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A morte de Jo Cox vai influenciar o referendo britânico sobre a permanência na UE?

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JO COX
MATT CARDY VIA GETTY IMAGES
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A morte de Jo Cox lançou uma sombra terrível sobre a vida pública britânica. Exatamente uma semana antes do referendo sobre a permanência do país na União Europeia, o assassinato brutal teve impacto inegável de curto prazo, pois ambos os lados suspenderam suas campanhas.

A política partidária normal e a questão europeia foram colocadas de lado enquanto família, amigos e o país lamentam a perda de Cox.

Mas a pergunta silenciosa para as campanhas tanto pela permanência como pela saída da UE é a seguinte: será que a morte vai afetar o resultado do referendo desta quinta-feira?

Todos os eventos foram cancelados na sexta-feira seguinte ao assassinato de Cox, assim como grandes comícios marcados para o sábado.

As campanhas "de rua" continuaram, com barracas e distribuição de panfletos, mas aparições na mídia ficaram suspensas até o domingo.

O programa Any Questions, da BBC Radio 4, que teria um debate entre Nigel Farage, sua antiga adversária Anna Soubry, Lord Owen e Alan Johnson, foi rapidamente cancelado.

Ambos os lados tinham planejado um grande esforço no último sábado de campanha, tanto em termos de oportunidades de aparecer na mídia como de galvanizar o apoio dos eleitores.

O Partido Trabalhista, que obviamente sentiu a perda de uma de suas deputadas, não fez campanha até segunda-feira. Jeremy Corbin deveria fazer vários discursos em comícios, mas todos foram suspensos.

Mas será que a interrupção na campanha vai afetar o embalo que a campanha pela saída da UE vinha ganhando nas últimas semanas?

As pesquisas mostravam crescimento dos descontentes com a UE, e algumas apontavam uma vantagem de até sete pontos percentuais.

O clima sombrio pode afetar a campanha pela saída da UE em duas áreas chave: reduzir a retórica anti-imigração e conter o sentimento "antipolítico" que cresceu no país nos últimos meses no Reino Unido, assim como nos Estados Unidos e no restante da Europa.

Os defensores do desligamento sabem que precisam tomar cuidado especial com a linguagem, dada a longa associação de Jo Cox com a causa dos refugiados.

E, se surgirem evidências fortes da ligação do assassino com grupos anti-imigração, a narrativa ainda pode mudar. Mas eles acreditam que Boris Johnson e Michael Gove têm deixado claro que assumir o controle da imigração na realidade pode impedir que a questão seja dominada pelos extremistas de direita, conseguindo apoio democrático para a questão de quotas de imigração.

O argumento em favor de um sistema baseado em pontos continua sendo válido.

A imigração pode não ser um tema tão central, mas o prejuízo para a campanha pela permanência já pode ter se concretizado com os panfletos que falavam em 80 milhões de turcos "prestes" a entrar para a UE.

E, embora alguns achem que um foco renovado nas questões econômicas favoreça quem defende a permanência, a contenção dos ataques pode afetar a estratégia de apontar para o medo de recessões e cortes de gastos.

Ao mesmo tempo, o foco na segurança dos parlamentares pode alimentar uma sensação de que agora não é o momento de correr riscos - de qualquer tipo.

A campanha pela saída acredita que uma pequena parte do público vai associar o assassinato de Jo à questão da UE. E há um exemplo na história que pode estar na memória dos dois lados.

Dias antes do referendo sueco sobre a adesão à zona do euro, a ministra do Exterior Anna Lindh foi morta a facadas quando fazia compras numa loja de departamento. Lindh defendia o "Sim", mas os suecos votaram contra a adoção da moeda única.

Muitos dos defensores da Brexit terão alento com o que aconteceu na Suécia, mesmo que a tendência de alta nas pesquisas recentes seja interrompida.

A campanha não tinha nenhuma outra grande mensagem para os últimos dias antes do referendo, e o plano sempre foi repetir os mesmos temas até o último momento.

De certa maneira, a falta de atenção para o tema da economia talvez tenha mais impacto entre os que defendem a permanência na UE.

As minutas do Banco da Inglaterra receberam pouca cobertura. O discurso do ministro da Economia teve de ser cancelado, e o relatório do FMI - que continha mais avisos sobre o potencial impacto econômico de uma Brexit - ficou sob embargo mais horas do que o previsto.

Ainda assim, alguns estrategistas de campanha (que não querem ter seus nomes divulgados por razões óbvias), acreditam que a permanência pode se beneficiar com um tom menos raivoso e menos partidário nestes últimos dias.

A mensagem econômica será apresentada como algo positivo, em vez de uma visão ameaçadora de futuro, reforçando a ideia de criação de empregos dentro do mercado único europeu.

E outra mensagem chave - o apoio dentro dos diferentes partidos, além da chancela de especialistas independentes - pode aparecer mais, já que a briga política fica em segundo plano.

O primeiro-ministro, como todos os envolvidos nas campanhas, não fará nada que possa indicar uma ligação entre a morte de Jo e o referendo. Ele afirmou:

"Temos paz, temos estabilidade, temos uma medida de bem estar econômico melhor que a de outros países, que obviamente ainda precisa ser distribuída mais amplamente. E tudo isso é sustentado pela tolerância".

Ele não precisou acrescentar que toda essa paz, estabilidade e prosperidade serão colocadas em risco pela Brexit - a implicação era clara.

Todos os deputados trabalhistas ficaram horrorizados com a sugestão de que a morte da colega seria explorada politicamente.

Mas, quando os merecidos tributos forem lidos no Parlamento, o eleitorado - particularmente os indecisos - serão lembrados da paixão de Cox pela questão dos refugiados e da União Europeia.

Um impacto significativo da tragédia pode ser um maior comparecimento às urnas, talvez elevando o perfil da política em geral e possivelmente até um sentimento nacional de que votar é um dever cívico.

Isso pode ser extremamente valioso para os defensores da permanência, que demonstram preocupação com o fato de que seus adversários talvez estejam mais motivados.

Mas um índice mais baixo de abstenção pode não ser suficiente para contrabalançar um problema que preocupa muitos deputados trabalhistas e conservadores a favor da UE: falta de registros de eleitores.

Os deputados trabalhistas afirmam que suas sondagens prévias não são precisas o suficiente para saber quem tende a votar no que, e eles naturalmente não querem correr o risco de incentivar o voto dos favoráveis ao abandono da UE.

Entre os conservadores, há o temor de que não haja organização suficiente para incentivar os eleitores pró-UE a votar.

É cedo demais para determinar os impactos de médio e longo prazo da morte de Cox na maneira que conduzimos nossa política. Fiquemos na UE ou não, seria bom saber que ela terá trazido civilidade para o discurso público.

Qualquer que seja o resultado na quinta-feira, ambos os lados vão esperar que o legado de Cox seja uma política mais gentil, mais baseada em consenso.

E ambos os lados também acreditam que aceitar o resultado sem rancores - concordando que "vitória é vitória" - pode ajudar a cicatrizar as feridas de um país que ela lutou tanto para unir.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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