Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Paul A. Bromley Headshot

'Por favor, não encoste no cabelo do meu filho'

Publicado: Atualizado:
Imprimir

black power

Se três anos atrás você me dissesse que hoje eu estaria voluntariamente passando meu tempo livre com um bebê no colo, assistindo vídeos da Vila Sésamo no YouTube, teria te chamado de mentiroso.

Mas aqui estamos.

Vila Sésamo era um dos meus programas de TV prediletos quando eu era criança. Quando meu filho nasceu, há um ano, mal podia esperar para mostrar para ele os livros e programas de TV que me moldaram na juventude.

Como pai de um jovem negro, é importante que ele veja pessoas parecidas com ele lendo livros e curtindo o processo de aprender e de expressar alegria.

Felizmente, Vila Sésamo continua se dedicando a uma representação proporcional das pessoas de cor. É o único programa de TV em que você pode ver Usher cantando o ABC com Elmo, Bruno Mars cantar sobre autoconfiança e Romero Santos cantar junto com os personagens da Vila Sésamo.

Um dos vários vídeos incríveis que assistimos se chama "I Love My Hair" (adoro meu cabelo), uma ode ao cabelo dos negros em sua forma natural. O vídeo mostra uma boneca negra adorável cantando e dançando, uma celebração dos seus lindos cabelos.

Ela fala como se sente linda, como pode fazer tranças, cornrows, usar penteado afro ou alisá-lo. O cabelo dela é lindo de todos os jeitos.

Como pai de uma criança negra, você quer instilar um senso de orgulho em seu filho desde a mais tenra idade. Olhei para meu bebê, e ele estava apaixonado pela música desde a primeira vez que a ouviu.

Ele pulava, sorria, dava risada, apontava para a tela, e juro que o vi dançando - mas posso estar enganado. De qualquer modo, foi uma das coisas mais adoráveis que já vi.

Meu homenzinho tem um monte de cabelo. Quando nasceu, tinha a cabeça cheia de cabelo super preto. Depois de crescer um pouco, foi clareando um pouco, e agora a cabeleira dele é cheia e encaracolada.

Quando a luz bate do jeito certo, os tons castanhos brilham, e você enxerga todas as espirais do seu lindo afro de bebê. O cabelo dele é apenas uma das formas naturais do cabelo dos negros - e tão lindo quanto todas elas.

Quando é hora de ir para a cama, faço cafuné até ele pegar no sono. A mãe lava e cuida do cabelo, mantendo-o limpo, hidratado e perfumado. Quando está com sono, ele mexe no cabelo, o sinal de que quer tirar um cochilo.

O cabelo já é uma extensão da sua identidade, e adoramos vê-lo crescer. É lindo demais.

Infelizmente, olhando meu filho expressar sua alegria com uma música que celebra uma das coisas mais lindas que nós negros temos, a única coisa em que eu conseguia pensar era o dia em que inevitavelmente alguém, provavelmente um negro mais velho e bem intencionado, diria que ele precisa arrumar o cabelo de uma maneira "universalmente aceita" para ser bem sucedido.

Tudo o que eu via era o dia em que o sorriso e a alegria do meu filho seriam apagados. Nunca me senti tão triste.

O cabelo [do meu filho] já é uma extensão da sua identidade, e adoramos vê-lo crescer.

Meu filho tem um ano, e não temos intenção de cortar o cabelo dele tão cedo. Mas outros negros já nos deram "conselhos" e opiniões para "administrar" o cabelo dele.

"Quando vocês vão cortar?" "Vocês não vão fazer tranças, né?" "Ele vai ficar tão lindo de cabelo curtinho!"

Ele tem um ano. Ainda tem uma falha na parte de trás da cabeça... afinal de contas tem só um ano, e o cabelo dele ainda está crescendo.

Minha mulher também deixa o cabelo natural e cuida dele usando um sistema que está funcionando muito bem para o meu filho. O cabelo dele está sempre penteado. Sempre hidratado. Sempre lavado. Sempre cheira bem.

O cabelo dele é lindo... mas, mesmo assim, para algumas pessoas isso não é suficiente. Mesmo com um ano de idade... patrulham a imagem de um menino negro.

Muitos de nós conhecemos a imposição das políticas de respeitabilidade e assimilação por parte da velha guarda. Para muitas das pessoas mais velhas da nossa comunidade, o caminho do sucesso - e, às vezes, da sobrevivência - passava por uma aparência e uma atitude que não deixassem os brancos pouco à vontade.

Quando você era criança e sua avó dizia para você usar um boné ou chapéu para não parecer "muito escuro". Essas atitudes sobrevivem nas marcas da chapinha no pescoço das mulheres mais velhas, para deixar o cabelo "bonito e lisinho". As reclamações de sua mãe quando ela fazia tranças e penteava seu cabelo "duro" e "ruim" antes da missa de Páscoa.

Quando seu professor de inglês, um negro, diz que "você tem de ser duas vezes melhor que os brancos para conseguir metade do que eles têm" - como se sucesso e inteligência fosse algo que nos provocasse rancor, não algo que devêssemos almejar para nosso crescimento, prazer e satisfação.

Para os homens negros, sempre há uma afirmação implícita de que só existe uma maneira de ser um negro "respeitável" ou "BOM". Essa mentalidade é inculcada nas cabeças dos meninos negros desde muito cedo. "Bons meninos negros vão à igreja." "Meninos negros não choram."

"Não me faça passar vergonha na frente dos brancos! "Arrume um bom emprego e ganhe bastante dinheiro, ou então você não é homem." "Não case muito cedo, divirta-se à custa das mulheres." E a partir de uma certa idade: "Rapaz, você precisa sossegar e arrumar uma mulher pra me dar uns netos!" "Levanta essa calça." "Essa calça é muito folgada." "Essa calça é muito justa."

Até mesmo nosso cabelo é policiado por aqueles que dizem que estão preocupados conosco. "Bons meninos negros não usam cornrows nem dreadlocks." "Corta esse cabelo. Filho meu não vai ficar parecendo marginal." "Como é que você acha que vão te levar a sério usando essas tranças?" "Com esses dreadlocks?" "Com esse afro?" Porra, mãe, posso viver?!

Quem tem medo do menino negro livre?

O menino negro que gosta de Kendrick Lamar e Linkin Park. O menino negro que pode não virar pastor, mas ama a humanidade e encontra Deus fora da "igreja" e da "religião organizada"?

E o menino bem sucedido e compassivo que conquistou tudo, mas nunca vai ter uma esposa porque prefere ter um marido? Ele não é um bom negro? Não pode ser um bom pai? E o menino negro que tem cabelo encaracolado em celebração da glória negra? Essa liberdade não significa ser bom?

Temos de aprender a permitir que nossos meninos sejam livres. Quando você reprime e patrulha os meninos negros, eles vão virar homens, mas no fundo ainda serão crianças.

Temos de aprender a permitir que nossos meninos sejam livres. Quando você reprime e patrulha os meninos negros, eles vão virar homens, mas no fundo ainda serão crianças. Confusas sobre nossas identidades. Meninos que acham que nunca serão bons o suficiente.

Meninos que vão se tornar homens achando que a identidade masculina depende de quanto dinheiro ganham e quantas mulheres conquistam sexualmente. Meninos que sofrem de ansiedade e depressão. Meninos que não falam disso porque homens não falam de emoções. Isso não cria força; isso só enfraquece.

Estamos criando homens que não sabem quem são, mas que são obrigados a navegar o mundo fingindo que estão plenamente no controle de suas identidades, sexualidades, corpos e emoções. A realidade é que muitos de nós somos uma bagunça por dentro, por causa das restrições que nos impõem como homens negros. E tudo isso começa quando você questiona pela primeira vez o corte de cabelo daquele menininho negro.

Idosos, a culpa não é de vocês. Suas opiniões foram moldadas pela época em que vocês cresceram. Vocês viram seus pais sendo maltratados pelos brancos. Vocês viram crianças de 5 anos chamando suas mães de "Shirley" ou "Marjorie", em vez de senhora Johnson ou senhora Parson, como você tinha de chamar as mães deles até o dia da sua morte.

Você lembra de ver o corpo desfigurado de Emmitt Till por supostamente ter assobiado para uma branca. Tudo o que te ensinaram para lidar com a supremacia branca voltou imediatamente quando você teve filhos e tentou passar para eles o que aprendeu. Mas você está cortando as asas dos seus filhos antes que eles aprendam a voar. Você está matando a beleza e a mágica negra.

Você vai ter de sentir medo do meu filho. Não encoste no cabelo dele.

Ele vai ser um menino negro livre. E, com um ano, livre para deixar o cabelo crescer como o todo-poderoso quiser. Livre para amar. Livre para falar. Livre para entender. Livre para fazer perguntas. Livre para discordar. Livre para ler. Livre para se expressar. Livre para amar arte. Livre para amar esportes. Livre para odiar esportes. Livre para namorar.

Livre para aprender espanhol, mandarim e suaíli. Livre para rimar. Livre para cantar. Livre para se definir. Livre para desejar. Livre para sonhar. Livre para encontrar Deus. Livre para questionar Deus. Livre para dançar. Livre para sorrir. Livre para chorar. Livre para demonstrar felicidade. Livre para ser negro. Livre para ser o menininho no meu colo dançando de alegria por causa do seu lindo cabelo negro.

Você nunca vai roubar a felicidade dele. Não a felicidade desse menininho negro.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Escola pede à mãe que apare ou trance o cabelo crespo de seus filhos e causa polêmica nas redes sociais

- Chega de alisar cabelo. Ser você mesma tem mais força do que ser uma imagem

- 15 comentários que você nunca deve dizer a uma mulher com o cabelo crespo (GIFs)

Também no HuffPost Brasil:

Close
Olimpíadas 2016 - Atletas com cabelo crespo
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual