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'Seria João Doria Jr. o Donald Trump brasileiro?'

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DONALD TRUMP
Reuters/GettyImages
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João Agripino da Costa Doria Júnior (PSDB) venceu de maneira esmagadora o prefeito Fernando Haddad (PT) nas eleições municipais de 2 de outubro. Foram 3.085.187 votos do tucano contra 967.190 votos do petista. Desde a redemocratização brasileira, é a primeira vez que São Paulo elege um candidato em primeiro turno, sem qualquer possibilidade de reação.

A votação comprova que o petismo perdeu apelo com a periferia paulistana e o partido se encontra na sua crise mais aguda desde os anos 90, quando Lula ainda não tinha chegado à Presidência da Repúbica. Em quatro anos, o PT perdeu 60% das prefeituras, ou seja, chegará no máximo até 263 cidades a partir de 2017. No ano de 2012, o partido venceu em 638 candidaturas. É o retrato de um desastre completo.

No entanto, vamos nos focar neste texto na figura de João Doria Jr. Novo tucano, filiado em 2001, vendeu-se na campanha toda como um "não político", um outsider do jogo partidário.

Isso é verdade? Vamos aos fatos.

Doria iniciou sua carreira profissional na fábrica de fraldas da família e foi estagiário numa agência de publicidade. Depois se tornou diretor na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e na Rede Bandeirantes.

Sua carreira sempre teve um forte apelo de mídia e próxima da vida pública: Doria foi secretário de Turismo de São Paulo e presidente da Paulistur (1983-1986) no governo Mario Covas, além de ter sido presidente da Embratur no governo José Sarney.

Apresentou o programa Aprendiz, na Rede Record, comandou por anos o programa de entrevistas Show Business na Rede Bandeirantes e hoje chefia o Grupo Doria, conglomerado que agrega as empresas LIDE - encontro de líderes empresariais -, Doria Administração de Bens, Doria Internacional, Doria Editora, Doria Eventos e Doria Marketing & Imagem.

Com toda essa carreira, João Doria Jr. é milionário.

É dono de uma casa na rua Itália, no Jardim Europa em São Paulo. A propriedade tem 3.304 metros quadrados de área construída dentro de um terreno de 7.031 metros quadrados. Ela vale R$ 46 milhões e é uma das mais caras do Brasil.

Em 2006, Doria meteu-se numa polêmica com o filho do jornalista Claudio Abramo, ícone da Folha de S. Paulo. Ele tirou uma peça de bronze que homenageava o repórter e editor que transformou o jornal num dos mais lidos do País por uma escultura feita por sua esposa Bia Doria, por ser dono da praça. O caso irritou Cláudio Weber Abramo, filho do jornalista, e ele voltou atrás.

Eu estive, como repórter, na propriedade de João Doria em Campos do Jordão. Chamada de Villa Doria, a propriedade tem 16 mil metros quadrados e foi declarada com o valor de R$ 1,99 milhão à Justiça Eleitoral. Há um heliponto no local.

Dentro da mansão que se assemelha a um castelo rochoso, há uma escultura de um artista chamado Emanoel Araújo que, de acordo com fontes, seria doada para Fundo Social de Solidariedade do Estado, vinculado a políticos do PSDB nos anos 90. A obra foi apropriada por Doria ao invés de ir a leilão para ajudar entidades sociais.

É naquela mansão que se localiza uma viela sanitária pública de 365 metros quadrados ocupada por João Doria Jr. de maneira ilegal. O caso foi denunciado pelo jornalista César Tralli, da TV Globo, e só teve repercussão perto da votação que consagrou Doria como vitorioso.

O processo contra a invasão ilegal da viela foi aberto em 1997 e João Doria perdeu em 2009. Ele tentou um acordo em 2012 para dar um gerador para um pronto-socorro em Campos do Jordão e não desocupou o espaço público. Somente neste ano a nova prefeitura, junto com o Ministério Público, ordenou a reintegração de posse.

A amigos, Doria brinca que foi "feito em Campos do Jordão" e que ama a cidade.

A campanha eleitoral foi marcada por dissidências causadas dentro do PSDB por Doria. Sua candidatura foi lançada por Geraldo Alckmin enquanto o grupo de José Serra tentou Andrea Matarazzo. Derrotado nas prévias, Matarazzo saiu do PSDB para ir ao PSD de Gilberto Kassab e foi candidato a vice com Marta Suplicy (PMDB). Ainda dentro da legenda, os testemunhos de José Aníbal e Alberto Goldman embasaram um pedido de cassação da chapa de João Doria com Bruno Covas.

Sua fama de provocar dissidências tucanas não é de hoje. Nos anos 80, quando ocupou cargos públicos, assessores da época afirmam que ele entrou no seio do PSDB por recomendação do fundador Franco Montoro. Mario Covas não aprovava sua presença, embora ele tenha ocupado cargos públicos em sua gestão.

Este é o "empresário" que vai comandar São Paulo a partir de 2017. Seu discurso de campanha se assemelhou bastante com o de Donald Trump na sua tentativa de se tornar presidente nos Estados Unidos. No entanto, Trump apelou para a xenofobia e o preconceito contra mulheres, negros e latinos, enquanto Doria rosnou contra o petismo e as esquerdas.

João Doria também coleciona processos na Justiça.

A empresa Doria Administração de Bens tem uma execução fiscal por falta de pagamento de IPTU, recebida em 2014. Eles também têm uma execução por dívida ativa no ano de 2013. O próprio João Doria Jr. tem seis condenações na Justiça do Trabalho por não pagar ex-seguranças contratados em regime terceirizado pela empresa Provise, entre 2012 e 2013.

Além destes problemas, João Doria pode perder o mandato ganho nas urnas por outros dois processos em andamento. Uma pede a cassação do registro de sua candidatura nesta eleição por abuso de poder político e econômico e foi embasada nos depoimentos de Goldman e Aníbal. A segunda ação judicial contra Doria foi aberta pelo prefeito Fernando Haddad por uso de recursos de oriundos de governos do PSDB para financiar sua campanha.

Os recursos seriam de contratos firmados com os estados de São Paulo, Goiás, Paraná e Mato Grosso para prestação de serviços de publicidade e propaganda. Caso uma das ações prospere, é possível que surjam novas eleições.

Enquanto isso, parece que a população de São Paulo comprou o "discurso de Trump" vindo da propaganda de João Doria Jr.

Podemos dizer sim que Doria é o nosso Donald Trump. Em 1988, quando apresentava Trump em um programa de entrevistas na TV Bandeirantes, João Doria Jr. exaltou como ele era rico e "invejado". Os dois apresentaram o programa Aprendiz na televisão, defendendo a cultura corporativa, a tal da meritocracia e a autoajuda mequetrefe que vende livros.

Hoje Doria se disfarça de "João Trabalhador" numa campanha política bem-sucedida contra Haddad "comunista da bike". A verdade é que veremos nos próximos quatro anos um "Trump paulistano".

Seria Doria o empresário "Donald Trump brasileiro" que merecemos?

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