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Cunha deveria ter sido cassado antes de Dilma sair da presidência

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EDUARDO CUNHA
Ueslei Marcelino / Reuters
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Dizem que a ordem dos fatores não altera o resultado na matemática. Mas a matemática da política mostra que a ordem pode ser crucial para determinado futuro, sobretudo quando um País está um jogo.

Para começar, vamos aos números. O impeachment de Dilma na Câmara dos Deputados teve 367 votos favoráveis, 137 contrários, sete abstenções e duas ausências de parlamentares. A cassação do mandato do ex-deputado Eduardo Cunha teve 450 votos favoráveis, 10 contrários, nove abstenções e 42 ausências.

A primeira conclusão óbvia é que Cunha foi detonado na sua defesa de mandato. Depois de denúncias de contas no exterior, mais de R$ 50 milhões do Petrolão e ameaças a deputados para controlar votações, seus 200 aliados que poderiam absolvê-lo acabaram por deixá-lo morrer na praia. 450 votos não é uma perda, é um massacre mais pesado do que o impeachment de Dilma.

A segunda conclusão é que o PMDB, seu partido, liderou a lista de faltas no dia do seu julgamento em 12 de setembro de 2012. O partido tem 66 integrantes ao todo e 10 não apareceram para votar. José Priante, Hugo Motta, Soraya Santos, Washington Reis, Fernando Jordão, Fábio Reis e Rogério Peninha foram aliados e resolveram não ir na votação para não decidir o destino de um dos políticos com mais acusações de milhões de reais desviados.

O pastor Marco Feliciano e Paulinho da Força Sindical votaram contra a cassação de Cunha e permaneceram fiéis até o fim. O golpe contra Dilma teve 367 votos, quase 100 a menos do que o ex-presidente da Câmara, mas somente duas pessoas faltantes.

Para votar o impeachment e continuar os esquemas de corrupção na Câmara dos Deputados e no Senado, os parlamentares foram votar entusiasmados pelo fim do "bolivarianismo", do PT e dos "comunistas". Na hora de cassar um político no tronco da corrupção que os beneficia, quase 50 pessoas sumiram.

Eduardo Cunha foi um assunto recorrente em meus textos no Huffington Post Brasil e no meu Medium.

Questionei por que a Justiça foi rigorosa no caso de José Dirceu, notório articulador do PT, e não foi com Cunha. Afirmei que o depoimento da advogada especialista em delações premiadas, Catta Preta, deveria ser suficiente para derrubá-lo após exibição no Jornal Nacional. Perguntei em meus textos, também, por que raios ninguém bateu panelas contra Cunha. Chamei-o de "golpista" antes do impeachment ser encaminhado.

Mas o melhor de todos os textos foi: "Na crise de Dilma, Cunha e o Congresso precisam ser investigados".

O Parlamento não foi investigado. Eduardo Cunha pode ser o "boi de piranha" para dar uma aparência de legalidade ao impeachment. E, neste contexto, o golpe parlamentar é consolidado.

O golpe não foi para proteger um político específico contra Dilma Rousseff. Mas sim para blindar uma classe política que sempre roubou, com alianças junto ao PT, e se sentiu ameaçada diante da Lava Jato, das investigações da Polícia Federal e dos escândalos internacionais.

Este é o golpe em sua essência. Então a ordem dos fatores altera o resultado.

Cunha deveria ter sido cassado para então se discutir a validade ou não do impeachment de Dilma. Por que ele só foi afastado depois de se derrubar uma presidente da República?

Coincidência? Não acho.

E o tempo vai cobrar e estigmatizar muitos que foram lenientes com Eduardo Cunha nestes tempos. De políticos tucanos, como Aécio Neves e Carlos Sampaio, até jovens lideranças, como Kim Kataguiri, que mandou fotos de bundas para jornalistas e tirou fotografias entusiasmadas com o ex-presidente da Câmara hoje cassado.

LEIA MAIS:

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