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Um convite à intimidade

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INTIMIDADE
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Em sua mais recente "pesquisa" teatral, Antunes Filho mais uma vez nos força a uma experiência teatral completamente nova, que nos deixa com um senso de intimidade.

Blanche, que está sendo apresentada num espaço do Sesc Consolação dedicado ao Centro de Pesquisa Teatral de Antunes, usa apenas "Fonemol", uma língua imaginária na qual os atores parecem fluentes, mas da qual não entendemos nem uma palavra sequer. Só nos resta observar a ação e ouvir as cadências vocais, os gritos e sussurros, a montanha-russa de emoções expressadas sem a ajuda de palavras que possamos compreender. Logo nos acostumamos, e esse estratagema concentra nossa atenção no que os atores estão expressando de modo a romper a barreira às vezes criada pela linguagem. Enxergamos com mais clareza.

A peça é baseada em Um Bonde Chamado Desejo, peça de 1947 de Tennessee Williams premiada com o Pulitzer e considerada, com Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O'Neill (escrita uma década depois), uma das duas obras de dramaturgia mais importantes dos Estados Unidos.

Tendo perdido todo o luxo que a identificava como uma "belle" do sul americano, mas ainda afetando o ar de sofisticação de seu passado, Blanche DuBois veio ficar com sua irmã pobre Stella e seu marido em sua casa modesta, em New Orleans. DuBois, escreveu um resenhista do jornal britânico Daily Telegraph, "é a melhor heroína trágica e um dos personagens mais complexos, encantadores e sensíveis do teatro americano do século 20."

Antunes e seu excelente elenco nos conduzem numa experiência da tensão terrível entre Blanche e Stella, da chegada de Blanche, usando um chapéu com véu e luvas, maquiagem exagerada e observando o espaço com desdém, pisando numa barata e tomando um copo cheio de uísque enquanto espera a irmã. Sabemos imediatamente ao ver Stella que, embora não esteja feliz com o que a vida lhe oferece, ela tenta fazer o melhor de tudo e de seu casamento conturbado com Stanley. Há muito tempo ela abandonou as pretensões que são tudo o que resta para Blanche. Como notou um crítico perceptivo:

"Stella, Blanche e Stanley são frágeis, têm defeitos e se atrapalham - ou seja, como todos nós. Diferentemente dos bondes, que seguem uma trilha previsível, os desejos tendem a perder o rumo... entrando em becos sem saída, depois se dividindo por várias avenidas de uma só vez".

Colocar o brilhante ator Marcos de Andrade no papel de Blanche dá uma dimensão extra para nossa compreensão da fragilidade das relações entre os personagens e, por extensão, de nós mesmos. Sem a sinalização da linguagem, somos forçados a nos aproximar de Stella, Blance e Stanley, muito mais do que acontece com a maioria dos personagens que vemos nos palcos. A avenida de Blanche é a da solidão, a de um paraíso imaginário perdido. Stella, que engravida e dá à luz durante a peça, está preparada para perdoar e esquecer até mesmo as surras que leva de Stanley. Stanley é o estereótipo de um marido do sul dos Estados Unidos: bebe muito, joga cartas e é um bully, no fundo um homem fraco que, no momento mais dramático da peça, estupra a irmã da mulher, a manda para um hospício e consegue o perdão de Stella.

No fim da peça, quando Blanche é levada por um médico e um enfermeiro, seria impossível não sentir que estamos lá, que somos parte da ação, que esses personagens viraram parte de nossas vidas. Tennessee Williams é citado no programa, dizendo:

"A verdade sobre um personagem, tanto no teatro quanto na vida, depende da intimidade de cada espectador. Cada um terá um terá uma impressão diferente dos personagens, com um certo grau de complexidade".

Se criar essa intimidade extraordinária é uma função da "pesquisa" de Antunes, nós que a experimentamos em "Blanche" temos muita sorte de ter sido participantes.

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