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O feminismo versus o GamerGate

Publicado: Atualizado:
FEMINISMO E GAMERGATE
Reprodução/Youtube
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Vamos supor que você é uma menina. Você desenvolve games. Você cria um jogo chamado Depression Quest. Você quer que este jogo seja bem avaliado. Você namora um sujeito e é pega traindo ele. Ao invés dele terminar com você e as brigas serem mantidas entre seus círculos de amigos, ele posta as conversas e suas intimidades na internet. Ele te acusa de vender sexo por resenhas positivas de jornalistas de games. Ele te acusa de comprar uma resenha positiva no site Kotaku, um dos maiores do mundo no segmento de jogos. A resenha nunca é encontrada, mas as acusações permanecem em sites como 9GAG e outros que favorecem o anonimato.

Seu nome é Zoe Quinn. Se você fosse um homem, a história seria a mesma?

Este é o GamerGate.

O maior erro do GamerGate foi se tornar uma notícia. A grande maioria das denuncias a respeito da menina não foram confirmadas. Existiu sexo entre a desenvolvedora e jornalistas de fato? O acontecimento abriu espaço para uma discussão sobre ética válida dentro da imprensa de jogos. No entanto, os detalhes sobre a intimidade de Zoe Quinn também se tornaram notícia, o que é um erro dentro de padrões jornalísticos mais rigorosos.

A intimidade de Zoe constituem boatos, e não notícias. E eles abriram espaço para agressões sérias.

Zoe foi xingada de vagabunda para baixo nas redes sociais. Ela é fonte de ofensas até hoje. Sua vida mudou drasticamente com a exposição pública de sua vida pessoal. Sua traição, em tese, não deveria interessar ninguém publicamente, especialmente num mundo que hoje é embalado pelo feminismo.

Se o namorado de Zoe Quinn fosse pego pulando a cerca, o caos provocado em agosto de 2014 no mundo dos games seria o mesmo? Ele seria xingado de galinha? Sua vida pessoal seria devassada ou ele seria poupado por ser homem? A segunda alternativa se mostra mais verdadeira.

O feminismo, e as pessoas contagiadas pelos seus ideais, levantou-se contra o GamerGate. Anita Sarkeesian, vlogueira famosa pelo programa Feminist Frequency no YouTube, soltou seu episódio "Women as Background, Pt. 2" com financiamento do Kickstarter. O caso de Zoe Quinn e Anita se encontraram, resultando em tuítes que ameaçavam de morte a autora de vídeos com dados da casa dela. Ela se viu forçada a sair temporariamente de sua residência com medo da mensagem enviada no Twitter em setembro.

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Em outubro, Anita Sarkeesian teve uma palestra cancelada na Utah State University por ameaças de tiroteio e terrorismo. No entanto, cada vez que a blogueira sofreu ameaças, sua voz passou a ser mais ouvida. Ela foi até o programa de humor do apresentador Stephen Colbert e falou ao público da TV norte-americana sobre feminismo.

A desenvolvedora de jogos Brianna Wu também sofreu ameaças. A atriz Felicia Day se posicionou sobre o GamerGate e teve dados privados vazados. As invasões crackers e o mal-estar provocaram problemas até para um homem: O desenvolvedor Phil Fish, odiado por parte do público, defendeu Zoe Quinn. Teve seus dados invadidos, além de informações de sua empresa, a Polytron.

Por que a situação chegou neste ponto? O que está acontecendo com a comunidade gamer?

Os jogadores estão inseridos em um cenário machista, predominantemente dominado por homens e por símbolos que reforçam sua presença. No entanto, as mulheres cada vez mais jogam videogames e estão, aos poucos, mudando a estética dos games. Levantamentos como o da Entertainment Software Association (ESA) apontam que 48% do público de videogames é feminino em 2014.

O GamerGate, embora seja um conflito contra o feminismo, nos faz pensar sobre o papel das mulheres na indústria e como elas são vistas de maneira preconceituosa, secundária e até reducionista.

O GamerGate nos mostra como uma não-notícia que envolveu Zoe Quinn se transformou em várias agressões públicas sem justificativa, dignas para serem registradas como notícias.

Se o caso fosse com um homem, não seria a mesma coisa.

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