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A história de um profundo e verdadeiro 'vá se fod*r'

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MAD MEN
AMC
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Você está contando sua própria história. Você se formou na faculdade e agora é uma mulher adulta. Tina Fey é sua heroína; Beyoncé, sua pregadora.

Você sabe se cuidar. Aprendeu autodefesa. Se algum homem quisesse lhe bater, você arrancaria seus olhos. Você assistiu a Mad Men; se alguém algum dia ousasse assediá-la sexualmente no trabalho, você lhe diria "vá se f...r", jogaria seu café na cara dele e sairia mostrando para ele o dedo médio em riste, num gesto de desprezo.

Você faz seu primeiro estágio de trabalho. Consegue seu primeiro cartão de crédito. Você vai até a Nordstrom, onde sua mãe nunca queria levá-la, e festeja o feito comprando uma saia preta de couro, maravilhosa, e sapatos de salto agulha para combinar.

Seu carro? É o carro de uma estudante universitária. Você consegue um financiamento e passa daquele Civic enferrujado para um Accord do ano passado.Chega a primeira conta do empréstimo que você contraiu para pagar a faculdade. Quantos números!

Sua vida vira uma imagem do tipo que levaria o rótulo de "profissional jovem": você e seus novos colegas de trabalho tomando algumas num bar do outro lado da rua, em frente ao escritório. Os drinques custam o dobro do que você pagava na época em que media o tempo em semestres e as noites em latinhas de cerveja.

O namoro que vem desde a faculdade vira sério. Você vai morar no apartamento dele, que vocês dois ajeitam um pouco, comprando sua primeira mesinha de café juntos. A Idea deixa você pagar metade do preço com seu cartão de crédito mais novo.

O estágio termina e você ainda não encontrou um emprego permanente. Você paga os valores mínimos de seus cartões e então volta a gastar tudo o que tem direito neles, fazendo supermercado para dois dias e enchendo o tanque de seu carro só até a metade.

Sua vida vira uma imagem do tipo que levaria o rótulo de "profissional jovem". Os drinques custam o dobro do que você pagava na época em que media o tempo em semestres e as noites em latinhas de cerveja

Seu banco adota um esquema novo que junta todos seus saldos em um só -o saldo do cartão da Nordstrom, junto com o Visa e o Chase Freedom, que você só deveria usar em casos de emergência--e lhe informa que, não se sabe bem como, você está devendo 7 mil dólares.

Seu namorado se oferece para pagar o aluguel sozinho por algum tempo. Alguns meses depois, você arruma um emprego, mas já está devendo várias prestações do empréstimo estudantil.

O primeiro salário que recebe parece uma lufada de ar fresco, mas ela é sugada de seus pulmões assim que entra.

Seu chefe novo, que parece simpático, chama você para a sala dele e lhe mostra uma foto dos seus filhos. Conta uma historinha sobre o filho dele, e então, quando você dá risada, ele põe a mão sobre seu braço e aperta de leve. Você resolve ignorar. Faz de conta que não aconteceu.

Você espera para pagar a conta da luz até conseguir a metade que é a sua parte, e a luz é cortada. No seu telefone, você lê o e-mail sobre a multa por pagamento atrasado. Seu namorado pergunta: "como é que você pôde ser tão burra?"

"Não sou burra", você responde. Você jamais toparia estar com alguém que a xinga, mas neste momento também não teria como pagar o aluguel sozinha, nem o depósito inicial de caução.

No dia do pagamento, você sai para almoçar no P.F. Changs com seus colegas de trabalho porque quer fazer amigos, seu sanduíche de peito de peru parece um tédio, e afinal, que diferença vai fazer uma continha a mais? Você compra um vestido frente-única que sabe que está fora de seu orçamento, porque o vestido a faz parecer a jovem bem-sucedida que você quer que todo o mundo pense que você é.

Seu chefe lhe diz que você ficou bonita no vestido. Pede que você dê uma voltinha. Só para acabar logo com isso, você faz o que ele pediu.

Seu namorado pergunta quanto você pagou pelo vestido e fala que ele a deixa gordinha. Você se tranca no banheiro até ele bater na porta tão forte que você acha que ele deve ter se machucado. Depois que ele adormece, você vai para a internet procurar apartamentos para alugar e fica espantada ao ver os preços. Você apaga seu histórico de buscas e vai dormir.

Algumas semanas depois, seu chefe pede uma reunião a sós em sua sala. Ele se aproxima de você por trás e quase encosta em você. Você sente a respiração dele em sua nuca. A mão dele sobe por seu vestido novo. Você se afasta, incomodada. Ele diz: "Desculpe, pensei..."

Você sabe o que deveria fazer, mas se choca ao perceber que não está fazendo. Você não o está mandando ir se foder. Você não está saindo e batendo a porta. O que está fazendo são continhas na cabeça.

Você tem pouco dinheiro no banco, precisa pagar a prestação do carro e seus cartões de crédito estão estourados. Você prefere morrer a pedir mais um empréstimo ao seu pai. Somando tudo isso, o resultado é um pensamento apenas: preciso deste emprego.

Você se ouve respondendo: "Tudo bem. Esqueça." Você sai correndo da sala dele e olha para o escritório, onde metade dos profissionais são mulheres. Fica imaginando quantas delas não terão segredos como esse que você se prepara para guardar.

No apartamento, você recebe uma ligação de seu melhor amigo. Quando você desliga, seu namorado fala que você ri demais quando fala com ele, que está dando trela a ele, provavelmente até dormindo com ele.

Você fala que não é nada disso. Você grita, ele grita. Você tenta sair, ele se posta em seu caminho. Quando você luta com ele para passar, ele agarra seu pulso, exatamente como fizeram de faz de conta na aula de autodefesa. Você sabe que deveria atacar os olhos dele, mas não sabe como. Ele a puxa para trás até você cair, rachando a mesinha de café.

Ele parece tão arrependido, chega a chorar, então naquela noite você cede e se deita ao lado dele na cama. Você fica deitada no escuro com os olhos abertos, tentando calcular quanto tempo levaria para economizar o dinheiro que precisaria para se mudar de lá.

Você se diz que ele está arrependido e se convence de que foi um acidente, descontando essa única vez porque ele não lhe bateu. Considerando o quanto você deve, isso lhe parece muito mais viável que ir atrás do dinheiro que precisaria para morar sozinha.

Da próxima vez que vocês dois saem como casal, ele com o braço sobre seus ombros, você olha para as outras namoradas e se pergunta se também há contusões com a forma de dedos debaixo das mangas compridas que elas usam.

Espere aí. Esta história é péssima! Se fosse uma daquelas histórias do tipo Escolha Sua Própria Aventura, você ia querer voltar para trás, recomeçar do começo e reescrever o que acontece com você.

Você se formou na faculdade e agora é uma mulher adulta. Tina Fey é sua heroína; Beyoncé, sua pregadora.

Se algum homem quisesse lhe bater, se alguém a assediasse sexualmente, você o mandaria ir se foder. Você quer ser o tipo de mulher que pode mandar qualquer pessoa ir se foder quando for o caso. Ou melhor, não, você vai ser esse tipo de mulher.

Por isso, é claro, você abre um verdadeiro e profundo "Vá Se Foder".

"Você faz um gesto de desprezo com o dedo médio em riste e vai direto para o RH. O sistema pode protegê-la ou pode deixá-la na mão, mas, de uma maneira ou outra, você vai conseguir se cuidar."

Para criar essa conta, você continua a viver como vivia quando era estudante eternamente dura. Continua a andar no seu Civic de dez anos atrás, mesmo depois do para-lama cair. Compra suas roupas em brechós.

Faz bicos de garçonete aos sábados, apesar de trabalhar de segunda a sexta. Você se vira com uma mesinha de café de segunda mão. É duro, não é fácil pagar as prestações do empréstimo estudantil, mas em vez de sair à noite com suas amigas você as chama para vir à sua casa e cada uma traz algum recheio para os tacos.

Você economiza até ter uma poupança Vá se Foder com US$1.000, US$2.000, US$3.000 e, no fim, o suficiente para você passar seis meses sem precisar pedir ajuda a ninguém. Desse jeito, quando seu chefe lhe fala que você está bonita e pede para você dar uma voltinha, você pode responder: "Você está precisando de minha ajuda profissional, ou posso voltar à minha mesa agora?"

Quando seu namorado a chamar de burra, você diz que se ele repetir isso de novo, uma vez que seja, você vai embora. E não é difícil imaginar como você vai conseguir partir.

Quando seu chefe tenta lhe bolinar, você fala "vá se foder, nojento!". Você faz um gesto de desprezo com o dedo médio em riste e vai direto para o RH. O sistema pode protegê-la ou pode deixá-la na mão, mas, de uma maneira ou outra, você vai conseguir se cuidar.

Quando seu namorado bate furiosamente na porta e a agarra pelo pulso, você entende que isso é um sinal de alerta e vai embora no meio da noite, deixando para trás apenas um post-it dizendo "vá se foder seu babaca imbecil!".

Você passa o resto da noite num hotel elegante tomando champanhe que pediu pelo serviço de quarto, procurando apartamentos na Internet e procurando pessoas interessantes no Tinder.

Quando seu Profundo Vá Se Foder estiver refeito e você tiver encontrado um emprego novo e melhor, você poderá comprar a saia de couro preto mais tchans possível, pagando à vista, trocar seu carro velho por um conversível usado, mas mais bacana, como você sempre quis, e começar a economizar para ir à Tailândia no próximo verão com sua melhor amiga.

Essa é uma história bem melhor.

É uma história que nunca ninguém me contou.

É o tipo de história que eu desejo para você.

Este post saiu originalmente no Billfold no Medium.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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