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O desafio do Balé da Cidade

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DANA TITA
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A pergunta é: será que o Balé da Cidade de São Paulo estará à altura do enorme desafio artístico representado pela primeira sinfonia de Gustav Mahler, com a estréia de "Titã", um novo trabalho idealizado, coreografado e iluminado pelo italiano Stefano Poda? A sinfonia será apresentada ao vivo pela Orquestra Municipal de São Paulo, sob a regência de Eduardo Strausser. A estréia mundial acontece em 10 de setembro, e as apresentações continuam no Theatro Municipal até dia 15.

Por mais de meio século depois da morte de Mahler, em 1911 em Veneza, o senso geral era que suas sinfonias eram complexas demais para a dança. Essa percepção ficou para trás com o trabalho brilhante do coreógrafo John Neumeier, em 1975, para o Balé de Hamburgo, usando como base a terceira sinfonia de Mahler.

Mahler escreveu que "compor é como brincar com blocos, cada novo edifício é criado e recriado usando sempre os mesmos blocos. De fato, esses blocos já estavam aí desde a infância, a única época que é usada para colecionar". Originalmente designada pelo compositor como um "poema sinfônico" e intitulada "Titã" em homenagem ao grande romance de Jean Paul de mesmo nome, essa primeira sinfonia está cheia de blocos e melodias tão familiares quanto "Frère Jacques". Como escreveu o jornal britânico "The Guardian": "Esta peça contém e representa o mundo da natureza, um mundo de sátira humana, de trauma pessoal emocional que se transforma em uma experiência universal". Não é tarefa fácil transformar essa sinfonia bela e comovente em dança sem diminuí-la.

Esse era o desafio artístico, justamente o tipo de desafio em que Stefano Poda se destaca. Ele construiu uma carreira meteórica combinando cenário, iluminação e movimento. Embora trabalhe basicamente com óperas, muitos de seus mais de cem trabalhos incluem movimentos de dança, mas eles nunca foram tão centrais como agora. Com um "amor cego por Mahler", Poda diz que seus blocos, como os do compositor, vêm de sua disposição de se libertar das convenções, deixando se dominar pelas emoções.

tita dança

"A verdadeira viagem da descoberta consiste não em procurar novos territórios, mas sim enxergar com novos olhos", escreveu o francês Marcel Proust, uma das grandes influências de Poda. Libertado das amarras de um libretto de ópera, este trabalho, afirma ele, tem significado especial e oferece uma liberdade incomum para criar. "'Titã' não é uma trilha sonora sobre a qual vem uma coreografia. É uma oportunidade de viajar pelas emoções, das mais simples às mais extremas. É uma reflexão sobre nosso tempo, nossa vida. Quero que todos os que vejam o espetáculo reconheçam suas próprias histórias, entrem em contato com seus eus mais íntimos, sintam o que não é dito."

Desde que assumiu a direção artística do Balé da Cidade, em 2013, Iracity Cardoso tem estado muito ocupada. Criada em 1958, a companhia surgiu de um grupo de balé originalmente usado para os divertissements de óperas. Ao longo do tempo, ela se afirmou como uma trupe de balé forte e moderna. Como qualquer empreitada criativa com uma longa história, o Balé precisava de renovação, e esse se tornou o principal esforço de Cardoso. O comissionamento e a produção de 'Titã', um trabalho novo com um coreógrafo internacionalmente reconhecido e o apoio de uma ótima orquestra sinfônica, representa um ponto de inflexão.

É o tipo de desafio que toda companhia de dança adora. "Titã", diz Cardoso, "é fruto de uma grande colaboração com o Balé da Cidade. Vai mostrar a versatilidade dos nossos excelentes dançarinos. Além disso, trabalhar com Stefano é desafiador porque as propostas estão cheias de significado, expressões intensas e qualidades artísticas exigentes."

dança tita 3

Não há dúvida de que "Titã" seja extremamente original. Lembrando uma praia ou uma caixa de areia de crianças, o palco está coberto de areia. Um globo gigante está pendurado no teto. Todos os 32 dançarinos da companhia vestem calças jeans e estão em cena durante os 70 minutos. A iluminação é dramática.

A resposta à pergunta essencial - se a obra está à altura do desafio de adicionar uma nova dimensão à extraordinária sinfonia de Mahler -- depende, como sugere Poda, de cada espectador.

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