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Da Grã-Bretanha à Pequena Inglaterra

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ASSOCIATED PRESS
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O voto pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, é um desastre singular para o Reino Unido e potencialmente assinala um momento de virada, o início de um perigoso recuo jingoísta em relação à visão internacional liberal que caracterizou as últimas três gerações.

E não é apenas na Inglaterra que se vê um forte movimento nacionalista contrário às instituições de governo estabelecidas. Isso existe na França, onde a Frente Nacional de Marine Le Pen avança com cada eleição, e na Áustria, onde um candidato de direita foi derrotado para a Presidência apenas por margem estreitíssima. "É uma história de desilusão. A campanha do Brexit inspirou-se na quase ilimitada falta de confiança nas elites surgida na esteira da Grande Recessão", escreveu Marc Champion em "Bloomberg Politics".

Este gringo que vos fala viveu no Reino Unido por muitos anos a partir de 1962, quando o país ainda se recuperava da guerra, e, embora houvesse escassez de muitas coisas, havia um clima crescente de transformação, a impressão de que a Europa que os britânicos tinham lutado tanto para libertar estava muito mais próxima e mais acessível do que tinha sido antes da guerra.

Os soldados que retornaram da guerra, apesar de terem assistido à devastação do conflito, tinham encontrado muitas coisas que lhes agradaram no "continente" ("o Continente" é como os britânicos aludiam à Europa, NT), coisas que antes conheciam apenas de livros didáticos repletos da história das guerras e dos preconceitos britânicos, histórias de pessoas estranhas que não falavam inglês e comiam pernas de rãs.

Os "swinging sixties" trouxeram uma ilusão de um novo internacionalismo. A comida britânica tradicional, excessivamente cozida, deu lugar a trattorias italianas sofisticadas, bistrôs franceses informais e a presença de uma variedade extensa de especialidades estrangeiras nos supermercados, como as massas frescas. Atravessar o Canal da Mancha para passar férias na Europa era "cool". Possivelmente pela primeira vez, havia a impressão de que os britânicos eram de fato "europeus".

O fruto daquela ideia grandiosa e da visão e energia de seu gênio condutor, Jean Monnet, uma união verdadeira entre países antes inimigos, a eliminação das fronteiras "nacionais" artificiais para promover o comércio, a liberdade de movimento de pessoas de qualquer um dos países membros para imigrar e trabalhar em qualquer outro país membro - esses foram os motores da União Europeia.

O otimismo estava no ar, e a UE nasceu. Ninguém achou que ela seria perfeita ("união" significa abrir mão de alguma coisa para ganhar outra), mas o comércio floresceu, a introdução da moeda única, o euro, foi um sucesso, e as reações contrárias dos países membros foram limitadas, não obstante uma pressão constante da sede da UE, em Bruxelas, por uma união política mais estreita e por mais poder centralizado nas mãos de burocratas não eleitos.

É claro que sempre houve no Reino Unido pessoas que eram contra a UE, sentadas em seus pubs tomando cerveja morna e desancando a União Europeia. O que elas enxergavam era uma diminuição de seu "britanismo" singular. Os britânicos não aderiram ao euro; conservaram a libra esterlina. E viam um número cada vez maior de migrantes tirando partido dos serviços sociais britânicos, competindo com os britânicos pelos empregos e transformando a cara da Grã-Bretanha.

Tudo isso ficou mais problemático com o início da crise financeira, a onda grande de refugiados e a resposta ineficaz da UE. As promessas de políticos e "especialistas" não foram cumpridas. O crescimento econômico prometido sempre era adiado, e os padrões de vida estagnaram.

Se isso acontecesse apenas no Reino Unido já seria ruim, mas, escreveu Champion, mas o movimento "... encontra ecos em todo o mundo. Ele nasceu do mesmo coquetel de insatisfações que os movimentos nacionalistas em toda a Europa, além da campanha presidencial de Donald Trump, segundo entrevistas com historiadores, institutos de pesquisas, analistas e ex-diplomatas."

O que vai acontecer agora?

Será que o Brexit vai inspirar outros países a separar-se da UE, e, se sim, será que a UE deixará de existir (um eco não pretendido da dissolução da União Soviética em 1991)? E o que tomará seu lugar, se é que alguma coisa o fará?

É certo que nada vai acontecer rapidamente, e ainda é cedo para saber se a maré de nacionalismo e autoritarismo no mundo vai continuar a subir. Uma coisa é certa: com o resultado de seu plebiscito, a Grã-Bretanha encolheu, pelo menos por enquanto. Se ela vai voltar a ser uma "Pequena Inglaterra", isso é algo que apenas o tempo dirá.

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