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Teresa, Irene e João,

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É preciso ir muito longe para se chegar mais perto. São quase 10 anos dessa lonjura deliciosa, que nos faz voltar às terras natais apenas para matar a saudade. Matamos, enterramos, velamos e depois partimos, como se nada tivesse acontecido - mas sabendo que, na verdade, foi tudo que aconteceu. Os reencontros com o lugar, com as coisas, com a paisagem, com os caminhos, com as pessoas. Fui lá, sozinho, dia desses.

Cheguei no meio das nuvens de pipoca, desci e peguei a estrada que muda de cenário a cada dez quilômetros. Começa tão urbana, tão cinza. Vai esverdeando lentamente. Sobe repentinamente a serra de nome trocado - deveria ser Ruças e não Russas. Tudo nubla no meio do caminho, fica ruço. Lá em cima, surge um cinza novo, outro cinza que não é concreto, é etéreo. O cinza-agreste. Mistura-se verde seco com cinza úmido e um céu de azul sem sobrenome. Eis que finalmente chego, essa distância de poucos quilômetros, mas tantos anos, que me separa daquele lugar, daquelas coisas, da paisagem mutante, esse caminho que conheço tão bem. Esse descaminho onde me reconheço. E as pessoas, aquele jeito de dizer com os olhos que sou bem-vindo.

É lá que a gente consegue ver o cheiro das coisas. A fumaça que estala o milho. As estrelas cadentes que nós mesmos acendemos na fogueira. O amarelo-dourado de que vem sob a canela, na canjica. São visões e antevisões. Fechem os olhos. Se digo pé-de-moleque, vocês não vem um garoto descalço. Vocês salivam. Esse São João não é santo. São João é o mais profano dentre todos nós. Porque desperta as sensações de quando não se está rezando. São João acende vela para a gente dançar, comer, amar. Se esbaldar nos cheiros visíveis. É o cheiro da gente, filhos, quando retornamos ao lugar de onde viemos. Um dia vocês irão sentir isso na pele, quando fizerem os percursos de volta, ainda que seja somente para matar a saudade. Já que escolhemos a vida do viajante (salve, seu Lua) e estamos indo cada vez mais longe - para chegar perto do que verdadeiramente somos. Fui a Caruaru e, ao voltar, vocês estavam assim, prontos. Vocês são a festa. Sinto o cheiro.

Do seu pai,
Pedro.

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