Quando um jornalista foi morto em uma manifestação houve uma justa comoção nacional. Toda vida é sagrada. Mas a morte de um jornalista em uma manifestação atinge algo mais. Atinge a liberdade de imprensa e, portanto, a democracia.
O Brasil tem inúmeras pessoas presas ilegalmente hoje em suas cadeias. Todas essas prisões ilegais devem ser denunciadas. Mas há algo de mais grave na prisão ilegal de um manifestante. Prender alguém para impedir seu direito de manifestação, prender alguém porque não se concorda com sua ideologia é realizar uma prisão política.
Deve haver mais, mas há hoje, pelo menos, um preso político no Brasil. Fabio Hideki Harano. Fabio foi preso no dia 23 de junho em uma estação de metrô em São Paulo. Fábio foi preso em flagrante. Para se realizar uma prisão em flagrante a pessoa tem que estar cometendo o crime naquele momento. O crime do qual Fábio é acusado é o de porte de explosivos. Há um vídeo com a prisão de Fábio. Não há sinal de que os policiais encontraram explosivos ali.
Segundo o secretário de segurança, Fábio foi preso em flagrante por associação criminosa. Para se configurar o crime de associação criminosa Fábio teria que estar reunido com pelo menos mais duas pessoas para o fim específico de cometer o crime na hora em que foi preso. Se ele foi preso em flagrante por isso, quem eram as outras duas pessoas? Elas foram presas? Fugiram?
Há que se ter todo o respeito pelas autoridades policiais e governamentais envolvidas neste caso. Mas os fatos como expostos dão todos os motivos para se acreditar que Fábio é um preso político. Que Fábio não cometeu nenhum crime previsto no Código penal. Que Fábio é um bode expiatório de um Estado amendrontado que necessitava dar uma resposta a manifestações violentas e escolheram Fábio, mesmo que ele não tivesse relação com a violência, para apresentar como troféu.
O governo afirma que Fabio era um black block. Fabio e todos os que o conhecem negam veementemente. Fabio realizou algum ato de violência? Estava portando artefatos explosivos? Coordenou ou liderou ações criminosas? Há que se ter um processo para descobrir. Se não houver processo, se ele foi preso com um flagrante tão mal explicado, ele é um preso político.
A prisão de Fábio atenta contra a sua liberdade. Mas a prisão de Fabio, enquanto não for completamente esclarecida afeta toda a democracia brasileira. Se governantes, com medo de manifestações violentas podem prender cidadãos que não cometeram crimes para dar uma resposta política, o Brasil deixa de ser um Estado de direito. Se os cidadãos brasileiros não se indignarem com uma prisão política como essa, estão dando um cheque em branco para que os governos sejam autoritários.
A Human Rights Watch, uma das principais organizações de Direitos Humanos do mundo, soltou um comunicado, nele se pede para que Fabio seja solto ou que provas sejam apresentadas. Qualquer pessoa presa tem o direito ao devido processo legal. Qualquer pessoa presa tem o direito a ser condenado somente com base em provas. Mas quando uma pessoa está presa por ser um manifestante, exercendo a democracia em sua plenitude, esse direito não é só de Fábio, é de todos nós. O governo deve apresentar provas contundentes de que não houve ilegalidade na prisão e provas dos crimes de que Fábio é acusado. Enquanto não o fizer, Fábio é um preso político.
Uma prisão como a de Fábio nos diminui enquanto democracia. O silêncio perante esta prisão nos diminui enquanto sociedade.
Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.
Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.
MAIS PROTESTOS NO BRASIL POST:
Close
-
O confronto pré-Copa começou com as manifestações pelo País em junho de 2013.
Em algumas cidades, o protesto era contra o aumento na passagem do transporte publico. Foi esse o caso em São Paulo, no dia 11 de junho de 2013, quando aconteceu o terceiro ato do Movimento Passe Livre (MPL).
Mas não era só isso...
-
Brasileiros estavam insatisfeitos com a precariedade de vários serviços públicos e também com os gastos bilionários com a Copa do Mundo.
Por isso, começaram protestos e barricadas nos dias de jogos durante a Copa das Confederações, realizada em junho do ano passado.
Em Brasília, manifestantes ligados a movimentos de luta por moradia queimaram pneus em frente ao Estádio Mané Garrincha no dia 14 de junho, véspera da abertura do torneio
-
Enquanto bombas explodiam ao redor dos estádios, os atletas da Seleção disparavam sua artilharia contra os rivais em campo.
O atacante Lucas era um dos xodós da torcida e esteve em campo na estreia no time brasileiro, contra o Japão, em 15 de junho
-
Além dos governos na mira dos manifestantes, a Fifa era encarada como o poderoso rival a ser batido.
Em protesto no Rio, em 16 de junho, a população deixou isso claro, ao gritar contra o aumento da tarifa do transporte público e os gastos públicos em eventos como a Copa das Confederações, no entorno do Estádio do Maracanã
-
O secretário geral da Fifa, Jêróme Valcke, engrossou com o governo brasileiro sobre a lentidão nas obras, ainda em 2012: "O Brasil merece um chute na bunda!"
Em 27 de junho de 2013, mais calmo, o dirigente dizia que seria necessário convencer os estrangeiros a virem ao Brasil, diante dos protestos por todo o País
-
Enquanto a bola rola, o governo federal corre para entregar as obras prometidas para a Copa do Mundo.
Que o diga a presidente Dilma Rousseff, que por mais de uma vez cobrou os seus ministros sobre o assunto, como no encontro do dia 1º de julho de 2013, em Brasília
-
Nas arquibancadas, o clima era de euforia...
Não foi diferente na decisão da Copa das Confederações, entre Brasil e Espanha, em 30 de junho, um dia antes da reunião ministerial de Dilma
-
... enquanto nas ruas, a tensão dominava.
No mesmo dia da decisão da Copa das Confederações, em 30 de junho, a Fifa voltou a ser alvo nas ruas do Rio de Janeiro
-
Em Brasília, os manifestantes anteciparam a vitória certa: eles tomaram o Congresso Nacional e celebraram o triunfo das ruas.
Isso foi em 17 de junho, pouco menos de uma semana antes da decisão na bola da Copa das Confederações
-
No Rio, a torcida lotou o Maracanã e comemorou a vitória da Seleção.
O time brasileiro goleou a Espanha em 30 de junho e faturou o título do torneio em casa
-
Os zagueiros "brucutus" também queriam participar do jogo.
O hino deles era: #NãoVaiTerCopa.
Eles ganharam os holofotes nos protestos após a Copa das Confederações. Em 26 de julho, em São Paulo, mascarados destruíram agências bancárias na Avenida Paulista. Era algo que se repetiria também em outras cidades do País nos meses seguintes
-
Nem toda a torcida estava feliz com o desempenho do time brasileiro.
Em 1º de agosto, uma manifestação em São Paulo questionava as pessoas presas durante os protestos anteriores. Havia ainda um questionamento de onde estaria o pedreiro Amarildo Souza, desaparecido na favela da Rocinha, no Rio, desde o dia 14 de julho de 2013
-
O treinador acertou o time e a Seleção reconquistou a confiança da torcida.
Uma prova disso veio no amistoso contra Portugal, realizado nos Estados Unidos em 10 de setembro, quando a equipe brasileira venceu por 3 a 1
-
O casal brasileiro Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert foi festejado mundo afora durante o sorteio dos grupos do Mundial.
Eles chamaram a atenção no evento realizado na Costa do Sauípe, na Bahia, no dia 6 de dezembro
-
Neymar era e segue sendo a aposta da Seleção para a conquista do hexa.
Uma boa prova disso veio no dia 5 de março deste ano, quando o craque fez três gols na vitória de 5 a 0 sobre a África do Sul, em amistoso realizado no Soccer City, na capital sul-africana
-
Na frente do placar, time brasileiro sofreu um golpe fenomenal: membro do Comitê Organizador da Copa, Ronaldo disse que se sente envergonhado de ser brasileiro por conta dos atrasos nas obras.
Apesar disso, ele tentou manter as aparências durante o lançamento do Festival Football for Hope 2014, projeto social da Fifa, na Vila Olímpica Mané Garrincha, no Caju, na zona norte do Rio, em 20 de maio deste ano
-
As manifestações continuaram, independentemente do desempenho do time brasileiro em campo.
Quer um exemplo? O ônibus da Seleção foi alvo de protestos durante o percurso até a Granja Comary, centro de treinamento da equipe brasileira, em 26 de maio
-
Nem a taça da Copa não escapou dos protestos.
Foi em Brasília, durante uma manifestação de índios pela demarcação de terras, no dia 27 de maio deste ano