o divórcio efetuado por Rousseff com as bases sociais de seu Governo ao tentar contornar a crise econômica de forma técnica com medidas impopulares, além de sua dificuldade em negociar. "Parece que a Dilma não é simpática com os opositores, totalmente o contrário do Lula", observou.

Ao final da jornada, o público presente gritou "Fora Temer" em um forte uníssono. A mesa contou ainda com a participação dos brasileiros Tica Moreno e Rafael Freire, representando a Marcha Mundial de Mulheres e a Coordenação de Centrais Sindicais do Cone Sul, respectivamente, além do secretário-geral do PIT-CNT, Marcelo Abdala.

Questionado por esse blog sobre o que a central sindical uruguaia faria perante um cenário político parecido com o atual brasileiro, Abdala foi enfático: "Greve geral por tempo indeterminado".

Enquanto isso, o presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Brasil, Vagner Freitas, alerta para um retrocesso nos direitos trabalhistas nos moldes da reforma proposta pelo agora presidente do país, Michel Temer.

Em um comunicado publicado na última quinta-feira (1), apenas no final do texto Freitas menciona a possibilidade de uma greve geral "se os golpistas insistirem nessa aventura louca de desprezo pelo povo e pelo futuro do Brasil". Se fosse no Uruguai, o país já teria parado há tempos.

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